Perdemos o hábito do toque …


Despertei em Latina com a sensação estranha de quem regressa de um sonho que ainda não terminou. Havia em mim uma leveza quase suspeita, como se a noite tivesse passado uma esponja húmida sobre os cansaços acumulados da vida. Rejuvenescido - ou apenas iludido pela manhã - preparei-me para a nova viagem até Livorno, na esperança secreta de que não fosse apenas uma viagem, mas mais um capítulo improvável daquelas histórias que insistem em acontecer quando menos esperamos.

Seguiu-se o ritual de sempre. O banho gelado, aromático, quase cerimonial, que me devolve à ordem natural do pensamento. A água fria tem esse poder curioso: lava o corpo e reorganiza a alma. Depois o pequeno-almoço - momento que considero sagrado, quase místico. Mas não quero repetir as mesmas histórias nos, mesmos ambientes.

Quando fui fazer o check-out fui recebido por Sophia - era assim que estava escrito no crachá. Estava de folga no dia em que fiz o check-in, o que foi uma pequena injustiça do destino. Sophia era uma mulher invulgar. Rosto moreno com uma beleza ligeiramente selvagem, olhos verdes e uma expressão que não encaixava perfeitamente no molde italiano. Mas isso, na verdade, pouco interessa. Era interessante… e pronto.


Quando falou, a sua voz era filtrada, suave, aveludada. Daquelas vozes que fazem lamentar retrospetivamente todas as conversas que não tivemos. Quando percebeu que eu era de Portugal inclinou-se sobre o balcão e segredou, como se partilhasse um plano clandestino: “Estou a pensar fazer umas férias em Portugal… para relaxar.” Não respondi de imediato. Pedi apenas uma folha de papel e algo para escrever. Anotei o meu contacto e um lugar onde o paraíso ainda respira sem pressa: Parque Nacional da Peneda-Gerês. E logo abaixo: Agrinho Suites & Spa Hotel Gerês. Quando lhe entreguei a folha disse, quase como quem deixa um feitiço no ar: “Ti aspetterò.” Ela colocou a mão sobre o peito, gesto simples e antigo como a gratidão humana, e sorriu. Um sorriso cheio de promessas que talvez nunca se cumpram - mas que já justificam a existência da manhã.

Depois malas no carro. Estrada. E a viagem começou.  A caminho de Grosseto, o céu estava de um cinzento elegante, daqueles que os pintores gostam porque tornam as cores da terra mais honestas. A estrada serpenteava entre colinas suaves da Toscana, onde ciprestes altos pareciam sentinelas silenciosas e casas de pedra surgiam aqui e ali como lembranças persistentes de outros séculos. À esquerda, por momentos, o Mar Tirreno revelava-se - largo, respirando com aquela paciência que só os mares têm. À direita, vinhas disciplinadas e campos verdes onde pequenas aldeias dormiam encostadas ao tempo.


As casas tinham telhados gastos e varandas com roupa a secar. As pessoas caminhavam devagar, como se ainda acreditassem que o dia é longo o suficiente para viver. E talvez seja. Enquanto conduzia, a música preenchia o carro - daquelas melodias que não exigem atenção, apenas companhia. Música que se dissolve no pensamento e passa a fazer parte da paisagem.

Mas os meus pensamentos regressavam a Latina. Não apenas aos museus, às ruas movimentadas, às praças exuberantes, à gente bonita e bem vestida, ao turismo vibrante… ou até à miséria discreta que também existe, como em quase todas as cidades do mundo.

Eu vi outra coisa. Vi aquilo que hoje se espalha silenciosamente pelas cidades do planeta: A solidão moderna em ambientes urbanos. O paradoxo curioso da nossa época. Nunca estivemos tão conectados - e nunca estivemos tão sozinhos. Perdemos o hábito do toque. Perdemos o hábito do diálogo nas esplanadas que se prolonga pela noite. Perdemos o tempo de ler um bom livro, de escrever um pensamento, de ouvir a nossa própria voz… e, mais importante ainda, de escutar a voz dos outros.

Hoje é comum ver famílias inteiras à mesa em silêncio. Não é um silêncio contemplativo - é um silêncio digital. Quatro pessoas. Quatro ecrãs. Quatro universos isolados. As redes sociais transformaram a escrita numa espécie em vias de extinção. Poucos escrevem. Poucos leem. Substituímos palavras por imagens. Dizem que uma imagem vale por mil palavras. Talvez. Mas apenas quando as imagens têm conteúdo.


Grande parte das imagens que circulam nas redes sociais, não contam histórias - apenas pedem aprovação. São pequenos monumentos ao ego, erguidos na esperança de recolher likes, essa moeda invisível com que hoje se mede a autoestima. E quando o principal conteúdo passa a ser o próprio corpo - exibido como mercadoria num mercado global de atenção - algo silencioso se perde. Privacidade. Mistério. Profundidade.

Depois chegam as consequências: a falta de diálogo nas famílias, os divórcios silenciosos, as pessoas que caminham entre multidões sentindo-se invisíveis. Nunca houve tanta gente. Nunca houve tanta solidão. Talvez o verdadeiro luxo do futuro não seja a tecnologia. Talvez seja simplesmente uma conversa sincera sem notificações a interromper.

Cheguei a Grosseto quando o apetite já discutia seriamente com o relógio. E, nestas disputas, o estômago costuma ganhar. Estacionei perto do centro histórico - sempre o meu território favorito - e caminhei por uma rua estreita, daquelas onde os edifícios parecem conspirar para guardar o passado.


Encontrei um pequeno restaurante que parecia existir ali há várias gerações. Dentro, o aroma da carne grelhada dominava o ambiente como um decreto divino. Sentei-me. O staff era maravilhoso - daqueles que não recitam menus, contam histórias gastronómicas. O dono era um homem calvo, com um bigode generoso e uma barriga respeitável que claramente testemunhava muitos anos de dedicação culinária. Recebia os clientes com entusiasmo… embora a barriga não permitisse grande aproximação física. A carne grelhada era simplesmente perfeita. Carne honesta, como se diz por aqui.

Depois caminhei um pouco pela cidade. Passei pelas Muralhas Mediceanas, que ainda abraçam Grosseto num hexágono quase perfeito. Caminhar sobre elas é como passear sobre a memória da cidade. Vi a Catedral de San Lorenzo, com a sua fachada em mármore branco e rosa, delicada e imponente ao mesmo tempo. Na Piazza Dante, o Palazzo Aldobrandeschi ergue-se como um castelo neogótico, lembrando-nos que a história às vezes gosta de dramatizar. Havia muito mais para ver - o Cassero Senese, o Museu Arqueológico da Maremma, o Parque Regional da Maremma, ou as antigas ruínas de Roselle. Mas o tempo, esse tirano elegante, tinha outros planos.


Regressei à estrada. O percurso até Livorno foi breve e tranquilo. O sol começava a descer, espalhando uma luz dourada sobre os campos da Toscana. Quando cheguei, a cidade estava iluminada. Encontrar o hotel foi fácil - mesmo em frente ao Mar da Ligúria, que respirava lentamente na escuridão. Mas assim que entrei senti algo estranho. Um arrepio. Um déjà vu. O espaço era amplo, elegante, cheio de sofás confortáveis. A receção ficava ao fundo, iluminada com uma luz quente que tornava o ambiente acolhedor.

Fui recebido com um sorriso luminoso por duas rececionistas e brindado com uma bebida quente deliciosamente aromática. Chamaram-me pelo nome. Como se nos conhecêssemos há anos. Rita era mais tímida - ruiva, com sardas no rosto e olhos castanho-torrado. Graziela era mais alta, cabelo dourado e olhos azul-mar. Ambas com medidas corporais absolutamente equilibradas: 85 × 60 × 90… aproximadamente, claro - porque eu não tinha fita métrica.

Deram-me um mapa da cidade e algumas dicas. Subi ao quarto, deixei as malas, tomei um banho fresco e aromático e senti finalmente o peso da viagem dissolver-se. Fiquei algum tempo na varanda olhando o mar. Depois desci. Perguntei à Graziela se podia comer uma sandes no bar. Ela sorriu com aquela sedução subtil que os italianos dominam como uma arte ancestral. “Temos várias saborosas.”


O bar era surpreendente. Parecia um jardim interior. Plantas bem cuidadas, luz suave, jazz a tocar num volume perfeito - aquele volume que respeita o silêncio. Graziela falou com o barman e pediu-lhe que me preparasse a sandes que lhe deu fama. Comi uma. Depois outra. E algumas cervejas geladas ao ritmo do jazz. Antes de subir, Graziela aproximou-se: “Está tudo bem?” - perguntou num gesto quase protetor. Desejou-me boa noite e acrescentou: “Amanhã vou dar-te boas dicas para te orientares. Não quero que te falte nada… nem que te sintas só.” Sorriu. E não disse mais nada.

Subi ao quarto. Fiquei algum tempo na varanda olhando o mar e murmurei, quase sem perceber: “Há cidades que nos recebem… e há outras que parecem reconhecer-nos.” Depois deitei-me, coloquei os fones e deixei que a música fizesse o resto.

https://www.youtube.com/watch?v=S88Wit5bNdY&list=RDS88Wit5bNdY&start_radio=1

Enquanto o sono se aproximava lentamente, tive apenas um pensamento final: Talvez Livorno ainda tivesse uma história à minha espera - e talvez essa história já soubesse o meu nome.

 

Diário de uma viagem – 122 dia 

Comentários

  1. Ler-te é como pousar num instante suave, . Há uma doçura delicada,um calor humano que se sente em cada gesto descrito, como se cada encontro, mesmo breve, ficasse guardado com carinho dentro de quem lê. É um toque subtil que permanece na pele e no coração.
    Fez-me lembrar José Luís Peixoto, nessa forma terníssima de escrever o que se sente sem pressa, deixando o afecto espalhar-se entre as linhas. E no meio de tudo, fica essa sensação preciosa: ainda há lugares onde o tempo abranda, os telemóveis ficam esquecidos no bolso… e as pessoas se encontram de verdade, com calor e alma.
    É por isso que gosto de te ler assim… devagar e de te reler. Maurício

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Mensagens populares deste blogue

Como é frágil a esperança humana quando tenta encontrar atalhos para a felicidade!

Descobrir os sentimentos de uma mulher com uma natureza apaixonada, intensa e misteriosa, é o mesmo que resolver o cubo Rubik!

Mas antes de conquistar Budva, eu precisava de ser conquistado…