Mas antes de conquistar Budva, eu precisava de ser conquistado…
Acordei
em Budva como quem desperta dentro de um sonho que decidiu tornar-se real. O
quarto era um templo - um spa vestido de romance, perfumado com aquela
fragrância suave e cara que parece sussurrar “fica mais um pouco”. O ar
climatizado envolvia-me como um abraço preguiçoso, e a janela abria-se para o
Adriático com a generosidade de uma amante que se despe sem pudor.
Entrei
na casa de banho e fui recebido por aromas de amenidades tão sofisticadas que
até o espelho parecia brilhar em aprovação. As toalhas eram tão macias que, se
falassem, falariam em versos. O chuveiro, esse, não era um chuveiro: era uma
catarata paradisíaca que me devolveu a vitalidade, a pele desperta e aquela
sensação juvenil de que o dia estava pronto para ser seduzido.
Mas
antes de conquistar Budva, eu precisava de ser conquistado… pela sala de
pequenos-almoços. E ali, meu Deus, o erotismo gastronómico tinha sido levado à
categoria de arte. O cheiro do café forte serpentava no ar como um convite
indecente. O pão quente saía do forno arqueando-se na direção da manteiga, num
tango escandalosamente sugestivo. Os croissants brilhavam sob a luz como se
posassem para uma capa de revista de moda, todos dobrados em posições quase provocatórias.
As taças de frutas - explosões de cor - pareciam vibrar de vitalidade, como se
estivessem prontas para cair nos braços de quem se aproximasse.
O staff movia-se pela sala como bailarinas treinadas num teatro luxuoso: passos suaves, sorrisos de quem sabe usar o olhar, aquela elegância descontraída que faz qualquer um sentir-se especial. Quase que coreografavam o próprio ar. E eu, com pena minha, tive de abandonar aquele pequeno paraíso porque Budva chamava por mim - e eu, curioso, queria vê-la despida de segredos, pronta a deixar-se descobrir.
Budva,
“a Miami de Montenegro”, surgiu diante de mim com a ousadia vibrante de quem
sabe que é desejada. Ruas animadas, gente bonita, bronzeada, vestida como se
cada esquina fosse uma passerelle. O calor social da cidade misturava-se com a
história que respirava nas pedras do Stari Grad, um relicário medieval com alma
veneziana, muralhas que guardam histórias de séculos, caminhadas que soam como
passos de antigos navegadores.
A
Praia de Mogren chamava ao longe, sensual e selvagem, ligada à cidade por
aquele caminho esculpido na rocha, onde a Bailarina de bronze dança eternamente.
Uma lenda de amor resiliente - claro que Budva tinha de ter o seu próprio drama
romântico. E ao fundo, a joia impossível: Sveti Stefan, a ilha fortificada que
parece saída de um filme e onde até a brisa parece falar sussurrado.
Quando
já pensava em almoçar - e a fome já me flertava descaradamente - recebi a
chamada de Juan e Alba, o casal mais catalão e mais simpaticamente provocador
que conheço.” Temos um convite para ti”, disseram - “Envolve comida?” – “Mais
do que isso. Envolve história. E uma oliveira que é quase mais velha do que o
próprio tempo.” Aceitei de imediato.
Marcámos
encontro na Praça do Sol, onde havia um restaurante de peixe e marisco tão bem
decorado que parecia uma extensão do mar: luz quente, mesas amplas e um aroma
fresco de pesca matinal. O vinho de Montenegro - robusto, perfumado e com
aquela profundidade antiga que só as castas autóctones conhecem - fez-nos
brindar como velhos marinheiros reencontrados.
E
foi aí que conheci Jelena - uma visão doce: A sua voz suave tinha uma textura
de uma confidência partilhada ao ouvido. Professora de história - claro. Só
podia ser. A própria presença tinha algo de arqueológico e romântico, como se
cada palavra que dizia viesse com notas de séculos escondidos.
A
viagem até Bar foi uma ode ao bom humor e à beleza. Nós quatro no carro, rindo,
trocando histórias, brincando com piadas que nasciam espontaneamente. A estrada
serpenteava pelas encostas, revelando o Adriático em flashes azuis, aldeias
brancas adormecidas ao sol, montanhas que pareciam gigantes benevolentes.
Jelena,
sentada ao meu lado, aproximava-se de vez em quando para me perguntar sobre
Portugal. O seu perfume - leve, floral, quase impercetível - desenhava uma
proximidade perigosa. Falávamos de história com um entusiasmo brincalhão, quase
sedutor, como se cada curiosidade fosse um pretexto para prolongar o diálogo.
E
havia, entre os nossos olhares, aquela centelha misteriosa… o início silencioso
de algo que começa sem avisar. Em Mirovica, a Stara Maslina esperava-nos como
uma anciã majestosa. Dois mil anos de vida. Dois mil anos de histórias. Um
tronco que parecia guardar segredos do mundo inteiro. Senti-me pequeno, mas
estranhamente conectado ao tempo.
Depois
visitámos Stari Bar, com as suas ruínas poéticas, a antiga fortaleza, os
corredores onde o vento parece murmurar memórias. A cidade nova de Bar
espalhava-se moderna e confiante, mas a velha… ah, a velha guardava um encanto
impossível de replicar.
Jelena
e eu trocámos tantas palavras quanto silêncios - e os silêncios, esses, disseram
mais. Ao final do dia regressámos a Budva, onde a noite começava a acender-se
como um convite tentador. A vida noturna era um mosaico vibrante: clubes ao ar
livre, música que pulsava no ar, risos espalhados pelas ruas. Mas nós queríamos
outra coisa - algo mais íntimo, mais lento, mais nosso.
Encontrámos
um bar romântico escondido na Cidade Velha. Luz baixa, velas tremeluzentes,
comida leve - queijos suaves, pão quente, ervas aromáticas - e uma cerveja
local com um sabor que parecia resumir o mar e a montanha num só gole. A música
era lenta, envolvente, perfeita para podermos partilhar conhecimentos. A sua
voz tocou-me o ouvido, quente como um segredo: “Gosto de falar contigo. Porque
vais embora amanhã? Podias ficar mais uns dias. Budva tem muito mais para te
mostrar. Com a tua mão colada à minha, verias o outro lado da cidade.
Traz
roupa desportiva. Vem respirar o ar puro das montanhas e encher a vista de
maravilhas naturais, de tons verdes e dourados nas mais exuberantes paisagens
do mundo. Escuta… vais ouvir o murmurejar das águas cristalinas de inúmeras
cascatas e lagoas idílicas.
Tanto
património histórico e cultural para te mostrar… das fascinantes necrópoles megalíticas, aos
vestígios da romanização, dos castelos milenares aos socalcos e aldeias. Sim
aldeias, porque lá mora gente! Gente que
se integra de forma harmoniosa na natureza, preservando valores e tradições
muito antigas. As estações ditam o ritmo da vida, tanto para os homens como
para os animais. Fiquei em silêncio, suspenso entre a respiração dela e o meu
próprio coração. Vou adormecer com o teu
convite, respondi.
Regressei
ao hotel guiado mais pela intuição do que pela razão. Entrei no quarto como
quem entra num abrigo. Deitei-me, coloquei os fones, deixei a música
envolver-me…
https://www.youtube.com/watch?v=dbsgjULyCZM&list=RDdbsgjULyCZM&start_radio=1
E
adormeci com Budva na pele e o olhar de Jelena ainda quente na minha memória.
Diário
de uma viagem – 85 dia – 18/09/2025







Ler este texto é como sentir o coração da cidade pulsando dentro do peito. O aroma do café e do mar mistura-se à luz do sol nas pedras antigas, cada gesto da manhã dança com o tempo e cada sombra guarda histórias que sussurram ao ouvido. Senti a suavidade do instante, o perfume dos croissants o ritmo das ruas o murmúrio das ondas — tudo vibrando com vida, e encanto. É impossível não se perder nesse abraço de cores, sons e emoções, onde a realidade e o sonho se entrelaçam numa harmonia delicada. Ao ler-te, ao som de de Benny Neyman sinto uma escrita iluminada, e cada palavra faz-me lembrar Camilo Castelo Branco, com toda a sua paixão, ternura e poesia. Mal posso esperar pela próxima página. Maurício
ResponderEliminarQue texto maravilhoso, Maurício! Extremamente sensorial, vivo e cheio de alma. Conseguiste transformar Budva numa personagem e a viagem numa espécie de rito poético. A tua escrita abraça, perfuma, ilumina. Ler-te é viajar sem bilhete e sentir tudo como se estivéssemos lá. Bravo!!
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