Uma sociedade que aceita o desperdício ao lado da fome não é civilizada - é apenas sofisticadamente indiferente.
Despertei em Latina com a mesma sensação com que adormecera: a de que o dia seguinte não seria apenas mais um dia. Seria uma história. Havia qualquer coisa de estranho a acompanhar-me desde os primeiros dias desta viagem - uma presença silenciosa, quase como uma sombra feita de pensamentos - que me apertava o coração um pouco mais a cada amanhecer.
Sou, por natureza, uma pessoa resiliente. Não desisto facilmente das boas causas, nem da esperança. Mas há dias - como aquele - em que me pergunto se o momento de reciclarmos os nossos maus vícios e desastrosas atitudes alguma vez chegará. Assim como espero que a minha carta de amor, que lancei ao mar engarrafada em Constança, encontre um dia o seu destino, também espero que as novas gerações se tornem mais humanizadas e se unam, com a mesma coragem com que se levantam impérios, para construir um mundo melhor.
Foi
com esse aperto no peito que cheguei à arena matinal: a sala de
pequenos-almoços. Um lugar aparentemente inocente, onde se pode observar - se
estivermos atentos - a origem de um dos mais severos problemas da humanidade. Assim
que entrei, o aroma do café forte e do pão acabado de cozer sequestrou-me os
pensamentos. Para mim, aquele pão a seduzir a manteiga derretida é quase um
momento sensual - uma pequena coreografia gastronómica entre o calor, o aroma e
o prazer da degustação. É o tipo de romance breve que acontece entre a fome e o
paladar.
Mas
à medida que as pessoas iam entrando e saindo, numa manhã em que o hotel estava
completamente cheio, senti um murro no estômago. Nos pratos abandonados havia
croissants esmagados, fatias de pão mordidas pela metade, frutas inteiras
deixadas para trás como se fossem figurantes descartáveis num teatro de
abundância.
Este
facto já não era novo para mim. Já o tinha visto noutras viagens. Mas o que
mais me entristecia era a atitude distraída com que tudo acontecia. As pessoas
levantavam-se, conversavam, riam, ajeitavam os casacos elegantes, como se
aquele gesto - o de deixar comida suficiente para alimentar outras vidas - não
tivesse qualquer significado.
Enquanto
os empregados recolhiam os restos para o lixo, o resto do cenário mantinha-se
impecavelmente normal. A música de fundo tocava Chopin com a delicadeza de quem
não quer incomodar ninguém. O ambiente respirava luxo. As pessoas cruzavam-se
com sorrisos luminosos e roupas bem passadas. Era uma coreografia civilizada…
com um final profundamente selvagem.
E
é aqui que o coração da questão começa a latejar. Vivemos num planeta onde
milhões de toneladas de alimentos são desperdiçadas todos os anos enquanto
milhões de seres humanos morrem de fome. Não por falta de comida no mundo - mas
por falta de caráter na forma como o mundo é organizado. O desperdício não é
apenas um erro logístico; é uma falha moral. Cada prato abandonado é uma
decisão invisível. Cada torneira aberta sem necessidade é um pequeno crime
contra alguém que, algures, caminha quilómetros por uma gota de água.
Os
milhões de litros de água que desperdiçamos por preguiça - por não fecharmos a
torneira enquanto lavamos as mãos ou os dentes - são gotas que poderiam salvar
vidas. As toneladas de alimentos que acabam nos aterros sanitários seriam
suficientes para alimentar continentes inteiros. E, no entanto, continuamos a
viver nesta estranha contradição civilizada: supermercados cheios e estômagos
vazios.
Os
centros de decisão mundiais conhecem o problema. Têm dados, relatórios,
estatísticas, conferências e cimeiras. Sabem perfeitamente que grande parte da
fome mundial poderia ser mitigada com políticas públicas simples:
redistribuição alimentar, incentivos fiscais para doações de alimentos,
legislação que obrigue cadeias de hotéis, supermercados e restaurantes a
canalizar excedentes para redes de apoio social.
Sabem também que investir em agricultura sustentável, em sistemas de armazenamento nos países pobres e em infraestruturas logísticas salvaria milhões de vidas. Mas entre saber e agir existe um território chamado conveniência política. Os países ricos aqueles que gostam de se autodenominar civilizados - erguem discursos sobre progresso, direitos humanos e ética global. No entanto, quando chega a hora de alterar estruturas económicas que sustentam o desperdício, subitamente ficam mudos. Ou ocupados. Ou preocupados com índices de mercado.
Civilização
não é tecnologia. Civilização é empatia. E uma sociedade que aceita o
desperdício ao lado da fome não é civilizada - é apenas sofisticadamente
indiferente. Talvez a solução comece onde sempre deveria ter começado: dentro
de cada casa. Dentro de cada prato. Dentro de cada consciência. Porque nenhum
decreto substitui um coração acordado.
Sem
dar por isso, quando voltei a mim já estava diante do Palazzo M, um dos
exemplos mais emblemáticos da arquitetura racionalista da cidade. O edifício,
construído em forma de “M”, lembrava silenciosamente o peso da história - hoje
sede da Guardia di Finanza, ontem símbolo de um tempo que acreditava poder
moldar o mundo pela força.
Ali
perto parei para almoçar alguma coisa. Confesso que estava sem fome. Sentia um
nó no estômago - daqueles que não se desfazem com talheres. Acabei por pedir
uma baguete com queijo e presunto. Soube-me maravilhosamente bem, talvez porque
naquele momento cada pedaço tinha um significado maior do que apenas saciar o
apetite.
Com
o dinheiro que poderia ter gasto em mais comida para mim, comprei algumas
refeições embaladas. Não planeei nada heroico. Apenas segui um impulso simples.
Mais à frente, dois casais estavam sentados na rua com três crianças. Não
pediam nada. Apenas estavam ali, como quem espera que o mundo passe. Aproximei-me
devagar e estendi-lhes os sacos.
Por
um segundo houve silêncio - aquele silêncio que antecede a surpresa. Depois
vieram os olhos. Aqueles olhos que dizem mais do que qualquer discurso político.
As crianças sorriram primeiro. Um dos homens levantou-se e apertou-me a mão com
força, como se aquele gesto fosse uma ponte entre dois universos
momentaneamente ligados. Uma das mulheres murmurou um “grazie” tão cheio de
gratidão que parecia maior do que a própria palavra.
Não
resolvi o problema do mundo naquele momento. Nem sequer resolvi o problema
daquela família. Mas, durante alguns minutos, a balança da humanidade
inclinou-se um pouco para o lado certo. Senti que fiz a minha parte naquele
instante. E ao mesmo tempo senti que não era suficiente. Aliás, nunca é. Porque
aquilo que fizemos fora de casa começa sempre naquilo que aprendemos dentro
dela.
Depois
segui viagem - afinal eu não era dali e provavelmente eles tambem não. Saltei
pela cidade como um canguru curioso até à Piazza del Quadrato, a primeira praça
da antiga Littoria, símbolo da recuperação das terras pantanosas da região.
Continuei até ao Palazzo delle Poste, com o seu estilo futurista quase
cinematográfico. Passei também pelos museus que guardam a memória desta terra: o
vasto Piana delle Orme, que conta a história da recuperação das terras pontinas
e episódios da Segunda Guerra Mundial; o Museo Civico Duilio Cambellotti, onde
a arte dialoga com a identidade local; e o Museo della Terra Pontina, dedicado
à memória e ao desenvolvimento desta região no século XX.
Latina
é jovem, mas os seus arredores respiram séculos. Fiquei com pena de não ter
tempo para visitar algumas das maiores joias da região: o romântico Giardino di
Ninfa, construído sobre ruínas medievais; o imponente Castello Caetani di
Sermoneta; o selvagem Parco Nazionale del Circeo com as suas dunas e lagos
costeiros; ou a luminosa praia de Sperlonga, com as suas casas brancas e águas
transparentes.
Mas
as horas passaram depressa e as minhas pilhas começaram a esgotar-se. Quando
regressei ao hotel já era noite estrelada. Fui ao bar. Pedi outra baguete -
desta vez com alface e atum - e bebi duas cervejas geladas. Talvez três. Não
contei. Não me comprometo com números depois da segunda.
Subi
finalmente ao quarto e deixei-me cair na cama. Pensei naquele dia enigmático,
cheio de mistérios sentimentais. Pensei nos milhões de seres humanos
carenciados que, de alguma forma, caminharam comigo ao longo daquela jornada.
https://www.youtube.com/watch?v=Cx1nb39lb8Y&list=RDCx1nb39lb8Y&start_radio=1
Coloquei os meus fones, escolhi uma música relaxante e deixei o mundo dissolver-se lentamente. E dormi. Talvez à espera de que o dia seguinte, na minha viagem até Livorno - mais uma vez - não fosse apenas um dia. Mas outra história.
Diário de uma viagem – 121 dia







Maurício,
ResponderEliminarExistem textos que passam despercebidos e outros que permanecem, silenciosos, dentro de quem lê. Este pertence àqueles que se instalam no coração.
Há uma delicadeza rara na forma como cada gesto é percebido: o aroma do pão, o silêncio de um instante, um olhar que revela mais do que palavras poderiam. Pequenos detalhes que se tornam poesia e lembram que a verdadeira grandeza reside na sensibilidade e na humanidade que carregamos.
Cada página do diário é uma mensagem que toca, que fica, que convida a ler e reler, a absorver devagar, sentindo cada palavra como se fosse um sopro de vida. É a prova de que viajar não é apenas atravessar lugares, mas atravessar corações com atenção e ternura.
Obrigada, Maurício.