Que doença teria moldado esta mulher e tornado cada gesto tão intensamente vivo?
Quando
abri os olhos em Zagreb, a luz entrava oblíqua pelas cortinas como se a cidade
me espreitasse em segredo. Olhei para o relógio e pensei, com um sorriso
cansado: perdi o jantar e o pequeno-almoço. O cansaço do dia anterior não me
adormeceu - raptou-me. Imobilizou-me durante horas, como se o corpo tivesse
decidido ficar para trás enquanto a alma vagueava algures entre fronteiras.
Saltei
da cama com a fome certa, aquela que não é urgência, é apetite. E,
curiosamente, senti-me rejuvenescido, como se o descanso tivesse polido os
ossos. Um banho fresco, impregnado do aroma limpo e ligeiramente doce dos
amenities, trouxe-me de volta ao corpo. Vesti-me, coloquei a mochila às costas
e desci.
Passei
pela receção… e parei. Os meus olhos encontraram os de Katarina, e o mundo
suspendeu a respiração. Fiquei em silêncio - não por timidez, mas por
insuficiência de palavras. Na verdade, ela não era uma mulher. Era uma
paisagem. Talvez um pôr do sol a acontecer dentro de um olhar. No intervalo das
palavras não ditas, ela sorriu e disse: “Bom dia, Maurício. Perdeu alguma
coisa?” Foi o suficiente para me acordar por inteiro. “Perdi o jantar, o
pequeno-almoço… mas ganhei uma nova energia e um novo horizonte que não se
contempla todos os dias. Agora só preciso de um restaurante. De preferência um
que não exija muita caminhada.”
Afável,
com um sorriso luminoso, pegou no telefone. “Para uma reserva por favor. É para
um amigo, que não come há muitas horas. Gostava que não lhe faltasse nada.” Pousou
o telefone, piscou-me o olho, entregou-me um mapa da cidade com o restaurante
assinalado e murmurou, com uma voz suave, quase filtrada: “Vais recuperar.” “Vou
rezar para que me indiques logo outro… para jantar com companhia.” Ela inclinou
ligeiramente a cabeça. “Tens de jantar
mais tarde. Só saio às 21h. “Sou paciente e resiliente quando a vontade supera
o esforço.” Sorriu como quem guarda uma promessa.
Enquanto
caminhava em direção ao restaurante, o meu olhar rodopiava em torno da beleza
discreta e orgulhosa de Zagreb. As ruas misturavam pedra antiga e passos
modernos. Prédios de fachadas pastel guardavam varandas de ferro rendilhado,
como memórias que se recusam a cair. Pessoas passavam com um ritmo calmo, mas
decidido - Zagreb não corre, avança. Havia elétricos azuis a cortar a cidade
como frases sublinhadas, cafés onde o tempo se sentava à mesa, e igrejas que
pareciam cochichar histórias apenas a quem anda devagar. A cidade tinha um
perfume de história, café acabado de fazer e mistério bem guardado.
O
restaurante ficava perto, como prometido. Pequeno, acolhedor, com madeira e luz
quente. Fui recebido como um amigo de longa data. O dono apertou-me a mão com
convicção, chamou-me pelo nome depois de o ouvir uma única vez, e sentou-me
como se aquela mesa estivesse à minha espera há anos. O almoço foi um ritual:
sabores profundos, honestos, um vinho tinto que falava baixo, mas dizia
verdades, uma sobremesa que me fez esquecer que o tempo existe. O staff
tratou-me com um carinho raro, desses que não se treinam. No final, o dono
abraçou-me. “Manda um abraço à Katarina.”
“Não pode ser um abraço e um beijo?” Ele riu. “Isso fica por tua conta. Como
der mais jeito.”
Depois
do almoço, fui à descoberta. Zagreb revelou-se em camadas: a Cidade Alta com
as suas escadas que rangem histórias, a Igreja de São Marcos com o telhado
colorido como um código secreto, a Porta de Pedra onde desejos sussurrados
sobrevivem a incêndios e guerras. Caminhei por túneis que já esconderam gente e
agora escondem silêncio. Praças onde cada banco sabe mais do que aparenta.
Dizem que Zagreb tem segredos que só se contam a quem não pergunta - e
senti-os. Mistérios profundos, enterrados nas pedras, nas sombras, no vento que
passa e não explica.
Antes
que a noite caísse, regressei ao hotel. No quarto, encontrei um bilhete de
Katarina: “Consegui sair mais cedo. Vou-me arranjar e venho buscar-te às 20h.”
- pensei: simpática. Poupou-me uma hora de espera… e aquela caminhada tinha
aberto o apetite. Desci à receção. Olhei em volta. Não a reconheci. Ao longe,
alguém acenava. E eu não queria acreditar.
Katarina
estava transformada. A roupa formal e o cabelo apanhado tinham ficado no turno.
Agora vestia liberdade: t-shirt preta, calças de ganga rompidas, ténis brancos
marcados pelo uso. O cabelo solto, rebelde. Ao pescoço, como cereja no topo do
bolo, um lenço com a bandeira da Croácia. “Vamos ver algum jogo da seleção?” —
perguntei, meio a sério, meio rendido. “Não. Vamos jantar a um restaurante
simples. E depois… vamos fazer o que eu mais gosto - dançar?”
O
restaurante era simples, mas verdadeiro. O vinho tinto aproximou as palavras, a
sobremesa dissolveu as defesas. Falámos de nós, dos nossos países, de pertença
e de fuga. Havia nela uma alegria intensa, quase urgente - como quem celebra
cada instante com gratidão afiada. Nunca me contou da doença. Apenas senti. Um desejo
de um momento liberto, de um corpo que dança contra o tempo, de uma alma que já
conheceu limites demais.
A
Croácia não se revela: ela se insinua. É um país de curvas, de relevos que
parecem ter sido esculpidos por dedos antigos e pacientes, como se a própria
Terra tivesse decidido brincar de arte. No interior, as montanhas balcânicas
erguem-se com ares de mistério - ásperas, dramáticas, sedutoras - enquanto
escondem segredos em cavernas e dolinas cársticas, verdadeiros sussurros
subterrâneos que convidam à aventura e à perda voluntária do rumo.
Já
o litoral… ah, o litoral sabe seduzir. Estende-se amplo, luminoso,
mediterrâneo, como um corpo que se oferece ao sol sem pudor. O clima ali é
quente, húmido, quase íntimo, enquanto o interior continental prefere
contrastes: invernos mais frios, verões de personalidade forte, uma amplitude
térmica que parece refletir o temperamento croata - contido por fora, intenso
por dentro.
A
vegetação acompanha esse jogo de contrastes com elegância natural. À beira do
mar, espécies mediterrâneas dançam com o vento salgado; no interior, florestas
temperadas se impõem com árvores frondosas e antigas, guardiãs silenciosas de
histórias que ninguém mais lembra, mas que ainda se sentem na pele. A água
surge em lagos pequenos e dispersos, como pensamentos distraídos, enquanto os
rios Sava e Drava cortam o território com a tranquilidade de quem sabe
exatamente para onde vai.
Pouco
populosa, a Croácia parece gostar de espaço - talvez para ouvir melhor o eco do
passado. Zagreb, Split e Rijeka concentram vozes, passos e sonhos urbanos,
enquanto o campo, mais silencioso, enfrenta o despovoamento e o envelhecimento,
consequência de uma juventude que migra, levando consigo saudade e malas cheias
de futuros incertos rumo à Europa Ocidental.
Ainda
assim, os croatas vivem razoavelmente bem. A economia, embora pequena, dança
com agilidade ao ritmo europeu, agora marcada pelo tilintar do euro. O setor de
serviços reina absoluto, e o turismo - vaidoso, fotogênico e irresistível - é o
grande protagonista. Praias que parecem promessas, lagos que refletem o céu
como espelhos mágicos, cidades medievais que parecem ter parado no tempo só
para provocar o visitante: “fica mais um pouco”.
No
campo, crescem grãos, uvas e frutas de clima ameno, matéria-prima para vinhos
que falam baixo, mas dizem muito. Há petróleo, gás, indústrias têxteis, químicas,
navais e alimentícias - uma diversidade discreta, porém eficiente, quase
sarcástica em sua competência silenciosa.
Culturalmente,
a Croácia carrega a alma eslava do sul da Europa com orgulho e leve ironia. É
maioritariamente croata, sim, mas deixa escapar influências sérvias e bósnias,
como temperos secretos numa receita antiga. A língua e o cristianismo unem, as
festas religiosas celebram, as músicas folclóricas embalam, e a culinária seduz
com vinhos, chás, grãos e frutos do mar - porque ninguém vive só de poesia,
embora ela ajude.
No
desporto, o futebol é quase religião paralela. A Copa de 2018 ainda pulsa no
coração do país como um sonho vívido, um vice-campeonato que soou mais como
vitória moral do que derrota. E, entre uma partida e outra, pode-se visitar Hum,
a menor cidade do mundo, pequena o suficiente para caber inteira num suspiro.
A
Dalmácia presenteou o mundo com cães elegantes e manchados - os dálmatas - e a
Croácia, com seu pão de gengibre, doce, aromático e oficialmente imortalizado
como patrimônio imaterial. Porque aqui até o pão tem memória.
A
Croácia é assim: montanhosa e suave, antiga e vibrante, racional e mágica. Um
país que ri com sarcasmo discreto, ama com intensidade contida e convida o
viajante a se perder de propósito. E, sinceramente? Vale cada desvio.
No
bar, a música tomou conta de nós. Dançámos sem coreografia, com riso, com
proximidade, com aquela sensualidade que não pede permissão. Foi alegria pura,
com um humor sarcástico a piscar o olho ao destino.
https://www.youtube.com/watch?v=pj5J439g5iI&list=RDGMEM2VCIgaiSqOfVzBAjPJm-ag&index=15
Quando
regressei ao hotel, coloquei os fones e deixei que a música prolongasse o feitiço.
Adormeci assim, embalado. Não poderia pedir mais. No meio desta envolvência
mágica, prendi apenas uma curiosidade - aguçada, respeitosa, quase terna: que
doença teria moldado esta mulher e tornado cada gesto tão intensamente vivo?
Zagreb não respondeu. Mas sorriu.
Diário de uma viagem – 95 dia – 28/09/2025








Um sorriso enigmático. Mas de Katarina!
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