Gente charmosa com copos na mão!
O
sol mal despontava sobre os telhados silenciosos de Vejle, quando parti. Era
cedo — cedo como quem acorda para um novo capítulo de si mesmo. A estrada à
frente desenhava um convite dourado, como se o próprio dia soubesse que ali
começava algo novo, vibrante, livre de tudo aquilo que, enfim, tinha acabado. E
o que acabou, ficou mesmo para trás. Sem dor. Só espaço.
Os
campos dinamarqueses estendiam-se como um quadro de Monet ao vivo — verdes
profundos pontuados por flores silvestres, trigo ondulando ao vento como um
sussurro, e árvores altas que pareciam acenar em despedida. A luz era macia,
quase amante, e havia algo no ar… talvez fosse verão, talvez fosse liberdade,
talvez fosse só a sensação boa de estar de volta a mim.
A
trilha sonora? Jazz escandinavo moderno misturado com batidas eletrônicas
suaves. Mads Langer tocava em algum momento, seguido por Agnes Obel. A música
parecia fazer amor com a paisagem.
A
caminho de Nyborg, o mar espreitava por entre colinas e o céu se refletia nas
pequenas enseadas. Ao chegar, o destino me guiou — ou foi o apetite — até um
restaurante de charme discreto, cinco estrelas bem merecidas, à beira da água.
O peixe era fresco, macio, cozinhado no ponto exato da perfeição; os legumes
crocantes, coloridos como uma aquarela comestível. E a cerveja… ah, a cerveja.
Âmbar, com espuma densa e aroma floral. A melhor do mundo, sem exagero.
Éramos
poucos ali, mas bons. Troquei palavras com empregados sorridentes e com
clientes simpáticos, que se sentaram perto só para conversar. Entre goles e
risos, disseram-me: “Copenhague é uma cidade para quem gosta de se surpreender…
cheia de cor, de gente bonita, de arte até no asfalto.”
Continuei
o caminho com o coração dançando e o corpo pronto para a noite. Copenhague me
esperava, e eu tinha sede — de rua, de luz, de ritmo, de novos olhares.
O
hotel? Um pequeno tesouro no bairro de Vesterbro: fachadas em tons quentes,
janelas com cortinas de linho branco, uma receção com cheiro de lavanda e couro
novo. Quarto com lençóis macios, luz indireta e uma garrafa de vinho branco me
esperando como se me conhecesse há anos. Um charme, sem pretensão — como quem
sabe que é bom.
Mas
eu malparei. Soltei as malas e fui. Quis caminhar, perder-me, deixar Copenhague
mostrar-se sem mapas. E ela mostrou. As ruas estreitas de Indre By, com
ciclistas elegantes passando por mim como se estivessem num filme francês. As
vitrines com design escandinavo — minimalistas, mas cheias de alma. Cafés com
velas acesas, mesmo de dia. Arte urbana, jazz nas esquinas, e jovens com olhos
que sorriem antes mesmo da boca.
O
povo dinamarquês? Um encanto. Discretos, mas sensuais, elegantes sem esforço,
com aquele jeito nórdico de parecerem distantes até rirem. Cultura viva,
silenciosa às vezes, mas presente em tudo: no jeito como tratam os espaços
públicos, na gentileza sutil, na forma como a cidade parece feita para o prazer
— do corpo, do olhar, da alma.
Olho
à minha volta e começo a falar comigo. O mundo seria bem melhor se todos
vivêssemos assim, a não ser que me escondam o que os meus olhos não veem e às
vezes as aparências enganam.
De
qualquer modo, eu reconheço que estamos a viver cada vez mais na condição
‘futilidade aguda’, carregada de interações efêmeras; estamos cada vez mais
vazios, cada vez mais perdidos, correndo em todas as direções, procurando
sabe-se lá o quê.
Às
vezes acreditamos ter encontrado aquilo que tanto desejávamos: um grande amor,
um bom trabalho, um propósito de vida… Mas quando percebemos que aquele amor
não era tanto assim, aquele trabalho não era assim tão bom, e aquele propósito
de vida se esvazia, acabamos por desperdiçar o nosso tempo no meio do tempo e
não deixamos tempo para observar os sinais da vida. Ela pode estar aqui, quase
batendo na nossa porta, mas enquanto não valorizarmos o tempo para parar, a
vida não nos vai encontrar.
A
nossa vida é conduzida pela matemática da ilusão, da imaginação, do desejo, da
esperança, mas um simples erro de cálculo pode levar a desvios sem retorno,
porque cada soma dos anos que vivemos é também uma subtração no tempo que nos
resta. Por isso acredito que a procura deve começar dentro de nós. Se soubermos
quem somos, se encontrarmos nossa verdade, consequentemente saberemos para onde
ir, saberemos aonde queremos chegar.
Quando
em criança ia às compras com a minha mãe, ela dizia-me que se eu me perdesse
deveria ficar no mesmo lugar, porque ela acabaria por me encontrar. A
matemática da vida também funciona um pouco assim. Talvez o que buscamos esteja
à nossa procura também, andando por aí, muitas vezes nos desviamos por caminhos
desencontrados.
São
nestes momentos que as boas ideias podem surgir, que intuições e memórias
encontram espaço para aparecer. Os acontecimentos marcantes da minha vida não
foram cavados por mim; as grandes ideias, os felizes encontros e as viagens de
sonho, eu estava lá. Pelo caminho usei a matemática para somar amigos,
multiplicar conhecimentos e dividir felicidade
Vou
parar de pensar na matemática da vida, porque à noite quero dançar. Apetece-me
uma discoteca bem decorada, com luzes quentes, plantas tropicais pendendo do
teto, e gente charmosa com copos na mão e sorrisos nos olhos. Quero música que
começa devagar e depois me tira o chão. Quero dançar como se nunca tivesse
parado. Quero corpos que se toquem sem palavras, olhos que se entendam sem
promessas.
Copenhague
chegou. E eu também. Inteiro. Leve. Começando outra vez, mas agora… só com o que
me faz vibrar e não o que acabou de acabar.
Diário
de uma viagem – 24 dia – 20/07/2025

Meu querido os teus textos fazem-me viajar, viver. Adoro
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