A juventude que não vê e a velhice que não é vista…
Despertei
em Catânia com a estranha sensação de que o mundo me tinha enviado uma
notificação urgente: “Levanta-te. Hoje é dia de acontecer.” O banho foi rápido,
quase ritualístico - água a escorrer como se me lavasse não apenas o corpo, mas
as hesitações. O pequeno-almoço foi devorado com a sofreguidão de quem sabe que
o universo não espera por indecisos. Café forte, pão ainda morno, manteiga que
se rendia ao calor. Foi tudo tão rápido. Tão perigosamente vivo.
Era
o penúltimo dia na companhia de Nicole e da sua avó Claire. Desde Lecce que
lhes dava boleia, cúmplice improvável daquela viagem que as levaria até
Marsala, onde uma amiga as aguardava para uns dias de descanso. Nicole - francesa,
deficiente visual - via o mundo de uma forma que me desarmava. Talvez porque
via o que os meus olhos distraídos ignoravam.
Já
estavam na sala de pequenos-almoços à minha espera. “Hoje adormeceste. Se
deixaste a mala aberta, foi por uma boa causa. A tua concha precisa de
respirar” - disse Nicole, com aquele
sorriso de orelha a orelha que parecia iluminar mais do que qualquer janela. Eu
ri-me. “E eu tenho-te desviado o caminho, também por uma boa causa” - respondeu
ela, num abraço leve, voz baixa, quase romântica.
Depois,
sempre ao meu lado, segurando no meu braço para não se perder - ou talvez para
me impedir de fugir - saímos para descobrir a cidade. Catânia é a segunda maior
cidade da Sicília, mas carrega a alma de um vulcão antigo. Vive sob a sombra e
a proteção do Monte Etna. Chamam-lhe “Cidade Negra” pelo basalto que veste ruas
e edifícios. Depois do terramoto de 1693, renasceu num Barroco Siciliano
dramático, onde o negro da lava contrasta com o branco do calcário como se a
própria cidade dissesse: sim, caí, mas levanto-me com estilo.
Na
Piazza del Duomo ergue-se a Fontana dell'Elefante. No centro, o elefante de
basalto - Liotru - símbolo da cidade. Diz a lenda que um elefante anão protegia
os primeiros habitantes. O nome deriva de Heliodoro, um mago do século VIII
que, segundo a tradição, o esculpiu e montou. Catânia tem destas coisas: entre
santos e magos, prefere acreditar nos dois.
Na
Porta Ferdinandea lê-se: Melior de cinere surgo - ressurgirei melhor das
cinzas. Uma cidade que sobreviveu à erupção de 1669 e a terramotos devastadores
tem legitimidade para frases épicas. Foi ali, no meio da praça, que Nicole me
segredou: “Tu deves ter origem aqui nesta cidade. És resiliente e nunca
desistes.” Olhei-a. Ou melhor, tentei ver-me através dela e respondi: “Gostava
de ter a tua coragem.
Ela
inclinou ligeiramente o rosto na minha direção. O vento brincava com o seu
vestido leve. O corpo dela tinha aquela presença silenciosa que não precisa de
palco. Havia uma sensualidade serena na forma como ocupava o espaço - como se
dissesse, sem precisar de olhar: eu não vejo as cores do mundo, mas sei que
brilho.
E
brilhava. Não pela visão, mas pela certeza. A mão dela apertou o meu braço com
uma confiança que me desarmou. Naquele instante, o mundo era apenas textura: o
calor da pedra, o cheiro salgado do mar próximo, o murmúrio distante da cidade.
E nós.
Visitámos
a imponente Cattedrale di Sant'Agata, dedicada à padroeira que protege a cidade
das fúrias do Etna. Sob a catedral, termas romanas lembravam que o tempo é
apenas um detalhe teimoso. Descemos a Via Etnea, com vista direta para o Etna,
que naquele dia fingia inocência sob um céu limpo. Antes do almoço, explorámos
o monumental Monastero dei Benedettini di San Nicolò l'Arena, classificado como
Património Mundial pela UNESCO. Silêncio espesso, claustros vastos, ecos de
passos que nos lembravam que a eternidade pode caber num corredor.
Almoçámos
perto da célebre “A Piscaria”, um dos mercados de peixe mais autênticos de
Itália. O restaurante era pequeno, acolhedor, com toalhas brancas e cheiro a
mar. Trouxeram-nos peixe fresco grelhado na brasa - dourado por fora, húmido
por dentro, carne a desfazer-se com delicadeza insolente. Regado com um vinho
branco siciliano fresco, mineral, quase elétrico. Nicole sorria a cada garfada,
como se estivesse a ler um poema no prato. A sobremesa - uma cassata delicada -
era doce na medida exata para nos fazer suspirar. E suspirámos.
Ainda
visitámos o Teatro Romano e Odeon, ruínas do século II d.C. escondidas no
coração da cidade moderna, o robusto Castello Ursino, sobrevivente teimoso da
lava de 1669, o opulento Palazzo Biscari, com frescos que pareciam sussurrar
intrigas barrocas, e o tocante Museo Storico dello Sbarco in Sicilia 1943, onde
a Segunda Guerra Mundial ainda ecoa nos corredores.
Desgastámos
o almoço e talvez algumas defesas emocionais, quando, ao dobrar de uma esquina,
uma mulher idosa sorriu para mim com a mão estendida. Aproximei-me dela e por
arrasto levei comigo Nicole que não me largava a mão. Com uma voz rouca, mas
meiga, a idosa olhou para ambos com um olhar brilhante e húmido e começou a
falar: "Meus filhos... não me olhem com pressa. Eu sei que o meu rosto
assusta, que o frio desenhou caminhos fundos na minha pele, mas por trás destes
olhos embaciados ainda vive a menina que um dia acreditou que o mundo era doce.
E
continuou enquanto Nicole baixava a cabeça para se concentrar: “Eu não nasci
nesta esquina. Eu tive uma mesa com toalha bordada, o cheiro de alecrim no
fogão e o som de risadas que preenchiam todos os cantos da casa. Tive dois
filhos. O meu Diego, que tinha os caracóis da cor do trigo, e a minha Matilde,
que cantava antes mesmo de saber falar. Eles eram o meu céu.”
“Mas
a vida é um sopro que apaga velas sem aviso. Primeiro, o mar levou o meu homem.
Depois, a doença levou-me o Diego. E a Matilde... a minha Matilde foi-se embora
para a cidade grande em busca de um sonho que a engoliu. Há dez anos que a
minha única morada é a esperança de a ver dobrar esta esquina.”
Ficamos
em silêncio. Nicole apartava com força a minha mão já suada. A idosa continuou
a falar: “Hoje, a minha única posse é esta manta coçada e as memórias que o
tempo ainda não conseguiu roubar. Eu não peço uma moeda pelo pão, embora a fome
morda as entranhas; eu peço porque, quando vocês me olham nos olhos e me dão um
'bom dia', eu sinto, por um segundo, que ainda sou gente. Que ainda existo. Não
me deixem morrer antes de o meu coração parar. Às vezes, um gesto de carinho
aquece mais do que qualquer fogueira no inverno."
Nicole,
que vive num mundo de sombras, mas enxerga com a alma, baixou-se lentamente. As
suas mãos, leves como pétalas, percorreram o rosto da idosa, mapeando cada
sulco, cada cicatriz deixada pelo tempo. Era como se estivesse a ler um livro
sagrado através daquelas rugas. Ela sorriu, um sorriso que parecia iluminar a
rua cinzenta, e sussurrou: 'É linda... tem as rugas da minha avó.'
Com
uma delicadeza divina, Nicole retirou do pescoço o seu colar de ouro - um
crucifixo de esmeraldas que brilhava com uma luz própria - e colocou-o no
pescoço da idosa. O metal nobre contrastou com a pele gasta, como se a
dignidade voltasse a reclamar o seu lugar. Depois, as mãos de Nicole deslizaram
até ao bolso daquela manta velha, deixando ali algo que o segredo e a caridade
não me permitiram ver.
Como
se chama?', perguntou Nicole, a voz suave como uma brisa. A resposta veio num
sopro, um segredo guardado há décadas: 'Beatrice'. Naquele instante, o tempo
parou. As duas abraçaram-se - a juventude que não vê e a velhice que não é
vista. Ambas choraram, unidas por uma corrente invisível de humanidade pura.
Eu, ali ao lado, senti as lágrimas lavarem-me o rosto, testemunha de que, no
meio do abandono, o amor ainda é a única língua que todos entendemos. Beatrice
já não era uma sombra na calçada; naquele abraço, ela tinha voltado a
casa."
Depois
daquele abraço, seguimos caminho em silêncio. O barulho da cidade parecia agora
um ruído distante, incapaz de romper a bolha de reverência que nos envolvia.
Nicole caminhava com uma leveza nova, o seu rosto banhado por uma paz que eu
nunca tinha presenciado.
"Sabes,"
disse ela finalmente, com a voz ainda embargada, "eu não precisei de olhos
para ver o que estava ali. As mãos não enganam. Senti o cansaço do mundo na
pele dela, mas senti também uma doçura que a miséria não conseguiu apagar. O
colar... o colar era apenas um objeto. O que ela precisava era de saber que o
seu nome, Beatrice, ainda soa bonito nos ouvidos de alguém."
Percebi
então que Nicole não tinha apenas dado uma esmola ou uma joia. Ela tinha
devolvido a Beatrice a sua identidade. Naquela tarde, o ouro das esmeraldas
valia menos do que o calor do toque. Enquanto nos afastávamos, olhei para trás
uma última vez. Beatrice segurava o crucifixo com uma mão e, com a outra,
limpava as lágrimas, com as costas retas e o olhar erguido, como se, por um
momento, tivesse deixado de ser invisível. Nicole ensinou-me que a maior
deficiência não é a falta de visão, mas a incapacidade de sentir o outro. Ela,
na sua escuridão física, tinha sido a luz mais brilhante que aquela rua alguma
vez vira.
À
noite, o jantar foi simples: sandes especiais no bar do hotel e cerveja preta
gelada. A avó Claire retirou-se cedo. Estava comovida tambem. Ficámos os dois
na conversa - daquelas que são feitas de memórias abertas à faca, gargalhadas
inesperadas. Havia toques subtis. Um roçar de dedos. Uma mão que permanece meio
segundo além do necessário. Talvez um beijo envergonhado, talvez dois… não me
lembro. Só me recordo do som da nossa respiração ofegante.
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Quando
regressei ao quarto, desfiz-me da roupa como quem abandona armaduras
invisíveis. Coloquei os fones e deixei que uma música romântica me invadisse. A
cama parecia suspensa entre sonho e despedida. Fechei os olhos. Ainda sentia o
perfume, a pressão suave da sua mão no meu braço, a coragem silenciosa que me
ofereceu sem saber.
No dia
seguinte, a estrada até Marsala seria longa. O destino final de Nicole. E eu,
pela primeira vez em muito tempo, não temia chegar ao fim de nada.
Diário
de uma viagem – 115 dia – 18/10/2025







Maurício, leio o teu diário com o coração aberto. A tua escrita é absolutamente fascinante. Obrigada por nos lembrares que a beleza da vida está sobretudo no que sentimos e não apenas no que vemos.
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