Entre destinos e memórias!
O
dia já estava quente, o céu limpo, azul cortado por andorinhas e promessas.
Deixei a cidade com um certo carinho. Olhei pelo retrovisor como quem acena a
algo que não quer largar, mas sabe que tem de ir.
O
dia começava a aquecer. Era verão castelhano, quente, seco e com aquele tipo de
calor que não te sufoca, mas te envolve. Sentia-me livre, leve, rodeado de uma paisagem
que muda devagar, como quem não tem pressa de chegar.
A
primeira etapa levou-me por Valladolid. O caminho até lá é de uma beleza
discreta, sem exageros: campos vastos e ondulados, tons de ocre, trigo queimado
pelo sol e girassóis virados todos na mesma direção, como um exército pacífico
rendido à luz. Às vezes, uma árvore solitária quebrava o horizonte, como um
ponto de exclamação no fim de um verso.
Em
Valladolid, apenas abrandei. Respirei o ar morno da cidade sem parar. Havia ali
um murmúrio urbano por trás das muralhas da história, mas o meu rumo era outro.
Abri os vidros, deixei a cidade entrar num sopro. Gosto desta sensação de
atravessar lugares que ficam a meio caminho entre o que sou e o que procuro.
Segui
estrada fora… as mesetas pareciam infinitas. O céu azul, sem mácula, estendia-se
até onde os olhos ousassem seguir. O silêncio dentro do carro fazia eco com o
do mundo lá fora. Não era solidão, era presença. Estar só, mas inteiro.
Burgos
apareceu como um oásis de pedra clara. A imponência da catedral anunciava-se à
distância, mas o que me chamou não foram os sinos — foi o estômago. Estacionei
perto do centro e deixei os passos guiarem-me até uma tasca acolhedora, dessas
com toalhas de pano e vinho da casa servido com orgulho.
Pedi
uma morcilla de Burgos, escura, rica, com arroz e especiarias que contavam
histórias antigas. Veio com pimentos assados e um pedaço de pão rústico. Um
copo de tinto local completou o quadro. Comi devagar, olhando o vai-e-vem da
cidade, como se estivesse a ver uma peça de teatro em que já conhecia o final,
mas gostava de assistir de novo.
Depois
voltei à estrada. A luz começava a inclinar-se. O caminho entre Burgos e
Zaragoza parecia esticado pela mão de um pintor: colinas suaves, horizontes
amplos, tons de mel e poeira, com o sol a lançar sombras que dançavam
preguiçosas.
E
eu, ali no meio, entre destinos e memórias. Às vezes, pensava em nada, noutras,
em tudo, em alguém, em ninguém, vagueando no culpo-te e desculpo-te. Mesmo
assim sinto, o quão confortável pode ser uma viagem em que ninguém te espera —
e mesmo assim, tu vais.
À
medida que Zaragoza se aproximava, sentia que algo em mim também chegava a um
lugar. Porque às vezes, a beleza da viagem não está no destino — mas na estrada
que nos revela por dentro, no silêncio que nos limpa, e num petisco bem servido
num lugar onde nunca estivemos… mas onde, por um instante, parecemos pertencer.
Cheguei
a Zaragoza com o céu a corar lentamente. As primeiras luzes acendiam-se como se
a cidade respirasse fundo antes da noite. Estacionei o carro, mas fiquei um
momento dentro dele, só a olhar.
Há
viagens que nos mudam. Outras apenas nos recordam quem já somos. Esta foi um
pouco dos dois.
Diário
de uma viagem – 3º dia – 29/06/2025

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