Gosto de ti!


 


Depois de uma noite mal dormida, acordei bem cedo em Girona e, já o ar fresco da manhã tinha o perfume suave das pedras antigas, das flores que se esgueiram pelas varandas, e do tempo que aqui parece correr mais devagar. A cidade ainda repousa, envolta em bruma dourada, e eu, de olhos meio fechados, mas o coração aberto, estou maravilhado com o que espreito da janela do meu quarto. As muralhas medievais observam-me em silêncio, cúmplices do meu deslumbramento — e da minha saudade.

Girona é uma amante antiga que se oferece devagar, revelando-se em ruelas estreitas, em pontes sobre o Onyar que parecem saídas de um sonho, em fachadas coloridas que sorriem ao meu olhar como quem me convida a ficar. Mas, mesmo rendido à beleza desta cidade encantada, o meu pensamento vagueia. Há uma voz, doce e constante, que não está aqui, mas que vive dentro de mim. A voz que ao ouvido me diz sempre, com ternura quase sagrada: “gosto de ti.” Essa voz que transforma tudo — até a luz de Girona parece escutar.

Aqui não é difícil render-me à gastronomia como quem se entrega ao desejo. O aroma intenso de um “suquet de peix”, o abraço quente de uma “botifarra amb mongetes”, e o toque salgado do “jamón ibérico” cortado com arte, faz crescer água na boca. Cada prato, uma promessa, cada sabor, um convite a permanecer. E o vinho… Ah, o vinho! Um tinto do Empordà, escuro e profundo, como o meu próprio desejo, tocou-me os lábios com calor e ficou, como memória líquida de um beijo lento.

Girona é isto: uma cidade que me seduz, que me acolhe no corpo da sua história, que me enrosca nos braços da sua beleza antiga. Caminhar por suas muralhas é tocar o tempo com os dedos, e perder-se no Barri Vell é encontrar-se em mil vidas possíveis. Girona me seduz com sua beleza discreta, com seus silêncios cheios de sentido. Enamora-me com cada detalhe, com cada sombra, cada luz dourada ao entardecer.

Quando partir levo comigo um pedaço dela, e deixo um pedaço de mim. A outra parte fica contigo, porque a saudade, quando nasce do amor, transforma-se em presença invisível; e eu sinto, tão nitidamente como se me sussurrasses agora ao meu ouvido, as palavras que mais desejo escutar:

“Gosto de ti.” E Girona escuta comigo.

 Diário de uma viagem – 6º dia – 02/07/2025


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