Comecei a costurar os truques que inflaciona a inflação!
Estava
com poucas horas de sono quando despertei em Escópia, como quem regressa do
fundo de um sonho. Jana, essa tempestade de doçura, cabelo
desalinhado e risos que estremecem a noite - tinha-me roubado horas de descanso numa longa conversa num club de Jazz. A manhã já ia avançada, meio ensonada como eu, quando a luz entrou
pelas cortinas e me empurrou para a realidade: havia estrada pela frente, uma
viagem até à cidade de Pristina, no Kosovo.
A
cama tinha íman, e um íman perverso. Só um banho gelado conseguiu arrancar-me
as pestanas coladas ao mundo dos sonhos. Depois, o pequeno-almoço - curto no
tempo, mas cheio na alma. O pão fresco, quentinho, derretendo a manteiga,
serviu-me de transição suave para a lucidez. Eu também me derreti um pouco
quando me despedi da Jana, num até já precipitado, quase distraído, mas tão
cheio de tudo o que a noite tinha deixado impregnado na pele.
Valeu-me
a emoção da viagem, esse combustível secreto. O carro estava limpo, arrumado,
perfumado como um convite inesperado; a música harmoniosa elevava o astral, e
eu senti-me invencível, quase cinematográfico, como se a minha vida tivesse
ganhado uma aura colorida e vibrante.
A
estrada abriu-se diante de mim como um lençol estendido ao vento. As colinas
ondulavam em verdes jovens, salpicadas de amarelos e terracotas tímidos. O céu
trazia nuvens preguiçosas, pinceladas brancas a deslizar sobre o azul. A
natureza esticava-se em vales largos, em campos cultivados, em árvores
solitárias que pareciam levantar o braço para me acenar. O ar tinha uma
transparência fresca, quase infantil. Assim segui até Lipjan, onde parei para
almoçar.
O
restaurante era um achado: paredes em pedra clara, mesas de madeira polida e
toalhas discretas, com aquele charme de quem não precisa de exageros para
ganhar um coração viajante. Situado junto a uma pequena praça tranquila,
deixava entrar a luz como se fosse parte do seu menu. Pedi carne grelhada - suculenta,
perfumada pelo carvão - e vinho tinto do Kosovo, robusto como quem sabe de onde
vem e para onde quer ir. Sim, o Kosovo produz vinho. E produz bem. O clima, esse
cúmplice silencioso, dá uvas doces, tinta profunda, aromas firmes. A cada gole,
o país parecia sussurrar: estamos a crescer, olha para nós.
Depois
do almoço, caminhei pela cidade numa curiosidade infantil, sedento de descobrir
o que ela tinha para me mostrar. Lipjan - pequena, histórica, marcada por ecos
da antiguidade romana - desvendou-se aos poucos: as ruínas discretas, as
igrejas antigas que guardam silêncio há séculos, o mercado onde mãos albanesas,
sérvias, turcas e bósnias se misturam no vai-e-vem das frutas, dos tecidos, das
conversas. As pessoas, maioritariamente albanesas, caminhavam com um ritmo
próprio, olhos vivos, passos firmes. Havia crianças a correr, velhos parados a
observar a vida, mulheres a vender pão e mel, homens a discutir política como
quem comenta o tempo.
Mas
o Kosovo não é um paraíso - e talvez por isso seja tão verdadeiro. Há tensões,
há feridas, há cicatrizes que ainda não cicatrizaram totalmente. Entre a
maioria albanesa e a minoria sérvia há histórias difíceis, fronteiras invisíveis,
e o país vive numa corda bamba entre o orgulho e o cansaço. A inflação supera
5%, o desemprego grita, a política tropeça em si própria. E, no entanto, há
esperança. Há juventude. Há música. Há um sorriso que resiste. A adesão à União
Europeia ainda é promessa distante, mas palpável. E caminhar por aquelas ruas era
uma aula viva do mundo real - onde nada é perfeito, mas tudo é profundamente
humano menos a inflação que todos os dias diminui os ordenados e aumentam as
despesas das famílias.
Pensando
bem neste fenómeno, comecei a costurar os truques que inflaciona a inflação! Não
podemos permanecer no normal, porque o normal é exatamente o problema.
Precisamos de ficar diferentes, menos vaidosos, menos egoístas, menos
consumistas, menos materialistas, mas sobretudo mais justos e com capacidade de
reduzir a desigualdade para gerar oportunidades.
A
grande ilusão desvanece com esta subida desordenados dos preços, não dos carros
topo de gama nem das roupas de marca, mas de bens indispensáveis à vida. Que desilusão!
Como a política é tão preguiçosa e perniciosa, que permite que a inflação se
transforme numa enorme desumanização, contribuindo para que, cada vez mais,
existam muitos a ganharem pouco para sustentarem os poucos que ganham muito.
Eu
já não acredito naquilo que me dizem, mas naquilo que os meus olhos assistem
todos os dias, porque a mentira não aumenta o nariz, mas diminui a confiança. Há
um desconhecimento profundo na forma como se formam os preços e os
desequilíbrios que sofrem entre o esmagamento na origem ao preço colocado na
prateleira e, em muitos casos, continua a subir até ao registo na caixa.
Com
a cabeça cheia de paisagens sociais e económicas, voltei à estrada rumo a
Pristina. O sol brilhava com força, sem uma gota de timidez; o clima do Kosovo,
continental e firme, deixava o ar seco, quente, quase vibrante. A natureza continuava
a correr ao meu lado - campos largos, montanhas ao longe, rios estreitos - e
lembrei-me de que este é um país sem mar. Talvez seja por isso que as pessoas
aqui olham tanto para a frente: falta-lhes o horizonte azul, e então inventam
horizontes próprios.
Pristina
recebeu-me com o sol quase a adormecer. O Swiss Diamond Hotel surgiu diante de
mim como uma miragem luxuosa no centro da cidade, perto do rio Prishtevka. O interior
era uma fusão de estilo imperial com modernidade elegante, polido, dourado,
cheiro a perfume fino e notas de piano imaginário. A receção brindou-me com
sorrisos largos, daqueles que aquecem a alma sem pedir licença. Os kosovares
sabem receber - sabem mesmo. Trataram-me pelo nome, ajudaram-me a orientar-me
na cidade e recomendaram-me um restaurante para jantar, com aquele entusiasmo
que só se vê em povos que fazem da hospitalidade um traço cultural.
No
mesmo hotel estava hospedada uma equipa de futebol. No autocarro, o slogan: "Desporto com ética e verdade". Uma pancada no peito - daquelas boas, que acordam
memórias antigas de fair play esquecido.
O
restaurante recomendado ficava numa rua discreta, iluminada por lâmpadas
amareladas. Lá dentro, pedi carne grelhada com vegetais, acompanhada por vinho
branco do Kosovo - fresco, claro, aromático - que descia pela garganta como uma
pequena bênção. Depois, fiquei a pensar no slogan no autocarro da equipa de
futebol: realmente praticar desporto com ética e verdade todos o víamos como
uma modalidade saudável e educativa.
Existem
casos notáveis de jogadores que demonstraram fair play e admitiram ao árbitro
que foram eles que cometeram a falta ou que não sofreram uma falta, mesmo
quando a decisão inicial do árbitro os beneficiava. Um dos exemplos mais
conhecidos envolve o avançado alemão Miroslav Klose, em 2005, durante um jogo
da Bundesliga.
O
exemplo notável, frequentemente recordado no contexto do futebol português, é o
do antigo jogador Tarantini, que representou o Rio Ave durante muitos anos. Era
conhecido pela sua ética desportiva e, numa ocasião específica, admitiu a um
árbitro que não tinha sido penálti a seu favor, levando à reversão da decisão.
Embora não seja comum, infelizmente, estes gestos de honestidade e
desportivismo são geralmente muito elogiados, apesar de, por vezes, poderem ir
contra os interesses imediatos da equipa do jogador. Mas ficam na história como
exemplos de honestidade e fair play.
Em
Portugal, nos jogos transmitidos pela televisão, para milhões de
telespectadores, é frequente ver jogadores burlarem os árbitros, imagens
repetidas que indignam os defensores da verdade, mas glorificadas por adeptos
obstinados onde o desporto ultrapassa a beleza de jogar com fair play dentro
das quatro linhas.
Depois
do jantar, caminhei até ao bar do hotel, curioso por provar uma bebida especial
da região. E apresentaram-me o raki i rrushit, forte, perfumado, abrindo
caminho no peito como um animal selvagem que sabe ser doce. O bar tinha luz
baixa, música suave, sofás amplos, e um staff tão simpático que parecia ter
sido escolhido a dedo para nos fazer acreditar que o mundo é um lugar fácil.
Ao
meu lado, um casal ligado à equipa de futebol. E, porque a minha sociabilidade
gosta de brincar comigo, felicitei-os pelo slogan. Acabámos os três sentados, a
partilhar bebidas e histórias, a comparar países, sonhos, derrotas e vitórias.
A noite tinha o cheiro bom das conversas que não pedem nada em troca.
Já
no quarto, abri a mala. Lá estava a minha concha - a companheira que carrego,
talvez símbolo, talvez memória, talvez amuleto ou talvez não. Brilhava como se
também quisesse falar sobre o amor e as suas voltas, as suas promessas, os seus
tropeços, os seus desencantos que às vezes nos salvam de nós mesmos.
https://www.youtube.com/watch?v=9gguJ5JLyDo&list=RD9gguJ5JLyDo&start_radio=1
Coloquei
os fones. A música enlaçou-me como um cobertor morno. Deixei-me adormecer,
pronto para renascer à descoberta de Pristina na manhã seguinte.
Diário
de uma viagem – 82 dia – 15/09/2025


O teu texto tem a alma vigilante de Torga — essa forma de transformar estrada em revelação e gesto simples em verdade humana. E a concha no fim, discreta e luminosa, é um sopro de poesia que permanece. Ler-te é um privilégio.
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