Ah, se fosse tão simples!
Despertei
num quarto luxuoso, como se fosse convidado a habitar um sonho. As janelas
largas deixavam entrar a luz dourada da manhã e, ao longe, erguia-se a colina
das Três Cruzes, imponente, quase severa, como se vigiasse os pecados e os
desejos de quem ousasse olhá-la por demasiado tempo. Diz a lenda que ali, no
século XVII, sete frades franciscanos foram decapitados, e desde então as
cruzes erguidas simbolizam não só a dor, mas também a força que nasce das
adversidades.
O
dia prometia, não fosse eu estar em Vilnius, capital da Lituânia, classificada
como Património Mundial da UNESCO. Depois de um banho que me despiu do sono e
das tristezas, vesti a pele como quem renasce. Lambuzei-me num pequeno-almoço
colorido, um festim de frutas, queijos e pães, como se cada sabor fosse uma
promessa carnal. E então saí para a cidade, com fome de descobertas.
Percorri
a Porta da Madrugada, onde fiéis rezavam silenciosamente diante do ícone da
Virgem, e senti um arrepio: a espiritualidade ali não era apenas crença, era carne
viva. Caminhei pela Catedral de Vilnius, de fachada clássica, e deixei-me
envolver pelas colunas que pareciam braços prontos a acolher. Subi até a Torre
de Gediminas, de onde a cidade se descortinava em telhados vermelhos e ruas que
serpenteavam como desejos reprimidos. Passei pelo bairro de Užupis, a república
dos artistas, onde tudo é permitido: a arte, o amor, até a loucura. Ri sozinho
diante da sua constituição gravada em várias línguas, sobretudo quando li:
“Todos têm o direito de amar.” Ah, se fosse tão simples!
Já
era tarde quando, distraído com tantas belezas, percebi que não tinha almoçado.
Entrei então num restaurante escondido no centro histórico, erguido sobre
ruínas antigas, como se o tempo ali tivesse parado para servir-me à mesa. No
pátio interior, um jardim secreto respirava flores e frescor. O aroma da carne
assada chegou antes mesmo do prato pousar diante de mim. Era tenra, suculenta,
quase erótica na forma como se desmanchava na boca. Acompanhei-a com um vinho
tinto aromático, quente e sedutor, que se derramava pela língua como um beijo
prolongado.
Depois,
continuei a caminhar. O centro histórico fervilhava e, para minha surpresa, uma
filmagem acontecia ali mesmo, no meio do público. Era uma cena de amor. A atriz,
uma mulher de beleza quase feroz — magra, com o corpo bem contornado, cabelos
selvagens e olhos que brilhavam mais que a própria cidade — chorava de verdade.
As lágrimas escorriam, e entre soluços dizia: “Deixei deslizar os dedos da tua
mão, um pouquinho a cada dia, até que um dia tu foste embora.”
Dói
o peito, falta o ar, como se fossem as minhas mãos. São histórias repetidas por
casais no mundo inteiro. Fiquei paralisado, mas gritei em silêncio: deixa
partir… o amor não pode ser âncora que aprisiona, mas uma estrada que conduz,
vento que impulsiona como um voo em asa delta. Mesmo quando desejamos que os
caminhos, as decisões e as palavras tivessem sido outras, é preciso aceitar o
fim de um ciclo e o começo de outro.
Quem
chega, entra na tua vida por uma "razão", uma "estação" ou
uma "vida inteira" e, em qualquer situação, tu vais repartir
felicidade, mas tens que aprender a jogar o livro fora quando já não tem mais
nenhuma página em branco para ser escrita, de modo a poderes aceitar a
inexistência da continuação. Algumas coisas morrem sem o teu consentimento, mas
mantem a vela acesa e não temas, principalmente não tremas porque a vela pode
apagar.
Quando
se mergulha numa separação, parece que tudo se torna mais lento, que as horas
não passam. Desistimos de viver o presente para não sentir a tristeza, olhamos
para o passado como se fosse possível alterá-lo e até nos esquecemos que o
mundo está cheio de pessoas incríveis que nos fazem reconhecer que o amor
perdido no silêncio do tempo foi o tempo perdido para ser feliz.
A
vida é feita de movimentos inesperados. Tudo muda, tudo se transforma com o
tempo…nada permanece igual. O que nos resta são os bons momentos que foram
vividos e que ficaram guardados para sempre em nossa lembrança. No meio da
confusão, encontra a simplicidade; a partir da discórdia, encontra a harmonia;
no meio da dificuldade, procura uma oportunidade.
A
vida é a arte de tirar conclusões suficientes a partir de antecedentes
insuficientes, porque nada é perfeito, mas para tudo existe uma solução; o
maior problema está em nós, na nossa dificuldade de encarar os fatos e
intuirmos as evidencias.
Quem
ama sozinho tem tão pouco, que se apega a quase nada; a vida é um fluxo
constante de acontecimentos… tudo vem e tudo vai, e quando chega tudo acontece.
Desta forma, podemos aproveitar este tempo para construir uma versão melhorada
de nós mesmos.
Regressei
ao hotel já no fim da tarde. Refresquei-me, vesti outra pele — desta vez mais
leve, mais noturna — e mergulhei no ritmo da cidade outra vez. A noite em
Vilnius é um convite ao pecado: bares com música suave, gargalhadas que ecoam
pelas ruas estreitas, e, claro, a bebida nacional que todos os lituanos amam.
Segurei o copo com firmeza, bebi devagar, deixando o líquido forte queimar-me a
garganta e acender-me o corpo. Ali, embriagado de liberdade, pensei em visitar a
Bielorrússia, mas desisti. Estava ali tão perto e tão distante, prisioneira de
um regime autocrático, onde o poder político está concentrado nas mãos de um
único indivíduo, que
sufoca a alma de um povo. Suspirei, grato por estar onde estava: numa Europa
onde, apesar de tudo, podia escolher.
Já
era madrugada quando regressei ao hotel. O quarto, templo de prazer e repouso,
envolveu-me como um amante generoso. O corpo relaxou, a mente divagou e, por um
instante, quase acreditei que poderia dormir nos braços da própria cidade e
continuar a sonhar com a Europa livre — onde a liberdade é a cama mais macia e
o abraço mais sincero que alguém pode ter.
Diário
de uma viagem – 43 dia – 08/08/2025

Comentários
Enviar um comentário