Hoje serás guiado… por mim!

 


A noite foi longa. Daquelas em que o corpo repousa, mas a alma insiste em dançar com memórias e desejos. Acordei sem ter dormido, com o coração inquieto e os olhos cansados, mas com uma vontade silenciosa de sentir a vida.

Quando abri a janela do meu quarto, num pequeno hotel de charme, onde me encontrava, ali estava ela: Saint-Malo, envolta numa névoa suave, como se tivesse acabado de acordar comigo. As muralhas antigas contornavam a cidade com elegância, e o cheiro a mar entrava pelas frestas da madeira, fresco, salgado, quase sensual. Senti-me desperto. Vivo.

Desci para a rua e entrei numa pastelaria acolhedora, de fachada azul clara, onde o aroma do café e da manteiga quente se misturava com a luz suave da manhã. Pedi um croissant e um café crème. Enquanto olhava os pormenores da loja ouvi uma voz suave “c'est tout”. Foi então que reparei nela. Tinha olhos azuis da cor do mar quando está calmo, e um sorriso que não precisava de pressa. Notou em mim algo que eu ainda não tinha notado: uma solidão serena, mas visível.

Aproximou-se com delicadeza e, depois de uma troca de palavras simples, perguntou-me se é a primeira vez; estava no fim do turno e ofereceu-se para me mostrar a cidade. Disse-me, com aquele sotaque francês que desliza como veludo, que sentia vontade de conversar — e percebeu que eu também precisava disso. Contei-lhe que costumo guiar caminhadas nas serras do Gerês, em Portugal, e ela sorriu com doçura: “Então hoje serás guiado… por mim.”

“Je suis Nicole”! Começámos a andar pelas ruas estreitas da cidade velha, cercada de muralhas que pareciam guardar não apenas histórias antigas, mas também segredos sussurrados pelo vento do mar. Ela mostrou-me os recantos escondidos, os telhados cinzentos que tocam o céu, os barcos ancorados como promessas de partida.

Aqui, em Saint-Malo, sinto que o tempo parou. Caminhamos devagar, como se os nossos passos tivessem desaprendido a pressa; os nossos olhares cruzam-se com uma calma que não se finge. Há um sossego que nos embala, uma luz dourada que pousa nas pedras e na nossa pele,

Sabes Maurice, eu estudei psicologia do comportamento. Na verdade, parece que a nossa vida está sempre com pouco tempo, ou será que somos nós que damos pouco tempo à nossa vida?

E com uma voz suave, continuou; as nossas relações interpessoais são crescentemente mantidas a um nível digital, estando, em função disso, a alterar e a transformar de uma forma profunda os comportamentos de todos nós e da população mundial. Estamos, como nunca, globalmente e semelhantemente afetados

Parou, pegou minha mão e continuou: tu já sentiste aquela sensação de querer fazer tudo rápido e às vezes várias coisas ao mesmo tempo. Um desespero! Parece que não existe o amanhã. Muitos de nós gostaríamos que o dia tivesse 48 horas para concluir todas as tarefas. Tornamo-nos obcecados, embebidos pelo ego, numa luta contra o tempo.

Vivemos num mundo imediatista e de forma acelerada; entupimo-nos de compromissos, ficamos enterrados em trabalhos, e acabamos por nos esquecer do tic tac do nosso tempo.

Quando se chega ao fim da linha, quando o tempo nos trás rugas, o tempo começa a não ter tempo. E nesta correria da vida, o tempo que não quisemos perder foi o tempo que deixamos de ganhar. O tempo mostra que a sabedoria é o modo como o sabemos gerir.

Afinal ter tempo é libertarmos o tempo. Não existe “estou sem tempo” existe o sentimento que só temos tempo para os momentos que priorizamos. Dá tempo ao tempo, para que o tempo tenha tempo para apagar o tempo que perdeste com quem não tem tempo. Vai Maurice… escuta o teu tic tac

Parei, segurei-lhe nas duas mãos para a poder escutar e aprender o tempo, enquanto à nossa volta as pessoas sorriam nas ruas. Em Saint-Malo, o tempo corre devagar, e a simpatia não é forçada — é parte da paisagem. Crianças brincavam junto à praia, casais caminhavam de mãos dadas pelas muralhas, e tudo parecia envolvido num véu de encanto discreto. A maré, como a conversa entre nós, subia e descia com naturalidade.

Ela falava-me das marés vivas, dos corsários que dominaram o mar, das casas de pedra onde os poetas se perdiam a escrever. Eu falava-lhe do musgo nos trilhos do Gerês, dos lobos escondidos e dos céus estrelados. E, por um instante, tudo parecia fazer sentido — a noite sem sono, o acaso de estar ali, o croissant partilhado no olhar, a cidade que me abraçava com a mesma ternura que ela.

Saint-Malo não foi apenas um lugar naquele dia. Foi um despertar. Um lembrete de que, por mais longas que sejam as noites sem sono, há sempre uma janela, uma voz e uma cidade onde a vida recomeça com um simples gesto: o de querer sentir.

Diário de uma viagem – 11º dia – 07/07/2025

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