Estás bem? Por onde andas?

 


Acordei em Antuérpia. Era domingo. O sol, ainda tímido, derramava os primeiros fios dourados pelas calçadas de pedra, enquanto a cidade despertava com a leveza de um suspiro. Saí cedo, impulsionado por um desejo quase visceral de me perder entre ruelas antigas, fachadas elegantes e silêncios cheios de história.

Antuérpia — vibrante e silenciosa ao mesmo tempo — parecia sussurrar segredos aos meus passos. A Catedral de Nossa Senhora elevava-se como uma prece de pedra no coração da cidade, imponente e delicada, onde as obras de Rubens ainda pulsavam com uma alma inquieta. Caminhei em torno da Groenplaats, entre bicicletas, aromas de waffles recém-feitos e mulheres de andar firme e olhar misterioso — como se cada uma carregasse um segredo que não seria contado, mas apenas pressentido.

Segui em direção ao Museum aan de Stroom — o MAS —, um cubo moderno de vidro e terracota que parecia flutuar entre céu e água. Ali, cada andar oferecia uma nova vista da cidade e uma nova forma de me perder. Depois, vaguei pelo bairro dos Diamantes, onde vitrines brilhavam como promessas — e onde algumas mulheres, com um leve sorriso de provocação, deixavam no ar a ideia de que a beleza em Antuérpia não era apenas física, mas uma dança lenta entre mistério e intenção.

À hora do almoço, sentei-me numa cervejaria moderna perto do rio Escalda, com um leve aroma a sal e especiarias. As mesas de madeira clara, a luz filtrada e o marisco fresco traziam o presente à tona. Pedi mexilhões ao vapor com ervas finas, acompanhados de uma cerveja artesanal âmbar, de sabor encorpado e final levemente amargo. Foi nesse momento, entre goles e garfadas, que o telemóvel vibrou uma menssagem:

“Estás bem? Por onde andas? Tenho saudades tuas.” A cidade à minha volta esbateu-se como um reflexo na água. Voltei no tempo — para aquele riso, aquele toque, aquele silêncio partilhado que dizia mais do que mil conversas. Fiquei parado com o telemóvel na mão, como se segurasse um fragmento do passado ainda quente.

Esta história poderia ter acontecido junto à praia, num dia chuvoso ou numa noite estrelada. Foi um acontecimento marcante, de uma forma inesperada e num conteúdo enigmático.

Linda, dócil, sensível e ansiosa por falar: falou, falou, falou para disfarçar a ansiedade. O seu ativismo era o modo que encontrou para se acalmar. A conversa corria tão depressa, com excesso de passado e a ansiedade de futuro. Sobrava poucos minutos para viver o presente. Mágoas e ressentimentos continuavam apegadas a lembranças e acontecimentos há muitos anos atrás, punindo aqueles que agora não estavam por perto. Umas vezes ria outras vezes chorava, umas vezes abraçava, outras vezes vitimizava-se; alternava os momentos de tristeza com a paixão.

Existem tantas formas de te relacionares, tantos combinados explícitos e implícitos, verdade? Se estás em permanente conflito, com muitas variáveis e muitos pontos de vista diferentes, poderás passar anos a tentar mapear uma vida imaginada, que não existe.

Nem imaginas o quanto a mágoa e o rancor pelos nossos próprios erros ou o nosso infortúnio prejudicam a nossa vida. Guardar rancor é como tomar um copo de veneno esperando que o outro morra.

A tarde passou então a ser outra. Antuérpia continuava a brilhar, mas agora havia sombras interiores a acompanhar-me. Visitei o Jardim Botânico, onde as plantas exóticas e a humidade quente me fizeram pensar nos corpos que se procuram no calor de um quarto desarrumado com almofadas no chão. As estátuas espalhadas nos jardins pareciam olhar-me com uma quietude cúmplice.

À noite, o céu azul escuro estendia-se sobre a cidade como um lençol recém-lavado. A luz morna dos candeeiros refletia-se nas fachadas dos prédios antigos, e cada janela parecia esconder uma história não contada, um beijo interrompido, uma promessa adiada.

Voltei ao hotel de cor azul discreto, com janelas brancas e cortinas rendadas. Lá dentro, o silêncio tinha textura de veludo. Pedi um chá de jasmim e bebi-o devagar, sentado junto à janela, observando os passos de alguém ao longe que desaparecia na esquina. O aroma floral misturava-se com a melancolia suave que se instala quando a alma ainda não decidiu se quer esquecer… ou reviver.

Antuérpia dormia, mas eu não. Ela sussurrava e eu escutava.

Diário de uma viagem – 17 dia – 13/07/2025

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