São as vontades e não as intenções que movem o mundo!

 


Tirana de madrugada era uma respiração suspensa. Uma mulher de olhar magnético, calma na superfície, mas com um vulcão de intenções por dentro - daquelas que sabem exatamente o que querem e não precisam levantar a voz para dominar a sala. Espreitei pela janela e a cidade devolveu-me um murmúrio tímido: ruas quase vazias, sombras longas, passos incertos. O silêncio, tão frágil, começava a ceder à liturgia do quotidiano - o carro de limpeza que cantava ao longe, portas de cafés a entreabrir-se como pálpebras de um gigante adormecido. Tudo ali era promessa. O instante antes do caos. A pausa que antecede o dia, quando a história complexa da Albânia ancora à modernidade e tenta, a custo, seguir em frente.

O aroma do pequeno-almoço puxou-me com a delicadeza de uma mão quente no pulso. Na sala colorida como um postal vivo, dançava o cheiro do pão acabado de cozer, do café forte e dos citrinos recém-coroados. E depois havia as pessoas - bonitas, bem vestidas, de uma elegância espontânea que parecia coreografada. Passeavam-se como modelos numa passerelle invisível, cada qual com o seu estilo, tecidos a ondular, perfumes a cruzar-se no ar como trilhas sensuais de fumo dourado. Era quase uma festa silenciosa. E eu ali, entre garfadas, a pensar que o mundo devia começar todas as manhãs assim: com beleza, cor e um certo exagero cinematográfico.

Terminado o ritual, malas no carro, música agradável, boa disposição - e lá fui eu, outra vez aprendiz do mundo, em direção a Escópia. A estrada era um poema em serpentina. Montes que se debruçavam uns sobre os outros como amantes antigos, casas espalhadas pelas encostas com o desalinho encantador de quem não quer impressionar ninguém. Gente simples à porta, a sorrir sem pressa. O céu, esse, fazia-se de um azul que só os Balcãs parecem guardar na gaveta. Entre curvas e contracurvas, rimo-nos eu e a estrada, cúmplices nessa aventura que sabia a promessa.

Cheguei a Debar, já na Macedónia, com o estômago a reclamar diplomacia. O restaurante era simpático, de mesas robustas, travessas fumegantes e música macedónia ao vivo - uma alegria indomesticável que parecia nascer da madeira do chão. Pedi carne grelhada, cerveja fresca, e deixei-me ficar. Aquilo era mais que um almoço; era um ritual ancestral, uma celebração do território, dos sabores, da vida que insiste em ser plena mesmo nos lugares mais escondidos do mapa.



Depois, caminhei um pouco pela cidade: termas medicinais, recantos antigos, um ou outro detalhe que me sussurrava histórias. E reparei no que já sabia - que ali, como em tantos lugares, a crença no invisível coexistia com a lógica do dia-a-dia. Magia, mau-olhado, videntes, curandeiros… Histórias contadas com a seriedade de quem viu coisas. E, no entanto, o outro lado também existe: o charlatanismo, o engano, a exploração de quem está frágil. Não é um problema dos Balcãs - é do mundo inteiro. Em Portugal, também o conhecemos bem; basta abrir redes sociais para tropeçar em “profetas” com tarifas promocionais. A verdade científica é mais austera: ninguém jamais conseguiu provar capacidades paranormais sob exame rigoroso. James Randi até ofereceu um milhão de dólares - e o dinheiro continua no cofre. A fé divide-se entre o desejo de acreditar e o realismo que nos puxa o tapete. E lá seguimos todos, entre o sagrado e o cético, como quem joga às escondidas com o destino. Entretanto… sexta-feira 13 continua a ser celebrada como dia de bruxas e gatos pretos em boa parte de Portugal. Ironia do costume.

Eu sustento a ideia que azar ou sorte só existe na nossa imaginação. Pode ser sorte se tiveres o coração do lado certo, amor para dar, coragem para fazer acontecer. Sorte ou azar, não é nada mais nem menos que uma variação da coincidência; a oportunidade passa à porta de cada um, depende da capacidade de aproveitar ou não; se estiveres atento é "sorte", se estiveres distraído é "azar". É simples! São as vontades e não as intenções que movem o mundo.

Afinal somos os nossos erros e acertos, somos a nossa sorte e azar, somos a nossa causa da tristeza e alegria, somos a nossa esperança e ceticismo, somos a nossa importância e trivialidade, somos mais do que podemos acreditar, somos a linha o fim da linha e o começo dela. Afinal 13 é apenas um número! Foi no dia 13 aparição da Nossa Senhora de Fátima aos 3 pastorinhos, foi no dia 13 abolição da escravatura no Brasil, é no dia 13 que muita gente se apaixona. E a sexta-feira das bruxas e dos gatos pretos?  Não passa de um dia de semana que antecede a sábado, final de semana…

A viagem continuou por montanhas de cortar a respiração - curvas que desenhavam no horizonte uma caligrafia de deuses, rios que serpenteavam com a elegância de dançarinos, penhascos que pareciam suspensos por feitiço. Um trajeto paradisíaco, desses que nos fazem mudar o humor, a postura e até o idioma da alma.

Escópia recebeu-me com o sol a desaparecer atrás dos prédios - uma cidade em contraluz. Arquitetura socialista ao lado de neoclássicos recentes, bairros que parecem cenários de filmes diferentes colados numa só película. A Ponte de Pedra, imponente, como um guardião antigo. E a lembrança de Madre Teresa, que nasceu ali, espalhada em painéis e memórias. Tudo reconstruído após o terramoto de 1963, tudo misturado, tudo meio confuso - e, portanto, absolutamente único.

O hotel enganava à primeira vista. Por fora, um suspiro cansado; por dentro, um oásis. Aroma leve de flores cítricas, decoração elegante, staff tão bonito que parecia saído de um casting para Hollywood - mas com sorrisos verdadeiros, daqueles que não se treinam. Receberam-me com uma bebida fresca da casa, um néctar translúcido de flor de sabugueiro, limão e gelo picado, tão aromático que quase hipnotizava. E eu, claro, a perguntar-me se havia ali alguém não elegante. Pelo visto, não.

A suite era um abraço: temperatura perfeita, luz suave, cama ampla, tecidos agradáveis ao toque - um ninho para qualquer viajante cansado. Troquei de roupa e fui jantar junto ao rio Vardar, como me recomendara a rececionista Jana, é assim que se lia no crachá: baixa de estatura, com sardas no rosto e olhos verdes, com um espanhol impecável e a rara habilidade de pronunciar o meu nome na segunda tentativa.

O jantar foi sublime. Depois, terminei a noite num bar de jazz, com uma bebida gelada na mão, aquela espuma viva que parecia respirar como um animal pequeno e indomável. A música misturava-se com os meus pensamentos, e eu conversava comigo mesmo, em perfeita harmonia: nada para discordar, nada para resolver - só existir.

Regressei ao hotel embalado numa paz líquida. Quando abri a porta do quarto, lembrei-me da minha carta de amor engarrafada lançada ao mar em Constança - que anda por aí, a descobrir mares que talvez nem existam no mapa. Abri a mala e a concha que guarda os meus segredos brilhava discretamente, quase viva. Coloquei os fones, deixei a música entrar-me pela alma e adormeci com a serenidade de quem pertence ao mundo inteiro.

https://www.youtube.com/watch?v=Yl7eCkbbEVE&list=RDYl7eCkbbEVE&start_radio=1

Quando pousei o telemóvel, vibrou uma mensagem sem nome. “Nunca te sintas só. Estou sempre contigo nos textos que tens escrito no blog “Vamos conversar”. E a noite, como Tirana de madrugada, voltou a prender a respiração.

 

Diário de uma viagem – 80 dia – 13/09/2025

Comentários

  1. “Há nos teus textos uma maneira rara de transformar viagens em estados da alma — como se cada cidade revelasse um pedaço do mundo. Essa mistura de realidade, encanto e reflexão faz-me lembrar Miguel Torga no melhor sentido: o olhar atento, humano e inquieto. Fico à espera da próxima página, Maurício.

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  2. Que maravilha, Maurício. Há em cada texto teu o olhar atento de um "bon vivant" que sabe transformar o simples em sublime.
    És o poeta que encontra beleza onde outros passam distraídos, o viviajante que transforma
    paisagens em filosofia e o apaixonado pela vida que nos recorda que tudo, até um acaso, um gole de bebida ou um sorriso de rececionista, pode ser matéria de encantamento. É um privilégio poder ler-te!!

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