Afinal, que separação nos une?

 


Parti de Helsínquia com o coração cheio e, ao mesmo tempo, apertado pela saudade precoce de uma cidade que me recebeu com um abraço invisível. Ainda podia sentir o cheiro frio do vento no porto, o murmúrio das ruas e o calor humano que tantas vezes quebra o gelo do Norte. O meu destino era Tallinn, a joia da Estónia — um país que respira diversidade: praias rochosas onde o mar se despedaça em espuma branca, florestas primitivas que guardam segredos ancestrais e lagos tão serenos que parecem espelhos de um tempo que parou. Fiquei a saber que esta antiga república soviética, repleta de castelos, igrejas e fortalezas, é hoje o país mais digital do mundo — um paradoxo encantador entre o medieval e o futurista.

A travessia de ferry começou cedo, quando o sol ainda pintava de dourado as ondas que dançavam suavemente. O ar era frio, mas limpo, e o céu parecia uma tela onde as nuvens eram pinceladas preguiçosas. O staff, sempre sorridente, recebia cada passageiro como se fosse um velho amigo. No restaurante a bordo, a mesa junto à janela oferecia-me um quadro vivo: o mar imenso, infinito, respirando calma. O almoço era simples, mas reconfortante, o tipo de refeição que sabe melhor quando o horizonte está em movimento.

Foi nesta envolvência que o meu telemóvel vibrou. Uma mensagem no WhatsApp, apenas quatro frases, mas carregadas de peso e ternura: “Por onde andas? Quando voltas? Tenho saudades tuas. Gosto de ti, para que saibas.”

Aquelas palavras caíram em mim como uma gota de mel num copo de vinho — misturando-se lentamente, criando algo novo. Olhei novamente pela janela e percebi que aquele mar calmo era o mesmo que sentia por dentro. Pensei no que já tinha aprendido com ela, nos momentos felizes que guardo como relíquias, acreditando que melhor ainda está para vir.

Que sentimento me move? Isso eu não sei explicar, porque as coisas mais simples da vida não têm explicação, mas, com ela já aprendi que somos nós que fazemos os lugares sagrados e não os lugares sagrados que nos fazem santos; que a emoção é o perigo que o desejo deixa entrar.

Afinal, o que nos separa? Ou seja, que separação nos une? É preciso aprender a desaprender para aprender o novo e isso implica abandonar conceitos antigos. Pois é! Eu com ela aprendi que ignorar os sentimentos não os altera; que ninguém é perfeito até se apaixonar; que as oportunidades nunca são perdidas porque alguém vai aproveitar; que todos querem viver no topo da montanha, mas felicidade começa na escalada; que respeitar os valores dos outros é reconhecer os nossos; que quanto menos tempo tenho, muitas mais coisas consigo aprender.

Que grande confusão! Por vezes perco-me pelos labirintos da minha mente, às vezes nem sei quem sou com tantas incertezas. Quando procuro uma resposta para compreender o sentido real da vida, aparecem mil perguntas e, quando consigo encontrar uma resposta, já mudaram todas as perguntas.

A primazia entre razão ou emoção permeia todas as nossas ações, mas, dentro da nossa cabeça, esses dois limites não são assim tão claros quando sentimos que o segredo da vida é saber ordenar as emoções desordenadas, mas ordená-las de tal modo que se faça sentir ainda melhor a desordem.

Umas vezes tu conquistas a “razão” quando o teu desejo cansa de procurar e pára, outras vezes ficas pela “intuição” quando o teu coração dá um pulinho ao futuro e volta para a emoção, como o trailer de um filme que pode ser que nem exista.

Fica tudo muito confuso! Quando interiorizares que o passado está sempre acontecer, tu vais sentir a alma repartida, recalcada, vivida num outro coração. Tu vais aprender que a felicidade é um “agora” que não tem pressa nenhuma e até já podes explicar que emoção é o perigo que o desejo deixa entrar e que amizade só acontece quando te emprestas aos outros. Ambos temos muito para aprender! Mas sobre o nosso sentimento? Isso eu não sei explicar, porque as coisas mais simples da vida não têm explicação.

Cheguei a Tallinn. Desembarquei o carro e segui para o hotel, que me surpreendeu pela arquitetura elegante, uma mistura de linhas modernas com toques históricos, como se o edifício tivesse memórias próprias. Na receção, fui recebido por Elina — uma estoniana de beleza rara, o tipo de beleza que não grita, mas sussurra. Alta, pele clara como neve recém-caída, cabelos dourados que captavam a luz como fios de âmbar, e uns olhos de azul profundo, tão nítidos que parecia impossível não me perder neles.

Deixei as malas no quarto e, com algumas horas ainda por gastar, parti à descoberta da cidade. As ruas de paralelepípedos do centro histórico de Tallinn pareciam saídas de um conto, com fachadas coloridas, janelas de madeira trabalhada e aromas que se escapavam de pequenas portas. Numa dessas ruas, encontrei um restaurante elegante, aconchegado entre duas casas antigas. O jantar foi um mergulho nos sabores locais: peixe fresco do Báltico, pão negro quente e um copo de vinho do Douro — um pedaço de Portugal que me acompanhava mesmo ali, tão longe.

Ao regressar ao hotel, Elina sorriu e perguntou se tinha jantado bem. Depois, sugeriu-me um bar elegante onde serviam Vana Tallinn, um licor tradicional da Estónia, doce e especiado, perfeito para aquecer conversas. Brincando com a coragem do momento, perguntei-lhe se tinha tempo para me acompanhar. Os seus olhos brilharam como se escondessem uma pequena chama e, num sorriso tímido, respondeu que seria um prazer raro, pois sonhava em conhecer Lisboa.

Entre goles de Vana Tallinn e uma música suave que se misturava com a luz baixa, fomos trocando pedaços de mundos. Falei-lhe de Portugal para além de Lisboa, dos recantos do interior onde o tempo é mais lento, da gastronomia que é puro abraço, e da gente que não sabe receber de outra forma senão de braços abertos. Ela falou-me do silêncio das florestas estonianas, dos invernos que moldam a alma e das histórias escondidas nas pedras das suas muralhas.

De volta ao hotel, respondi com calma à mensagem que tinha recebido no ferry: “Ando na descoberta do mundo onde nasci e, sobretudo, do meu próprio interior… Preciso de descobrir a cor mais viva deste arco-íris que envolve o sentimento que tenho por ti”.

Diário de uma viagem – 34 dia – 30/07/2025

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