No amor não há receitas prontas!

 


A viagem começou com o céu ainda envolto por tons suaves de azul e prata — era cedo em Lille, e o ar fresco da manhã beijava o vidro do carro enquanto eu deixava a cidade francesa em silêncio, como quem se despede de um amor adormecido. O motor ronronava baixo, cúmplice das minhas emoções ainda adormecidas, e no rádio, uma canção espanhola romântica sussurrava palavras que pareciam querer acariciar o coração.

À medida que me afastava da França e cruzava a fronteira rumo à Bélgica, os campos abertos se desenrolavam como uma pintura viva: verdes suaves e dourados luminosos dançavam sob o sol que ia crescendo no céu, iluminando casinhas delicadas com telhados de terracota e janelas floridas. Era como se cada pedaço da paisagem quisesse contar uma história de amor. E ali, entre curvas leves e longas retas, os meus pensamentos se perdiam…

Cheguei a Gante perto do meio-dia, e foi como entrar num conto. Ruas de pedra, fachadas antigas, flores nas varandas. Encontrei um pequeno restaurante familiar escondido entre ruelas tranquilas. Era de um casal belga — ele de mãos firmes, ela com um sorriso que dizia mais do que palavras. O modo como se olhavam entre um prato servido e outro era mais bonito que qualquer receita. Um amor maduro, mas ainda curioso, ainda apaixonado. Comi ali como quem se alimenta de ternura.

Depois do almoço, voltei à estrada, embalado por sol morno e um céu limpo, azul como os olhos de uma esperança antiga. As casas pelo caminho pareciam se inclinar levemente para ver quem passava, como se sussurrassem memórias de outras viagens, de outros corações ao volante. O vento entrava pela janela entreaberta, e a música — sempre ela — me envolvia como um abraço prolongado.

As minhas lembranças votaram-se para o casal apaixonado do restaurante onde almocei, e pensei: realmente no amor não há receitas prontas. O amor não se calcula, não se escreve com fórmulas, não se espera que funcione como uma equação. O amor é estrada: às vezes leve, às vezes congestionada, mas sempre surpreendente.

E comecei a conversar comigo, e com o amor em cima de uma almofada: a vida é mesmo complicada. Não és tu, é ela! Não penses que só acontece contigo. É por causa disso que somos uma geração que se entope de ansiolíticos, enquanto procuramos a felicidade dentro de gavetas vazias.

Confundimos amizade com um conhecimento, paixão com amor, solidão com paz, desejo com obsessão. Quando queremos algo ou alguém, sofremos ao imaginarmos como seria se tivéssemos, quando o conquistamos não o valorizamos e quando o perdemos, sofremos por fantasiarmos ter sido algo muito maior do que realmente foi.

Explicar o amor não é fácil, é quase como explicar a origem do universo ou a existência de Deus, mas não duvido que é um sentimento suportado por uma amizade sublime, despida de interesses, onde o tudo é nada e o nada é tudo. Esta é a minha verdade!

Quando isso não acontece, no início é tudo perfeito, é uma paixão avassaladora envolvida num conto de fadas, mas com o passar do tempo o que era antes já não é depois, tudo fica diferente, até a nossa imagem. Alguns conseguem resolver os desequilíbrios, outros vão os empurrando, deixando a resolução ao acaso e acumulando dissabores, destruindo o que outrora foi um sonho.

Conversar e saber ouvir é a essência de uma relação saudável, seja através da voz, dos olhares ou dos gestos. Presta atenção no outro para reconheceres o significado de cada um destes sinais escondidos, até mesmo o silêncio, porque cada um leva para o relacionamento seus sonhos, expectativas, desejos e ambições, que muitas vezes não são divididos.

Não há receitas prontas quando o assunto é amor, mas o modo como o sinto, amar é uma vontade recíproca que torna dois seres igualmente ciosos da felicidade um do outro, sem o objetivo de ganhar ou o medo de perder!

Ninguém é dono de ninguém. De certa forma não somos donos de absolutamente nada. Se olharmos pela perspetiva de que somos seres únicos, e não pedaços, esperando a outra parte para finalmente nos completar, facilmente perceberemos que a única coisa que nos pertence é o que podemos oferecer para a felicidade do outro.

Relacionamentos saudáveis envolvem pessoas bem resolvidas, inteiras, com uma vida própria, que decidem compartilhar momentos, experiências e o seu tempo disponível, em liberdade. Eu sou dos que não acreditam que o amor termina quando a admiração acaba ou os interesses deixam de existir. O amor acaba porque nunca existiu!

Na aproximação de Antuérpia, a estrada transformou-se. O trânsito denso, a lentidão dos carros e a inquietação no ar contrastavam com minha vontade de simplesmente continuar fluindo. Mas eu estava em paz. A música, como uma companheira fiel, tornava tudo mais suportável, mais suave, quase belo. Mesmo o barulho ao redor parecia compor uma sinfonia de chegada.

E então, como num último ato de um espetáculo silencioso, cheguei à cidade belga envolto pelo calor dourado do pôr do sol. A luz tingia os prédios com tons de mel e cobre, e meus olhos se perderam nas cores refletidas nas janelas, como se Antuérpia me recebesse com um sussurro: “calma, aqui também há beleza.”

Antes do jantar, caminhei. Passos lentos, coração leve. As pedras sob os pés contavam histórias antigas, e eu ouvia tudo em silêncio. Depois, encontrei um restaurante romântico, escondido do barulho, como se tivesse sido colocado ali só para mim. Velas suaves, ambiente íntimo, taças tilintando em sorrisos baixos.

E ali, entre sabores delicados e pensamentos calmos, entendi: o amor não é um destino. É a viagem. São os olhares trocados na cozinha, as pausas no trânsito, a música que nos acompanha quando estamos sós. O amor não tem receita. Mas tem sabor, tem estrada, tem cor. E às vezes, ele tem o cheiro da Bélgica ao entardecer.

Diário de uma viagem – 16 dia – 12/07/2025

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