Entre destinos e memórias!

 


Quando o sol ainda se espreguiçava, preguiçoso, sobre as muralhas da Zamora, eu já estava pronto para os 520 km que me esperavam até Zaragoza.

O dia já estava quente, o céu limpo, azul cortado por andorinhas e promessas. Deixei a cidade com um certo carinho. Olhei pelo retrovisor como quem acena a algo que não quer largar, mas sabe que tem de ir.

O dia começava a aquecer. Era verão castelhano, quente, seco e com aquele tipo de calor que não te sufoca, mas te envolve. Sentia-me livre, leve, rodeado de uma paisagem que muda devagar, como quem não tem pressa de chegar.

A primeira etapa levou-me por Valladolid. O caminho até lá é de uma beleza discreta, sem exageros: campos vastos e ondulados, tons de ocre, trigo queimado pelo sol e girassóis virados todos na mesma direção, como um exército pacífico rendido à luz. Às vezes, uma árvore solitária quebrava o horizonte, como um ponto de exclamação no fim de um verso.

Em Valladolid, apenas abrandei. Respirei o ar morno da cidade sem parar. Havia ali um murmúrio urbano por trás das muralhas da história, mas o meu rumo era outro. Abri os vidros, deixei a cidade entrar num sopro. Gosto desta sensação de atravessar lugares que ficam a meio caminho entre o que sou e o que procuro.

Segui estrada fora… as mesetas pareciam infinitas. O céu azul, sem mácula, estendia-se até onde os olhos ousassem seguir. O silêncio dentro do carro fazia eco com o do mundo lá fora. Não era solidão, era presença. Estar só, mas inteiro.

Burgos apareceu como um oásis de pedra clara. A imponência da catedral anunciava-se à distância, mas o que me chamou não foram os sinos — foi o estômago. Estacionei perto do centro e deixei os passos guiarem-me até uma tasca acolhedora, dessas com toalhas de pano e vinho da casa servido com orgulho.

Pedi uma morcilla de Burgos, escura, rica, com arroz e especiarias que contavam histórias antigas. Veio com pimentos assados e um pedaço de pão rústico. Um copo de tinto local completou o quadro. Comi devagar, olhando o vai-e-vem da cidade, como se estivesse a ver uma peça de teatro em que já conhecia o final, mas gostava de assistir de novo.

Depois voltei à estrada. A luz começava a inclinar-se. O caminho entre Burgos e Zaragoza parecia esticado pela mão de um pintor: colinas suaves, horizontes amplos, tons de mel e poeira, com o sol a lançar sombras que dançavam preguiçosas.

E eu, ali no meio, entre destinos e memórias. Às vezes, pensava em nada, noutras, em tudo, em alguém, em ninguém, vagueando no culpo-te e desculpo-te. Mesmo assim sinto, o quão confortável pode ser uma viagem em que ninguém te espera — e mesmo assim, tu vais.

À medida que Zaragoza se aproximava, sentia que algo em mim também chegava a um lugar. Porque às vezes, a beleza da viagem não está no destino — mas na estrada que nos revela por dentro, no silêncio que nos limpa, e num petisco bem servido num lugar onde nunca estivemos… mas onde, por um instante, parecemos pertencer.

Cheguei a Zaragoza com o céu a corar lentamente. As primeiras luzes acendiam-se como se a cidade respirasse fundo antes da noite. Estacionei o carro, mas fiquei um momento dentro dele, só a olhar.

Há viagens que nos mudam. Outras apenas nos recordam quem já somos. Esta foi um pouco dos dois.

Diário de uma viagem – 3º dia – 29/06/2025

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