Je suis Lily. Et toi?

 


Parti de Paris numa manhã cinzenta e calma, onde as nuvens se arrastavam suavemente sobre os telhados de ardósia como pensamentos por esclarecer. A cidade ficava para trás, e diante de mim abria-se o silêncio fértil da estrada — um fio invisível que costurava paisagens e sentimentos. À medida que o meu carro cortava o ar com leveza, as paisagens iam mudando, desdobrando-se como páginas de um livro antigo: campos verdes que pareciam pintar-se sozinhos, árvores que sussurravam histórias antigas, e casas dispersas que observavam a minha passagem como velhos amigos em silêncio.

Enquanto atravessava Roye, as perguntas começaram a pousar em mim como aves migratórias: O que estamos aqui a fazer? Qual o nosso propósito? Não buscava respostas — apenas o consolo da dúvida. Interiorizei-me devagar, como quem se cobre com um manto feito de silêncio e memória. A viagem não era apenas geográfica — era também um caminho para dentro.

E, com uma musica suave como fundo, ia falando sozinho: Todos nascemos livres e com o mesmo objetivo de vivermos felizes… podemos chorar, mas isso significa a nossa capacidade de respirar e respirar significa estar vivo.

Afinal porque nos obcecamos a dar importância a algo que muda ao longo do tempo.  Mesmo sabendo que contabilisticamente ganhamos, ficamos sempre a perder. Há quem diga que se perde ganhado, eu diria que se ganha perdendo.  Infelizmente é assim! Ganhamos todas as competições, mas perdemos a ambição de ser feliz… perdemos! Entregamo-nos ao sistema aglutinador e deixamos de sonhar. Existe sempre alguma coisa a tentar sugar a nossa atenção e a chutar-nos para um clima de competição. Quando não é um cartaz publicitário, é um anuncio na televisão ou um outdoor, se não é um outdoor, é o nosso smartphone, e com esta sinfonia chegamos sempre onde não queríamos estar.

Os interesses podem ser invisíveis, mas provocam alterações de comportamento bem reais. Somos culpados pela programação que instalamos nas nossas mentes, pelo menos até ao momento que descobrimos que esse software destrói a nossa felicidade.

Interpretamos as nossas manifestações influenciadas no modo como o nosso subconsciente foi sendo programado. Parece que tornamos as nossas vidas miseráveis de propósito, repetindo maus hábitos na sequencia dos maus exemplos e, aos poucos, tornamos a nossa infelicidade numa profecia autorrealizável.

Começamos a viver instintivamente no aqui e agora uma vida feliz que trazemos programada em nosso DNA mas, pouco a pouco, timidamente, começamos a receber e aceitar as influências do nosso meio sob a forma de crenças, tradições, cultura e educação, verdade? Aos poucos a sociedade vai moldando nossa vida para que, no estágio de adultos, possamos viver dentro dos seus padrões. Acabamos por aceitar como um conceito “normal”: uma vida de sacrifício, muito trabalho, pouco tempo livre e totalmente direcionada para conquistas materiais ou sociais que garantam um futuro, regido pela lei selvagem do “salve-se quem puder”. Conquistar, conquistar, conquistar, competir, competir, competir… e, tristemente acabamos por nunca sermos valorizadas pela nossa unicidade.

De facto, é curioso observar que à medida que a idade vai avançando a ambição vai esvaziando e regressamos aos poucos ao tempo de ser criança. Mas agora a realidade é outra. A tua consciência vai apontar-te o dedo num dialogo com a felicidade e tu vais segredar “reconheço que fui infantil a ponto de te sufocar, fui bobo a ponto de assistir serenamente à tua partida, fui imbecil a ponto de te deixar escorrer entre os meus dedos; esse tempo eu não posso recuperar”.

Parei em Péronne ao início da tarde, guiado mais pelo instinto do que pela fome. Escolhi um pequeno restaurante de esquina, discreto, como as certezas que se escondem da razão. A jovem que me servia aproximou-se com um sorriso gentil e curioso. Enquanto ela colocava o prato sobre a mesa, percebi que me ouvia — eu falava comigo, sem me dar conta, murmurava perguntas soltas ao vento da minha mente.

Ela não se riu, apenas me olhou com uma ternura silenciosa. Os olhos dela — castanhos, cor de mel aquecido — carregavam uma tranquilidade rara, como quem já tinha feito as pazes com o que não se entende.

Ao pagar, olhei-a por fim, com a franqueza dos que já não temem ser vistos por dentro, e perguntei, quase sem saber porquê: “Êtes-vous heureuse?” Ela abriu um sorriso inteiro, de quem não mente nem complica: “Moi? Oui, je suis heureuse. Je suis Lily. Et toi?”, “Je suis Maurice.” Houve uma pausa leve entre nós, como se o tempo nos desse um espaço. “Um dia vamo-nos novamente encontrar, porque a nossa vida é feita de encontros e desencontros até nos encontrar novamente, para ficar ou partir.

De volta à estrada, o céu decidiu sorrir. Cores do arco-íris rasgaram o horizonte como se tentassem traduzir os meus pensamentos num idioma de luz. Aquelas cores — improváveis, vivas e breves — pareciam combinar com tudo o que eu sentia: o mistério da vida, o peso das ausências, e a beleza que insiste em nascer entre os silêncios.

Cheguei a Lille já com a noite de olhos fechados. A cidade dormia, os candeeiros suspiravam luz amarela nas calçadas vazias. Mal a vi — não por falta de vontade, mas porque o meu corpo só desejava o refúgio da cama.

 

Diário de uma viagem – 14 dia – 10/07/2025

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