Nunca desistas, nunca deixes de sonhar!
Despedimo-nos
numa noite mágica, em Amesterdão. A cidade estava calma, como se respeitasse o
silêncio entre mim e a Lorena. O canal refletia as luzes douradas das pontes, e
o vento leve parecia sussurrar palavras que nenhum de nós conseguiu dizer. O
abraço final foi longo, com um sabor agridoce: amor presente e ausência
iminente. Ela seguiu para Londres, e eu fiquei ali por uns instantes, parado no
frio suave da madrugada, tentando adiar o que já era certo — a distância.
Na
manhã seguinte, parti de Amesterdão com destino a Hamburgo. A estrada
serpenteava entre campos molhados e pequenas cidades ainda adormecidas. O céu
estava cinzento e, a certa altura, a chuva começou a cair com leveza, como
lágrimas que não consegui derramar. O som da água no vidro, os tons esbatidos
da paisagem e o cheiro a terra molhada criavam uma melancolia serena. Era uma
beleza difícil de explicar, como se o mundo lá fora refletisse exatamente o que
eu sentia por dentro.
Almocei
em Osnabruque, num restaurante pequeno, escondido entre ruas silenciosas. Havia
poucos clientes, talvez dois ou três. O ambiente era encantador — madeiras
escuras, janelas amplas com vista para uma praça deserta, e uma música clássica
discreta ao fundo. Pedi um prato simples de carne com legumes. Cada garfada
parecia um esforço para me manter presente. A ausência da Lorena sentava-se à
minha frente, em silêncio. Ainda assim, era impossível negar o charme daquele
lugar, como se a solidão ali fosse acolhida com cuidado e não com pressa.
Aproveitei
a passagem por Brémen para respirar fundo e falar comigo. A cidade, com a sua
arquitetura encantadora e alma poética, ofereceu-me um instante de leveza.
Caminhei brevemente pelas ruas de pedra molhada, vendo reflexos dourados das
luzes nas poças, como se fossem constelações terrestres.
Na
verdade, a vida é feita de encontros e desencontros, umas vezes longos, outras
vezes curtos. Só se aprende a viver vivendo, porque somos únicos. Este é o
grande mistério da vida. Os melhores momentos que tive e as coisas de que mais
me orgulho surgiram da decisão de não desistir, mesmo enfrentado a apatia de
repetidamente voltar à estaca zero.
Ninguém pode ter a pretensão de realizar os seus sonhos, sem ter a
coragem de gritar “eu estou aqui!”
Grande
parte da minha vida assentou num estilo workaholic. Nessa compulsão e desvios
ia escrevendo a minha história com lápis para apagar, corrigir e reescrever,
outras vezes usava um lápis de cor para colorir os cenários mais cinzentos, mas
o conteúdo parecia vazio quando soavam os sinais de que estaria a perder os
registos dos momentos mais marcantes que não valorava. A vida está
constantemente a testar as nossas capacidades, a nossa força e principalmente a
nossa vontade.
Mas
onde, exatamente, precisamos de colocar um limite? Na verdade, não importa a
cor do lápis. É um erro não usar os erros como parte do processo de
aprendizagem. Os erros podem ser muito mais do que uma constatação do fracasso.
Só se aprende a viver vivendo, porque somos únicos. Este é o grande mistério da
vida.
O
tempo não pára e a vida também não volta atrás. É certo que vamos continuar a
errar e é plausível que cada erro seja único. A vida não vem com manual, há
muitas maneiras diferentes de errar e cada uma traz uma lição, mas quando os
erros envolvem sentimentos, tornam-se impercetíveis e lá vem a celebre frase de
José Saramago “é preciso sair da ilha para ver a ilha”
Ao
longo da vida fui mudando a minha atitude perante os erros. O que realmente
importa é que em cada dia continue a escrever e que cada página guarde em si um
grande mistério. A dádiva de viver e
fazer da nossa vida aquilo que queremos e principalmente devemos, vai tornar
este livro um manual de sucesso.
Cheguei
a Hamburgo já com a noite caída. O céu estrelado espreitava entre nuvens
dispersas, como se o universo quisesse recordar-me que, apesar de tudo, havia
beleza depois da partida. Fiquei num hotel de charme sobre o Elba — um edifício
antigo, restaurado com cuidado, onde o tempo parecia desacelerar. O quarto
tinha janelas amplas e cortinas pesadas, e lá fora o rio corria silencioso,
refletindo algumas luzes distantes da cidade.
Jantei
no restaurante do próprio hotel. Fui bem-recebido, com uma simpatia discreta
que me soube bem. Escolhi um prato de peixe fresco com puré de batata trufado e
legumes grelhados, acompanhado de um copo de Riesling seco, fresco, com notas
cítricas que contrastavam com a doçura do que eu sentia. Comi devagar,
observando o movimento sereno do rio, enquanto pensava nas palavras de Lorena, “never
give up, never stop dreaming”.
O
cansaço, acumulado desde a noite anterior, caiu sobre mim como um cobertor
pesado. Subi ao quarto, deixei a janela entreaberta para ouvir o som distante
da água, e deixei-me cair na cama. Não havia mais nada a fazer, a não ser
dormir. E esperar que o tempo, com os seus passos lentos, fosse trazendo paz ao
que agora era só ausência.
Diário
de uma viagem – 20 dia – 16/07/2025

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