Que saudade do teu abraço…
Parti
de Girona bem cedo, ainda o sol espreitava tímido por entre as colinas catalãs,
tingindo o céu com tons dourados e lilases. A cidade dormia, envolta num
silêncio tranquilo que só as primeiras horas da manhã conhecem. Pus-me a
caminho rumo a Toulouse, com os vidros ainda um pouco embaciados pelo orvalho.
À
medida que deixava a Catalunha para trás, o verde dos campos foi-se alastrando
em todas as direções. A estrada serpenteava por entre paisagens ora suaves, ora
agrestes, salpicadas de vinhas, pequenas quintas e vilas que pareciam retiradas
de postais antigos. Cruzar a fronteira para França não foi apenas atravessar
uma linha imaginária; foi como mudar de ritmo — as cores tornaram-se mais
suaves, o céu ganhou uma luz levemente diferente, mais difusa, quase poética.
Cheguei
a Perpignan perto do meio-dia, embalado por aquele charme mediterrânico que
mistura o calor do sul com a delicadeza francesa. Almocei num restaurante
romântico, escondido numa ruela de pedra. As mesas pequenas, o cheiro de ervas
aromáticas e frutos do mar, o vinho local servido com um sorriso gentil — tudo
convidava à pausa, ao deleite. A comida tinha alma e sabor de casa feita com
carinho. O dono, um senhor de cabelos brancos e olhar amável, contou-me histórias
da cidade como quem oferece um presente. Saí de lá com o corpo leve e o coração
ainda mais cheio.
Segui
viagem por Narbona, onde o brilho da água nos canais cortava o calor do dia, e
depois por Carcassonne, que me recebeu com as muralhas imponentes de sua cidade
medieval, parecendo sussurrar contos antigos ao vento. Em cada lugar, a
simpatia das pessoas se manifestava nos gestos simples: um aceno amigável, uma
palavra dita com leveza, um olhar que entendia o cansaço e a beleza de estar de
passagem.
Cheguei
a Toulouse ao final da tarde. O corpo já sentia o peso das horas ao volante, e
os olhos procuravam mais o descanso do que a paisagem. A cidade cor-de-rosa,
com suas fachadas de tijolo e ruas cheias de vida, parecia vibrar, mas eu já
não conseguia absorver muito. Sentia-me ausente ali, como se uma parte de mim
tivesse ficado algures entre Girona e Perpignan.
E foi
aqui, entre as luzes da cidade e o cansaço do dia, que me bateu a saudade. Não
de um lugar, mas de um abraço. Daquele abraço que espera, constante e
silencioso, onde sei que sou esperado sem hora marcada. Porque há destinos onde
se chega com o corpo, e outros onde só o coração sabe pousar. E nesse momento,
tudo em mim queria voltar a esse lugar onde há alguém que espera, com o tempo
parado só para mim.
Há algum
tempo que Toulouse me chama, não apenas como cidade, com seus tijolos rosados e
ares poéticos, mas como um ponto de encontro entre o visível e o invisível. Não
é o turismo que me atrai desta vez, nem a arquitetura nem a gastronomia. O que
me leva a desejar essa viagem é uma sessão especial de parapsicologia que aqui
acontecerá, centrada num tema que há muito me inquieta: o mistério da vida
depois da morte.
Diário
de uma viagem – 7º dia – 03/07/2025

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