Se tu quiseres eu hei de querer também!
Despertei
em Hamburgo com a luz suave de um sol tímido a infiltrar-se pelas cortinas do
quarto. Eram já dez horas quando abri os olhos, com aquela deliciosa sensação
de corpo descansado e alma leve. Espreguicei-me lentamente e fui até à janela —
e lá estava ele, o Elba, como um velho amigo que me esperava pacientemente.
Corria calmo, como se me sussurrasse segredos antigos, convidando-me a seguir o
seu leito e perder-me na cidade que abraça as águas e os sonhos com a mesma
naturalidade.
Desci
para o pequeno-almoço. O aroma do café fresco misturava-se com o calor do pão
acabado de sair do forno. Frutas maduras, queijos locais, compotas artesanais…
cada dentada era um prelúdio doce para o dia que me esperava. Senti-me pronto,
completo, quase invencível. Coloquei a mochila às costas, os pés ansiosos por
se deixarem guiar pelas ruas e promessas da cidade.
Hamburgo
tem o dom de se revelar com elegância. Caminhei até à Speicherstadt, o maior
complexo de armazéns do mundo, com seus edifícios em tijolo vermelho erguidos
sobre estacas de madeira. As pontes desenhavam passagens sobre canais
silenciosos, e as janelas pareciam sussurrar histórias de especiarias, chá e
viagens do tempo em que o comércio era poesia.
Segui
até à Elbphilharmonie, imponente como um navio ancorado no futuro. A sua
fachada de vidro espelhava o céu e o rio, fundindo o real e o imaginado. Subi à
sua plataforma panorâmica; dali, a cidade parecia um cenário de cinema: portos,
torres, igrejas, e o Elba sempre presente, como uma veia pulsante.
Pelas
ruas de Altstadt, descobri a Igreja de São Nicolau, agora um memorial às
vítimas da guerra, tocante na sua ruína solene. Mais adiante, o Rathaus, o
sumptuoso edifício da Câmara Municipal, ergue-se como um palácio de outro
tempo, com as suas fachadas esculpidas em detalhe e uma praça que fervilhava de
vida.
O
tempo passava com uma leveza encantadora. Almocei num restaurante gourmet,
escondido numa rua em obras — quase um segredo bem guardado entre o caos das
marteladas e a beleza dos pratos servidos com precisão e arte. Perto dali, o
Museu Kunsthalle prometia uma tarde de deleite estético.
Mas
nada me prepararia para o que viria: foi entre quadros expressionistas e salas
silenciosas que a vi. Aquela mulher era ela. As mesmas curvas num corpo
escultural, com vestido colado, os mesmos cabelos compridos, ligeiramente encaracolados.
Aproximei-me lentamente e a medo para lhe poder ver o rosto, talvez os olhos,
O
mundo pareceu fazer uma pausa, como se a cidade inteira prendesse a respiração
comigo. Ela caminhava com graça, a olhar as obras. A sua presença fez rebobinar
em mim parte do filme da minha vida. Foi como reviver o verão mais quente, o
inverno mais duro. Os risos, os silêncios, as discussões à meia-noite, os
beijos no amanhecer.
Quase
toquei no seu ombro, mas hesitei. Ela virou-se, como se sentisse o meu olhar, e
sorriu. Um sorriso doce e sem razão — ou talvez a razão fosse essa: estar viva
e ser bela. Não era ela, mas era como se fosse. Uma sósia perfeita da mulher
que um dia foi tudo. Que se perdeu no tempo, ou talvez eu a tenha perdido.
E
comecei a falar comigo ou talvez com ela: se tu quiseres a tua vida pode ser
diferente; pergunta a Deus o que foi feito de ti. Pára e escuta-te! Se tu
quiseres procurar-te; se não sabes onde te encontras, começa no teu vazio,
sozinha, perdida dentro de ti.
Deixa
a tua fraqueza, abandona o teu medo nas garras da tua coragem, refaz os teus
movimentos, circula pelo mundo onde tu te sentes verdadeiramente feliz e
procura a tua alma gémea que foi dividida por ti.
Volta
a trás, rebobina o filme da tua existência e pára onde te perdeste, no cantinho
onde se fez silêncio porque o dialogo acabou. Roda, procura a tua alma gémea,
não te prendas nos jardins floridos, nos bosques encantados, nos tesouros
fuzilantes. Se tu quiseres ver um golfinho, vais precisar de manter os olhos no
mar e esperar, esperar, esperar.
Apaga
as imagens do filme do terramoto, onde tu fugiste e me deixaste para trás,
apaga a indiferença que te levou à solidão. Se tu quiseres a minha amizade,
desbloqueia-te. Só quero que sejas tu mesma, simples a sorrir com o coração.
Não digas muitas palavras, até poderás chorar, não retraias a emoção.
Amizade
é isso mesmo! Corpos acorrentados no temporal, água para a tua sede no deserto,
lenço para enxugar a tuas lágrimas. Eu sou o que tu quiseres, basta que me
vejas e me sintas como sou. Se tu quiseres eu hei de querer também.
No
final da tarde, fui procurar refúgio numa cervejaria tradicional, dessas com
alma, madeira escura nas paredes e mesas gastas pelo tempo e pelas conversas. Estava
em “Zum Alten Mädchen”, e ali serviam a mítica Ratsherrn, uma cerveja artesanal
de Hamburgo, encorpada, de sabor intenso e final levemente amargo — como o
próprio dia. Acompanhei a bebida com petiscos locais: Bratkartoffeln, salsichas
fumadas, queijo com mostarda forte. Aquele era o meu jantar — simples, mas
perfeito.
Já
noite caída, regressei ao hotel. No bar, sentei-me para um último copo e
troquei palavras com o empregado — um jovem simpático que partilhou comigo
histórias da cidade e da vida na Alemanha. Falámos de como o passado nos molda,
de como as cidades nos apaixonam, de como tudo pode mudar num segundo — ou num
olhar.
Despedi-me
com um sorriso cansado e fui para o quarto. Amanhã, uma nova viagem esperava
por mim. Mas naquela noite, antes de fechar os olhos, voltei a vê-la. O seu
sorriso sem razão, tão claro como o reflexo da lua no Elba. E pensei, com um
certo gosto melancólico nos lábios: talvez nunca a tenha deixado
verdadeiramente partir.
Diário
de uma viagem – 21 dia – 17/07/2025

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