Sinto a tua falta…


 Parti de Zaragoza para percorrer 374 km, numa manhã luminosa, daquelas em que o céu parece sorrir e o ar fresco desperta todos os sentidos. O carro deslizava pela estrada como se soubesse o caminho do prazer, e eu, com os vidros semiabertos e música leve a embalar o corpo, sentia-me livre, leve, como se cada quilómetro fosse um convite a sentir mais.

A paisagem em redor ia-se transformando lentamente — os tons ocres de Aragón iam dando lugar a campos verdejantes, salpicados de girassóis e pequenas quintas perdidas no tempo. As colinas ondulavam como lençóis de linho, e o céu, pintado de azul profundo, fazia contraste com as cores quentes da terra. Era como atravessar um quadro impressionista em movimento.

Cheguei a Lérida perto da hora de almoço, com o apetite já a crescer e o desejo de algo mais do que apenas comida. Encontrei um pequeno restaurante escondido numa ruela antiga, com janelas de madeira e cortinas de renda. Entrei. O aroma a ervas frescas e pão acabado de sair do forno envolveu-me como um abraço. Escolhi uma mesa junto à janela, onde o sol entrava suave, e deixei-me levar. O vinho era rosé, fresco, com notas de frutos vermelhos — quase tão sedutor como o olhar da rapariga da mesa ao lado. A comida chegou com a delicadeza de um gesto apaixonado: massa fina, queijo derretido, manjericão no ponto certo… Um almoço para saborear com os olhos semicerrados e os lábios ainda molhados do vinho.

Segui viagem com o coração quente e um sorriso sem pressa. Entre Lérida e Manresa, o mundo parecia mais vivo. Os campos dançavam com o vento, as árvores curvavam-se como se saudassem quem passava, e as cores — verdes, amarelos, castanhos-terrosos — misturavam-se num espetáculo hipnótico. Era impossível não sentir que a natureza também estava de romance.

Foi já a meio da tarde, perto de Manresa, que o telemóvel tocou. “Estás longe?”, perguntou a voz que eu nunca esqueci. “A caminho, mas talvez mais perto do que antes.” Houve silêncio! Daqueles que dizem mais do que palavras. “Sinto a tua falta…”, confessou, com ternura.

Continuei a viagem com o coração agitado e os pensamentos em espiral. A estrada até Girona desenhava-se como uma carícia contínua, e quando a cidade surgiu ao longe, envolta numa luz dourada de fim de tarde, senti que aquele dia não fora apenas uma travessia de lugares — mas uma travessia de emoções.

Girona recebeu-me com ruas de pedra, pontes encantadas e um céu onde o dia ainda resistia. E eu, cansado, mas cheio de vida, soube que esta viagem tinha sido mais do que uma rota. Tinha sido um reencontro com tudo o que ainda pulsa dentro de mim.

Diário de uma viagem – 5º dia – 01/07/2025

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