Sinto a tua falta…
A
paisagem em redor ia-se transformando lentamente — os tons ocres de Aragón iam
dando lugar a campos verdejantes, salpicados de girassóis e pequenas quintas
perdidas no tempo. As colinas ondulavam como lençóis de linho, e o céu, pintado
de azul profundo, fazia contraste com as cores quentes da terra. Era como
atravessar um quadro impressionista em movimento.
Cheguei
a Lérida perto da hora de almoço, com o apetite já a crescer e o desejo de algo
mais do que apenas comida. Encontrei um pequeno restaurante escondido numa
ruela antiga, com janelas de madeira e cortinas de renda. Entrei. O aroma a
ervas frescas e pão acabado de sair do forno envolveu-me como um abraço.
Escolhi uma mesa junto à janela, onde o sol entrava suave, e deixei-me levar. O
vinho era rosé, fresco, com notas de frutos vermelhos — quase tão sedutor como
o olhar da rapariga da mesa ao lado. A comida chegou com a delicadeza de um
gesto apaixonado: massa fina, queijo derretido, manjericão no ponto certo… Um
almoço para saborear com os olhos semicerrados e os lábios ainda molhados do
vinho.
Segui
viagem com o coração quente e um sorriso sem pressa. Entre Lérida e Manresa, o
mundo parecia mais vivo. Os campos dançavam com o vento, as árvores curvavam-se
como se saudassem quem passava, e as cores — verdes, amarelos,
castanhos-terrosos — misturavam-se num espetáculo hipnótico. Era impossível não
sentir que a natureza também estava de romance.
Foi
já a meio da tarde, perto de Manresa, que o telemóvel tocou. “Estás longe?”, perguntou
a voz que eu nunca esqueci. “A caminho, mas talvez mais perto do que antes.” Houve
silêncio! Daqueles que dizem mais do que palavras. “Sinto a tua falta…”, confessou,
com ternura.
Continuei
a viagem com o coração agitado e os pensamentos em espiral. A estrada até
Girona desenhava-se como uma carícia contínua, e quando a cidade surgiu ao
longe, envolta numa luz dourada de fim de tarde, senti que aquele dia não fora
apenas uma travessia de lugares — mas uma travessia de emoções.
Girona
recebeu-me com ruas de pedra, pontes encantadas e um céu onde o dia ainda
resistia. E eu, cansado, mas cheio de vida, soube que esta viagem tinha sido
mais do que uma rota. Tinha sido um reencontro com tudo o que ainda pulsa
dentro de mim.
Diário
de uma viagem – 5º dia – 01/07/2025

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