Dói o peito, falta ar!

 


Acordei em Lille, num quarto acolhedor de um pequeno hotel, com um aroma suave a café acabado de fazer a escapar-se pelas frestas da porta. Os funcionários, sempre sorridentes, tinham aquela atenção discreta, mas genuína que nos faz sentir bem-vindos. Sentia-me rejuvenescido, leve, com a energia de quem dormiu bem e estava pronto para descobrir a cidade em toda a sua riqueza — turística, cultural e humana.

Lille é um lugar que mistura tradição e modernidade de forma única. Saí do hotel e fui direto ao coração da cidade, a Grand Place, também conhecida como Place du Général-de-Gaulle. É um largo magnífico rodeado por edifícios históricos com fachadas flamengas, cafés vibrantes e um dinamismo que contagia. No centro, a Coluna da Deusa observa tudo com imponência e elegância.

Continuei até à Vieille Bourse, talvez um dos edifícios mais belos da cidade. A sua arquitetura renascentista flamenga é hipnotizante. No pátio interno, encontrei bancas de livros antigos, moedas, postais — um pequeno tesouro para quem gosta de se perder entre memórias em papel.

Segui para o Palais des Beaux-Arts, um dos maiores museus de belas-artes de França, onde pude contemplar obras de Rubens, Goya, Delacroix, entre outros. Um lugar de silêncio e beleza, onde a arte parece sussurrar segredos aos mais atentos.

Almocei num pequeno restaurante típico no bairro de Wazemmes, onde me deliciei com um potjevleesch — um prato regional de carnes frias em gelatina — e umas frites crocantes. A gastronomia de Lille é uma celebração da alma flamenga, robusta e acolhedora. Conversei com o dono do restaurante, um senhor que me contou histórias sobre os mercados do bairro e sobre como a cidade mudou com o tempo. Nessas palavras, encontrei uma ponte direta para a cultura viva de Lille: feita de gente simples, generosa, apaixonada pela sua terra.

À noite, entrei num bar discreto e charmoso, com luzes quentes e móveis de madeira escura. O ambiente era calmo, familiar — fez-me lembrar o lugar onde costumo reunir-me com os meus amigos. Sentei-me ao balcão, pedi um copo de vinho tinto e deixei-me embalar pela música suave que preenchia o ar com uma melancolia doce.

Foi então que olhei para o meu telemóvel. Três chamadas não atendidas de Márcio, o meu grande amigo de sempre. Senti um aperto no peito. Liguei de volta de imediato. Do outro lado, a voz dele chegou trémula, insegura, quase como um sussurro à deriva.Dói o peito, falta ar!” dizia-me Márcio. Percebi, naquele instante, que algo sério se passava. Ele precisava de mim. A cidade podia esperar. Quando a amizade chama, não há monumento ou paisagem que se sobreponha.

A história do Márcio e Filipa parece um filme de curta-metragem, mas é verdadeira. Quando a emoção se sobrepor à razão tolhe a visão dos primeiros sinais. É tudo tão rápido! O que era nada, volta a ser tudo e o que era tudo, passa a ser nada.

Cegueira emocional gera a sensação de que tudo é normal, mas, longe do romantismo, o que às vezes os olhos insistem em não ver, a coração sente a distorção da realidade. Dói o peito, falta ar. Quando estás apaixonado, as emoções produzem uma avalanche de substâncias que tornam tudo perfeito. Por isso se diz que “a paixão é cega” e causadora de muitas decisões erradas.

Numa relação simulada, estamos a construir o palco perfeito para a cena das “balelas”. Acreditamos porque ficamos em transe! É como estivéssemos a ouvir uma orquestra e só nos concentrar no som da bateria. Silenciosamente, a tua vida vai sendo controlada ao ponto de te desconectares da própria identidade. Nem sempre temos a sabedoria para lidar com os acontecimentos e o poder de separar o certo do errado, mas como seres intuitivos não podemos abandonar a ideia de nos segurar na ancora da razão do outro “Eu” e, para isso, é necessário sair da ilha, mesmo que seja a nado, para a poderes ver numa outra perspectiva.

A vida é como é! Quando isso acontece só temos que fazer as pazes com a nosso passado, aprender a aceitar os motivos e irmos até ao fim nas decisões Não queiras sentir esse gosto enferrujado do desgosto; aprende a não repreender ninguém e a viver a vida como ela é. Ela não pode mudar, mas tu podes!

Diário de uma viagem – 15 dia – 11/07/2025

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