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A mostrar mensagens de fevereiro, 2026

A juventude que não vê e a velhice que não é vista…

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  Despertei em Catânia com a estranha sensação de que o mundo me tinha enviado uma notificação urgente: “Levanta-te. Hoje é dia de acontecer.” O banho foi rápido, quase ritualístico - água a escorrer como se me lavasse não apenas o corpo, mas as hesitações. O pequeno-almoço foi devorado com a sofreguidão de quem sabe que o universo não espera por indecisos. Café forte, pão ainda morno, manteiga que se rendia ao calor. Foi tudo tão rápido. Tão perigosamente vivo. Era o penúltimo dia na companhia de Nicole e da sua avó Claire. Desde Lecce que lhes dava boleia, cúmplice improvável daquela viagem que as levaria até Marsala, onde uma amiga as aguardava para uns dias de descanso. Nicole - francesa, deficiente visual - via o mundo de uma forma que me desarmava. Talvez porque via o que os meus olhos distraídos ignoravam. Já estavam na sala de pequenos-almoços à minha espera. “Hoje adormeceste. Se deixaste a mala aberta, foi por uma boa causa. A tua concha precisa de respirar” -   ...

As linhas vermelhas no painel de controlo do mundo.

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  Despertei em Crotone com uma energia invulgar - quase suspeita. Como se o próprio sol tivesse conspirado comigo durante a noite e decidido: “Hoje não te deixo ser banal.” Um banho rápido, quase ritualístico, pequeno-almoço devorado com a sofreguidão de quem sabe que o mundo está à espera, malas no carro. Foi tudo tão rápido. É sempre tudo tão rápido quando as conversas fluem - e com Nicole e Claire as palavras não caminham, dançam. Havia um entusiasmo nelas que não se explicava; respirava-se. Nicole com aquele brilho aventureiro, como se cada curva da estrada fosse um segredo prestes a revelar-se. Claire, com o seu sorriso sábio - o tipo de sorriso que já viu o amor, a guerra, o caos, e mesmo assim ainda escolhe rir. E lá partimos, rumo a Catânia, com o coração a bater no mesmo ritmo do motor. A estrada até Messina abriu-se diante de nós. O asfalto desenhava serpentes negras entre colinas verdejantes, campos salpicados de flores indisciplinadas e oliveiras que pareciam ter op...

Quero ver com os teus olhos.

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  Adormeci em Crotone com uma estranha sensação de que a vida - crítica, severa, exigente como uma professora de latim mal-amada - me tinha observado da plateia e, por uma vez, aplaudido de pé. Eu, que tantas vezes tropecei nos próprios argumentos, senti-me absolvido sem julgamento, condenado apenas a continuar. Porque às vezes a maior aventura não é atravessar países, nem colecionar carimbos no passaporte como quem coleciona desculpas. Às vezes, a maior aventura é permitir que alguém nos ensine a ver. E quando abri os olhos, o mundo parecia a minha fome: colorido, intenso, com apetite de viver - e eu disposto a ser devorado. Depois, o ritual de sempre. Abri a janela. Espreitei o mar. E o mar, insolente, respondeu com uma bafada de ar quente que me empurrou para trás como se dissesse: “Hoje não filosofas, hoje é dia de praia.” Um banho rápido - quase penitência - e segui o aroma do café forte, aquele cheiro que não acorda apenas o corpo, mas também os pecados. A sala de pequeno...

Colocou as mãos no meu rosto com uma delicadeza quase científica, como quem estuda uma escultura rara.

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  Se o mundo nos lança desafios desmedidos, é porque desconhece a força tranquila de dois corações que aprenderam a esperar. Adormeci com esse pensamento - como quem guarda um segredo debaixo da língua - embalado pelo ritmo das marés invisíveis que nos movem mesmo quando fingimos estar imóveis. E despertei com o coração pronto para Crotone. O dia estava nublado, um pouco cinzento, desses que parecem ter sido lavados demasiadas vezes na máquina da rotina. Mas eu - teimoso, cromático, quase insolente - tinha pensamentos coloridos. Coloquei-me na vertical, numa coreografia pouco elegante, mas determinado, e senti o prazer da cascata de água invadir o meu corpo. A água desceu como um exército líquido, disciplinado e severo, despertando cada nervo adormecido. Há quem reze; eu tomo banho. É a minha forma mais honesta de redenção. Depois, o habitual das manhãs que nos sustentam: café forte, desse que entra na alma como um argumento irrefutável; pão quente e estaladiço, quebrando-se ...