Usava calças de ganga rasgadas!

 


Saí de Antuérpia ainda com os primeiros raios da madrugada a despontar por entre os telhados antigos da cidade. A luz era suave, dourada, como se o dia tivesse despertado apenas para mim. O motor do meu carro sussurrava um cântico de liberdade, e o silêncio das ruas matinais era o prelúdio perfeito para uma viagem sem planos rígidos, apenas a estrada à frente e o desejo de descobrir mais do mundo e de mim mesmo.

O destino era Amesterdão, mas como toda viagem bonita, fiz questão de deixar espaço para o improviso. A paragem em Haia foi quase instintiva — aquela cidade elegante, de alma política e espírito artístico, sempre me cativa. Estacionei perto de um pequeno restaurante de esquina, com toldos vermelhos e um aroma de especiarias no ar que me fez esquecer o tempo.

Lá dentro, entre as conversas apressadas e os talheres a tilintar, notei numa mulher de beleza crua e genuína, como quem não precisa de ornamentos para brilhar. Usava calças de ganga rasgadas, uma t-shirt coçada, sapatilhas branco-sujo e um ar levemente rebelde. Mas havia uma delicadeza no seu olhar que me desmontou. Estava de pé, esperando por uma mesa, até que cruzamos olhares — e o seu sorriso foi um pedido mudo. Um convite para o acaso. Fiz sinal, oferecendo-lhe a cadeira vazia à minha frente. Ela aceitou com a leveza de quem confia no universo.

Thank you, I’m Lorena — disse ela, com uma voz doce e firme. I’m Maurício. Nice to meet you — respondi, sentindo uma estranha familiaridade naquele encontro.

Conversámos durante o almoço sobre os mistérios da vida, sobre como o acaso tece laços invisíveis que, por vezes, se tornam eternos. Partilhámos histórias, memórias, risos contidos. Descobrimos, entre uma garfada e outra, que ambos seguíamos para Amesterdão. Ela aguardava um transporte. Eu ofereci-lhe boleia — e ela aceitou com aquele mesmo sorriso que, horas antes, me desarmara.

A estrada foi um cenário de cinema. O sol, agora já alto, tingia os campos com tons de ouro e âmbar. Os moinhos pontilhavam o horizonte, serenos, e os canais brilhavam como espelhos do céu. Lorena falava com voz serena, e no timbre dela havia tristeza e liberdade — contava-me sobre o divórcio recente, sobre a decisão de viajar sozinha para reencontrar-se. Eu disse-lhe que viajo para conhecer o mundo… mas percebi que, por vezes, o mundo vem ao nosso encontro.

Eu associo mais a história da Lorena à boa sorte do pássaro que acordou cedo do que a má sorte da minhoca. Eu sou dos que pensam que não ser amado é falta de sorte, mas não ter a capacidade de amar é uma infelicidade.

Há dias que parece que tudo corre mal. Nesses dias luta por manter a vela acesa, não temas, e principalmente não tremas muito, porque a chama pode apagar. Custa, não é? Quando parece que a tua vida é estável, quieta e de repente, tudo muda e passa a ser a vida mais complicada e instável de sempre, custa pois. Eu sei disso!

Se na vida não podemos controlar o que nos acontece, há uma coisa que podemos monitorizar: a nossa atitude. Perante as situações que a vida nos impõe, decidimos como nos comportamos, como pensamos e como devemos agir.

O tempo vai ser o dono da razão, porque nenhuma oportunidade falhada é o último biscoito do pacote e, aos poucos, a vida vai te mostrando aquilo que deves lutar e do que deves desistir, e em todas estas decisões, há sempre um lado que perde ganhando e um outro que ganha perdendo. É imprescindível ter a capacidade de lembrar o passado como uma aprendizagem e não julgar ou subestimar os momentos menos bons.

Se estás atrasada para nova direção dá ao destino uma nova fantasia! Nos momentos mais difíceis, aparece sempre um teu outro eu que mantem a chama acesa. Alguém que se arrasta já arrastado para te segurar a mão, em silêncio, sem te pedir nada em troca. Aquele sentimento que está sempre presente e te leva a uma trilha onde amizade é mais valorada do que o próprio amor.

Existe um poeta que diz que a verdadeira amizade é um amor que nunca morre. Concordo e verto emocionado as palavras que escutei da voz da minha grande amiga Lígia “Amizade sincera, é diamante raro e de inestimável valor, é um tesouro que apenas alguns têm o privilégio de usufruir, sendo que eu e tu, amigo, duas pessoas privilegiadas.”

A viagem passou como um sopro. Rimos, partilhámos silêncios confortáveis, cantámos ao acaso quando o rádio tocava músicas conhecidas. E quando finalmente a noite caiu sobre Amesterdão, as luzes da cidade refletiam-se nos canais como constelações perdidas — e senti que aquele dia não terminaria como outro qualquer.

Curiosamente, os nossos hotéis ficavam perto. O destino, mais uma vez, a brincar de unir os pontos. Antes de nos despedirmos, foi ela quem quebrou o encanto com um novo feitiço: Would you like to join me for dinner, Maurício?

Aceitei. Jantámos num restaurante tranquilo, com velas a tremeluzir nas mesas e o aroma do vinho a aquecer a noite. Falámos sobre amizade — aquela verdadeira, que nasce sem planos nem pressa. E entre palavras simples e olhares longos, percebi que, mesmo sem promessas, aquele encontro já era inesquecível.

Há dias que não cabem na memória — pedem lugar no coração, porque ser amigo é escutar o silêncio e entender o motivo!

 

Diário de uma viagem – 18 dia – 14/07/2025

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