Amanhã, é o primeiro dia dos últimos da minha vida!
Despertei em Vejle com a luz suave da manhã a tocar o lençol branco como se me convidasse a viver algo único. O quarto era acolhedor, com aquele silêncio que só se encontra em cidades que respeitam o tempo. Caminhei até à janela, abri-a devagar, e ali estavam eles, como amantes entrelaçados: os rios Vejle e Grejs, fundindo-se num abraço silencioso e eterno, refletindo o céu em tons de prata e azul.
Desci
para tomar o pequeno-almoço, guiado pelo aroma doce do pão fresco e do café
acabado de fazer. A sala era elegante, decorada com bom gosto e um certo charme
nórdico. Poucos hóspedes — dois casais a falar baixo, uma família com duas
crianças a sorrir — e mesmo assim, tudo impecável, cada detalhe pensado, cada
gesto dos empregados envolto em gentileza.
Ela
aproximou-se com passos firmes e graciosos. Tinha um olhar verde-azulado que
parecia conter o mar da Dinamarca inteiro. Cabelos dourados presos num
rabo-de-cavalo despreocupado, pele clara como porcelana morna, um corpo
delineado por curvas naturais e elegantes, vestida de forma simples, mas com um
charme discreto e magnético. Tinha a idade perfeita em que a beleza encontra a
experiência. Sorriu. Um sorriso largo, aberto, que me desarmou por completo.
Com
uma voz filtrada, quase sussurrante, perguntou-me em inglês: “Alone?” Assenti,
sorrindo de volta: “Yes. I’m here to explore the city. No schedule, but limited
time.” Ela manteve o olhar por um breve instante, como se lesse algo nas
entrelinhas da minha resposta, depois desviou-se com elegância. Mas voltou, com
um brilho nos olhos: “I’m not a guide, but I finish my work at 10 a.m.” Fiquei
surpreso. Mas a resposta saiu natural, quase instintiva: “Perfect. Thank you.”
Encontrámo-nos
na receção. Lá estava ela, agora em roupa desportiva, jeans justos e uma
camisola leve. Radiante. Cheia de energia. “I’m Nora.” E eu respondi “I’m
Maurício. Portuguese. Nice to meet you.”
“Vem…
vais gostar! O melhor ainda está para vir ou seja para veres”. A cidade
revelou-se pelos olhos dela. Caminhámos até o Vejle Kunstmuseum, onde arte
moderna e clássica se cruzavam com naturalidade. Passámos pela Casa de Música
(Spinderihallerne), pelo Molokstenen, e pelo Windmill Park. Seguimos até a
Vejle Fjord Bridge, imponente, sobre as águas calmas do fiorde. Subimos às
colinas de Munkebjerg, de onde se via toda a cidade respirando entre floresta e
água.
O
almoço foi num restaurante pequeno e acolhedor, com paredes de pedra e janelas
abertas para o rio. Pedimos carne grelhada, tenra e suculenta, temperada com
ervas locais. Um copo de vinho tinto — surpreendentemente encorpado — completou
o quadro. Nora falava de forma encantadora, com um sotaque doce, e os olhos
dela riam quando mencionava as aventuras da juventude. Falámos de Portugal.
Contou-me que sempre quis visitar Lisboa, perder-se nas ruas de Alfama, provar
um pastel de nata com canela e ver o pôr do sol no Tejo. Falei-lhe que ela do
Norte e ele disse prontamente “I want to go too”.
Mas
o destino, esse escritor imprevisível, tinha os seus próprios planos. No meio
da tarde, Nora recebeu uma chamada urgente. O sorriso apagou-se por um instante
e ela apenas disse: “I’m really sorry, Maurício. I need to go. It was…
beautiful.”
Fiquei
só, mas não vazio. Ao entardecer, jantei num restaurante à beira-rio. As luzes
refletidas na água dançavam como lembranças daquele dia raro. Pedi salmão
grelhado e um copo de branco seco. A solidão ali era mais contemplativa do que
triste, pensava na simpatia e no cuidado de Nora.
Eu
fico enamorado pelo olhar que sorri! Fiquei triste pela partida desprevenida
sem despedida, sem um abraço apertado, um “adeus” com significado, porque o
nosso tempo acabou. Eu não sei explicar se foi o sorriso que me encantou e
fascinou ou olhar que me dominou e prendeu!
Somos
uma mistura de rostos e bocas, sorrisos e olhares, atitudes e palavras, estilos
e comportamentos, mas o olhar é como o algodão, não engana! O nosso olhar pode
demonstrar simpatia, felicidade ou desapego. Eu fico enamorado pelo olhar que
sorri de felicidade da menina mulher que busca a inocência e sonha alto com
esperança. Eu não sei explicar se é o sorriso que me encanta e me fascina ou se
é o olhar que me domina e me prende.
Na
verdade, um sorriso lindo, brilhante e encantador é um fenómeno da natura,
assim como uma chuva de meteoros ou a aurora boreal. Quando o teu olhar sorri,
estás a criar conexões, transmites paz, acolhes e suscitas os mais belos
sentimentos.
Ricos
ou pobres somos especialistas em sofrer. Apesar de tudo isso nós não somos o
problema, porém, temos alguns problemas; temos dificuldade em aceitar que somos
seres humanos iguais, seres sociais criados para o relacionamento e que todos
estamos aqui com um único propósito “Ser Feliz!”
Regressei
ao hotel, cansado, mas leve. Preguntei pela Nora. Informaram-me que no dia
seguinte estaria de folga. Hum… pensei que seria o momento de me libertar. Pedi
uma garrafa de vinho tinto português, “Parcela Velha – Alicante Bouscht do
Alentejo, acompanhado com queijo dinamarquês.
Abril
lentamente a janela e lá estava a lua refletida num grande espelho de água a
encorajar-me para falar: por muito que
me esforce, enquanto tu estiveres mal com a vida, tudo que eu faça não é
suficiente. Eu tento, com palavras doces, com silêncios compreensivos, com
gestos que nascem do coração — mas nada floresce onde tudo está queimado.
Quando
me olhas, escuta as promessas quebradas, vês os erros que alguém cometeu, tudo
aquilo que a vida te tirou sem aviso e cobras-me. Cobras-me por tudo aquilo que
eu não fiz, pelas dores que eu não causei. E eu fui acreditando que o amor pode
curar, pode construir pontes sobre abismos, mas, aos poucos, o meu esforço
transformou-se numa prisão. Mesmo nos momentos mais românticos — quando o céu
se tinge de laranja e tu sorris como se, por instantes, tivesses esquecido do
mundo, há um peso no ar. Um medo. Uma certeza triste de que, cedo ou tarde,
tudo vai voltar
Depois
deitei-me, fechei os olhos e adormeci. Amanhã, será um novo dia. Talvez o
primeiro dos últimos da minha vida.
Diário
de uma viagem – 23 dia – 19/07/2025

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