A juventude que não vê e a velhice que não é vista…
Despertei em Catânia com a estranha sensação de que o mundo me tinha enviado uma notificação urgente: “Levanta-te. Hoje é dia de acontecer.” O banho foi rápido, quase ritualístico - água a escorrer como se me lavasse não apenas o corpo, mas as hesitações. O pequeno-almoço foi devorado com a sofreguidão de quem sabe que o universo não espera por indecisos. Café forte, pão ainda morno, manteiga que se rendia ao calor. Foi tudo tão rápido. Tão perigosamente vivo. Era o penúltimo dia na companhia de Nicole e da sua avó Claire. Desde Lecce que lhes dava boleia, cúmplice improvável daquela viagem que as levaria até Marsala, onde uma amiga as aguardava para uns dias de descanso. Nicole - francesa, deficiente visual - via o mundo de uma forma que me desarmava. Talvez porque via o que os meus olhos distraídos ignoravam. Já estavam na sala de pequenos-almoços à minha espera. “Hoje adormeceste. Se deixaste a mala aberta, foi por uma boa causa. A tua concha precisa de respirar” - ...