Se alguma coisa importa, passa a ser importante!

 


Parti de Hamburgo numa manhã envolta numa luz suave, como se o céu alemão soubesse que eu precisava de silêncio e beleza para entender os enigmas que me habitam. A estrada, húmida e límpida, serpenteava entre campos dourados e florestas densas, como se a própria terra quisesse contar-me um segredo antigo. As árvores, de copas verdejantes, curvavam-se como se dançassem ao ritmo lento da minha contemplação. Lá fora, o mundo desfilava em tons profundos, e cá dentro… o meu pensamento vagueava nos momentos mais marcantes da minha vida.

A primeira paragem foi Flensburg. Uma cidade onde a Alemanha começa a ficar para trás, onde os telhados vermelhos tocam o céu baixo e o mar espreita entre as ruas. Almocei num restaurante tipicamente dinamarquês, de fachada discreta, mas de alma acolhedora. Pedi um prato tradicional e acompanhei-o com uma cerveja Carlsberg Export, gelada, amarga na medida certa, como certas verdades da vida.

Quem me serviu foi um jovem funcionário, impecavelmente fardado, mas com um olhar que carregava o peso de algo ausente. Ao pousar o prato à minha frente, disse-me com um sotaque doce e inesperado: “Espero que tengas un feliz día.” Havia ali uma ferida aberta por dentro, e não resisti: “estás triste… ¿quieres compartirlo?”. Ele olhou-me por um momento que pareceu mais longo do que o tempo permite e respondeu apenas: “Son asuntos del corazón.” E o silêncio entre nós disse tudo.

Despedi-me com um aceno quase cúmplice e continuei estrada fora. A paisagem começou a mudar. A luz tornou-se mais nórdica, mais azul. O horizonte abriu-se em campos intermináveis até que, enfim, cheguei a Vejle. Uma cidade onde o rio Vejle se entrega ao rio Grejs como dois amantes que se reencontram. Os edifícios modernos e arrojados misturam-se com casas de madeira e ruas de calçada. E ali, junto ao porto, o mar aparece não como vastidão, mas como promessa — sereno, espelhado, quase íntimo.

Deixei as malas no hotel e fui caminhar sem pressa até ao porto. O ar tinha o cheiro salgado e fresco que só os portos conhecem, e eu pensava no rapaz de Flensburg. O que teria acontecido? A quem amava ele em silêncio?

Caminhar por lugares como este, devagarinho, muitas vezes dá para tocar e cheirar. Quem anda a pé passa algum tempo consigo, pensa no que nunca pensou, cumprimenta e sorri para gente que nunca viu. Afinal a vida não é assim tão complicada como nós a imaginamos e até começo a acreditar que a história do amor e uma cabana, afinal até tem pernas para andar, mas temos que admitir que as regras e os princípios são mais simples do que os relacionamentos. Verdade?

Provavelmente os relacionamentos são muito mais complicados do que as regras; pois é, mas as regras nunca vão dar-te as respostas para as questões profundas do coração. Fica tudo muito confuso. Se acordarmos pelo pressuposto que a vida é um processo e não um acontecimento; se alguma coisa importa, passa a ser importante; todas as vezes que tu perdoas descomprimes, cada vez que tocas num coração nasce uma nova esperança; em cada gentileza nasce uma nova flor, até podemos acreditar que tudo isto é absolutamente irracional, porque não existe uma definição normal dos fatos ou da lógica baseada em dados.

Na verdade, não há muito que entender. Partimos da formula que os paradigmas dão força às perceções e as perceções estimulam as emoções e assim começamos a descobrir porque choramos e porque rimos. Mas, só porque tu acreditas firmemente numa coisa não significa que ela seja verdadeira. Então lá temos que afrouxar as emoções para reexaminar tudo em que acreditamos e, com toda esta matemática, acabas por nunca entender o milagre da vida.

Então, se abandonares a matemática, vais sentir que a vida não é assim tão complicada como nós a imaginamos. Ninguém tem a capacidade de se ver livre dos conflitos ou problemas que cruzam na nossa vida, mudando de casa, cidade ou país, porque não podemos alterar o que está por fora ignorando os hábitos, atitudes e crenças que estão dentro de nós.

Tudo muito simples! Só é necessário aceitarmos que viver é ser livre e respeitar a liberdade dos outros; que o hoje é o reflexo do ontem; ter amigos é necessário; que os verdadeiros amigos permanecem; ser feliz é estarmos em paz com a nossa consciência; lutar é mantermo-nos vivos; o tempo cura; as mágoas passam; as decepções não matam; que a dor fortalece; que a beleza está no coração; que o segredo da vida é viver. Por muitas contas que faças, não há outra formula!

A noite caiu como um véu de veludo e, já com a cidade envolta em luzes ténues, regressei. Mas antes de chegar ao hotel, parei num pequeno restaurante de aparência antiga, onde o tempo parecia mover-se devagar. A comida era saborosa, reconfortante, como um abraço morno depois de um dia longo.

No bar do hotel, ainda troquei algumas palavras com o empregado — um homem amável, que me falou das belezas escondidas de Vejle: a floresta de Nørreskoven, os caminhos junto ao fiorde, as esculturas que respiram arte à beira-mar. Enquanto ele falava, eu sorria, mas parte de mim ainda vagueava… lá em Flensburg, entre os “assuntos del corazón” e o mistério de um olhar.

 

Diário de uma viagem – 22 dia – 18/07/2025

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