Despi o meu corpo de culpas!

 


Na bruma suave de uma manhã em Saint-Malo, o mar sussurrava segredos antigos enquanto os primeiros raios de sol escorriam pelas pedras húmidas da muralha, tingindo-as de âmbar e ouro. O ar, ainda fresco da noite, envolvia-me com um toque salgado e sereno, como se o Atlântico quisesse acalmar o que restava da tempestade emocional deixada em Toulouse. Aquela noite, quente e turbulenta, era agora apenas espuma dissipada — uma memória morna que já não feria.

Parti devagar, com o corpo relaxado e a alma em silêncio. A estrada que se estendia diante de mim era um lençol de cinzas claras e verdes profundos, salpicado aqui e ali com girassóis dourados e o azul distante de um céu sem pressa. O volante entre os dedos era quase uma extensão da minha respiração — cada curva, cada quilómetro, um gesto de reencontro comigo mesmo.

Ao chegar a Caen, o tempo pareceu ceder. Ellen, com aquele sorriso que ainda sabia de cor, esperava-me como se os anos não tivessem passado. O reencontro foi um vinho encorpado, servido ao sol de um terraço calmo. Conversamos com a leveza de quem já partilhou silêncios em trilhos de montanha, as palavras fluindo como riachos do Gerês — frescas, limpas, íntimas. O almoço foi mais do que comida: foi memória, afeto e aquele tipo raro de conforto que só a amizade descomplicada sabe dar.

Com os olhos lacrimejados, foi-me dizendo, quase com uma voz inaudita: Sabes Maurice, despi-me! Despi o corpo de culpa. Passei metade da vida a tentar ser correta, a querer ser ponderada, a exigir-me ser leal. Vesti-me com os melhores valores, rodeei-me das melhores práticas e fiz, quase sempre, a aposta certa. Se nunca falhei? Claro que sim! Falhei. Falhei demasiadas vezes. As vezes necessárias para me fazer levantar, para limpar as feridas e seguir em frente. Seguimos sempre em frente, não é? Com mais ou menos mazelas, mas somos dos duros. Dos que não vergam. Dos que acreditam que o bem irá sempre triunfar. E por isso seguimos.

Suspendeu a voz por um momento, como se ficasse sem chão no meio dum labirinto. Respirou fundo e continuou: fui eximia no sentir. Senti sempre em doses exageradas. O que sinto hoje é na exata proporção do que sei que vou sofrer amanhã. Sempre foi assim. E desconfio que já não irá mudar. No entanto, hoje, descobri – como quem descobre uma formula de que há muito estava à espera – que fui assim, durante este tempo todo, mais pelos outros do que por mim, porque somos leais com os outros, somos corretos com os outros, sentimos pelos outros. Sabes que mais? Cansei! Cansei de não ir porque não é correto, de não fazer porque não é sensato, de não sentir para não magoar.

Levantou-se lentamente e abraçou-me. Eu senti o seu coração bater mais forte: Despi-me de culpas. Deixei-as lá fora. Despi-me das culpas que nós próprios criamos. Das culpas que carregamos. Não faço porque… não vou porque… não sinto porque… Mas eis que, agora, apetece-me fazer, apetece-me ir e apetece-me tanto sentir-me. Eu! Agora, eu, porra, sem culpas. Despi o meu corpo de culpas. E talvez o dispa de roupas também, ou talvez dispa a alma, com calma. Talvez vá.  Talvez faça. Talvez seja. E talvez me veja transparente como sou.

Deixei Caen com Ellen no caroção, embalado pelas suas palavras. O céu, agora em tons de lavanda e cinza dourado, anunciava o fim do dia, mas não do caminho. Em direção a Paris, os campos tornavam-se sombras e silhuetas, dançando com a luz morna do entardecer. O coração, calmo e atento, batia como se soubesse que te aproximavas de algo maior.

Paris surgiu aos poucos, envolta num véu de azul profundo e reflexos dourados. Mas já não era a cidade dos clichês brilhantes — era a Paris real, a que conhece o desejo e o desassossego. As luzes que um dia pareceram eternas estavam agora mais suaves, quase tímidas, como se soubessem que não precisavam brilhar tanto para seduzir. A cidade luz estava mais escura — mas mais sensual também. Como quem já sofreu e ainda assim convida.

Cheguei a Paris cansado. O corpo pesa, os pensamentos desaceleram, e os olhos já se rendem às luzes suaves da cidade que respira ao meu ritmo.  Estava apenas presente. E nesse estado de presença calma, as cores da viagem — o dourado do amanhecer, o verde das estradas, o carmim discreto de uma conversa profunda com Ellen e o azul crepuscular de Paris — tornaram-se parte de mim. Quero dormir depressa — não para fugir do presente, mas para acordar com a cidade do l’amour que me espera com os seus becos secretos, os cafés lentos e os olhares que se cruzam sem pressa. Que a noite me embale, e o dia me encontre desperto — pronto para uma nova caminhada.

Diário de uma viagem – 12 dia – 08/07/2025

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