O fim de um poema!

 


Acordei com os primeiros sussurros do vento, que já desenhava na janela promessas de inquietação. Ainda pairava no quarto o aroma suave da noite anterior — a tua pele, o riso murmurado, os olhos que brilhavam à luz tímida do candeeiro. Mas a manhã não teve a delicadeza da noite. Uma tempestade, como um presságio malicioso, tomou conta do céu e do nosso sossego. As gotas de chuva batiam nas janelas como dedos impacientes, como se o tempo exigisse a minha partida. O pequeno-almoço que sonhámos tomar juntos — croissants quentes, café forte, o teu sorriso — ficou para trás, como tantas outras promessas. Parti com o coração apertado e os olhos a fugirem do retrovisor, onde ainda dançava o vulto do nosso último abraço.

A estrada para norte desenhava-se entre campos encharcados e árvores curvadas ao peso do vento. Mas, como o meu coração, a tempestade foi abrandando. E com cada quilómetro, o céu abria frestas de luz por entre as nuvens — como se a própria natureza tentasse consolar-me.

Cheguei a Nantes ainda com o sabor salgado da tua ausência nos lábios. Esperava-me o Jorge, um amigo de longa data, um daqueles que conhece as versões de mim que já esqueci. Sentámo-nos num café discreto, e falámos sobre tempo e memória, sobre como o amor às vezes chega para depois partir, como um comboio que não se destina a nós. Rimos com nostalgia e silêncio — o tipo de conversa que não precisa de muitas palavras.

Ele foi-me lembrando: beijar com amor, é como provares uma fruta. Provas e voltas a provar e queres provar cada vez mais, até se tornar teu sustento. Pois é … amar é uma experiência inultrapassável e interminável. É o mistério do superlativo da verdadeira amizade, talvez o maior mistério de todos. Um sentimento que nunca se esquece, que nunca se tenta esquecer, que nunca se quer esquecer e só se decifra nos pequenos detalhes.

Sabes amigo, diz-me o Jorge: eu sou dos que não acreditam que o amor termina quando a admiração acaba ou o interesse deixa de existir, o amor acaba porque nunca começou.  O amor não tem "off”, é inesperado, surpreendente, emocionante, comovente, hilariante, ás vezes doloroso, mas arrebatador e inebriante.

Se não é isso que te acontece, pára de viver o “faz de conta” de romantizar o desgaste para conquistar o amor. Não tem nada de romântico em perderes o teu tempo esperando a reciprocidade que não existe. Então, não corras para becos sem saída e, em vez disso, começa a correr em direção a ti. Afinal tu és a primeira escolha, porque é contigo que vais passar o resto da tua vida; não vais precisar mais de preencher o vazio, porque sabes que terás sempre essa pessoa maravilhosa do seu lado – “Tu”. O teu vazio só pode ser preenchido por outra pessoa, quando ela entender que amor é uma relação sem medos, com a certeza que, quem está ao teu lado, vê-te como uma prioridade.

Sai de Nantes com os olhos marejados. O sol já espreitava com mais coragem, aquecendo o volante entre os meus dedos cansados. Almocei em Rennes já fora de horas, num pequeno bistrô de esquina, rodeado por estranhos que sorriam entre si como se o mundo não estivesse a desmoronar em mim. Mas havia algo de bonito naquela indiferença — o mundo continuava, e eu também.

Ao entardecer, Saint-Malo apareceu no horizonte como um quadro pintado a pinceladas densas de azul e cinzento. A cidade murada abraçava o mar com firmeza, como se quisesse conter tudo o que escapa — o tempo, os amores, os navios.

Jantei num restaurante virado para o oceano, com uma taça de vinho tinto e um prato que mal provei. O coração, esse, estava despido, com frio. E o corpo, cansado como se cada quilómetro tivesse sido percorrido de alma nua.

Mas ainda assim… havia beleza. Uma beleza triste, mas real. Como o fim de um poema que não entendemos bem, mas que sabemos que nos pertence.

 

Diário de uma viagem – 10º dia – 06/07/2025

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