Fuga no calor do asfalto!

 


O sol racha o céu como um castigo antigo, e o asfalto ferve como se o inferno tivesse subido à superfície. O calor não é apenas físico — ele grita, pesa, pressiona. É o reflexo do que me arde por dentro.

Não sei se fujo ou viajo. Talvez os dois! O vento quente corta o rosto como uma lembrança que se recusa a morrer. Atrás, deixo o som das palavras ouvidas, os gritos engolidos por promessas partidas, olhares que não disseram tudo.

No calor do asfalto, o mundo parece derreter. E eu derreto com ele. Mas enquanto houver estrada, enquanto houver suor e silêncio, sigo. Porque parar seria não terminar os 315 km para chegar a Zamora

Chegar aqui foi uma travessia no deserto. As ruas são um labirinto onde me perco de propósito, como se andar sem rumo fosse uma forma de me distrair, como se o movimento purificasse o ar para poder respirar.

A noite está quente e o céu estrelado. Procuro aventuras para descomprimir, perigos que façam o coração bater mais forte do que a tristeza. Procuro estranhos para falar, bebo da noite como quem quer se afogar. As luzes tênues das ruas sussurravam histórias que ainda não conheço, enquanto o coração, silencioso, escuta os ecos do que ficou para trás. Os olhos fecham-se pesados, não só pelo cansaço da viagem, mas pela saudade que chega antes do descanso.

Há cidades que nos recebem como se nos esperassem, mas também há noites em que o que perdemos pesa mais do que aquilo que nos espera. Pode ser que manhã, Zamora abra os olhos comigo — e talvez, sem pressa, comece a curar o que ficou por dizer.

Nesse instante, entre o encanto da novidade e a ferida ainda fresca da partida, sento que viver é também isto — deixar um pedaço de mim onde fui feliz, para reencontrar quem sou onde ainda não sei.


Diário de uma viagem – 1º dia – 27/06/2025






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