O meu pão torrado deixou-se seduzir pela manteiga derretida num romance tórrido!
Tirana
de madrugada era uma respiração suspensa. Calma como uma mulher que sabe o
poder que tem - e o usa apenas no silêncio. Espreitei pelas cortinas do quarto
como quem espia um segredo antigo: a cidade ainda estava escura, mas um ar
quente, quase aveludado, insinuava um dia agradável, talvez até cúmplice. Era
como se a Albânia, num gesto subtilmente sensual, me tocasse no rosto antes
mesmo de eu despertar totalmente.
Depois
de um banho fresco, com os meus amnisties perfumados a correrem pela pele como
memórias de verões antigos, dirigi-me à sala de pequenos-almoços do Rogner
Hotel Tirana. O espaço, com o seu brilho contido e elegância natural, ergueu-se
diante de mim como um oásis moderno - daqueles onde as tâmaras são substituídas
por vitaminas coloridas e os poetas, por turistas meio ensonados.
O
aroma dos ovos mexidos misturava-se com o perfume íntimo das frutas frescas,
enquanto o meu pão torrado se deixava seduzir pela manteiga derretida, num
romance tórrido e breve que só o pequeno-almoço permite. O staff - jovem, profissional,
quase coreográfico - movia-se com a eficiência de bailarinos treinados para
adivinhar desejos. Havia beleza naquela precisão.
E
eu… eu quase declararia oficialmente iniciado um dia perfeito, não fosse a
mensagem desagradável que me chegou logo cedo, como um balde de água fria
atirado por um espírito maldoso escondido atrás da primeira notificação do
telemóvel. Um golpe no humor, uma fratura na alma matinal. Mas, como sempre,
restabeleci-me - porque há dias que exigem resiliência e café – mas não deixei
de pensar que guardar rancor é como tomar um copo de veneno esperando que o
outro morra.
Finalmente
de mochila aos ombros, parti para a cidade. Tirana - vibrante, compacta, cheia
de pulsações discretas - não tenta competir com metrópoles arrogantes. Com os
seus cerca de 500 mil habitantes, segura-se com dignidade entre montanhas e
memórias difíceis. Não vi enxames de turistas; de facto, li algures que é uma
das capitais menos visitadas da Europa. Talvez por isso seja tão fascinante:
vive para si própria, não para os olhos alheios. A vida social fervilhava nas
ruas, convidando-me a entrar nesse palco urbano de cores intensas.
E
há uma particularidade quase surreal: durante o regime de Enver Hoxha, a
Albânia construiu mais de 170.000 bunkers - cicatrizes de betão, paranoia
materializada. Muitos transformaram-se em museus, bares ou cápsulas de arte. Um
dos mais icónicos: Bunk’Art, onde a história pesa e ressoa.
Caminhei
até à Praça Skanderbeg, centro luminoso da cidade, onde o herói nacional
ergue-se orgulhoso, vigiando a multidão com a paciência de quem já viu tudo. Ao
redor, explorei: Museu Nacional de História - com o seu mosaico colossal na
fachada, contando a saga albanesa com um dramatismo digno de cinema. Mesquita
Et’hem Bey - delicada, quase tímida, sobrevivente do passado que tentou calar a
fé. Torre do Relógio – silenciosa guardiã do tempo, marcando a pulsação da
cidade. Boulevard Dëshmorët e Kombit - amplo, quase solene, perfeito para
perceber como Tirana aprendeu a caminhar entre a memória comunista e a ambição
europeia. Casa das Folhas (House of Leaves) - museu do secretismo e espionagem,
onde o passado totalitário sussurra do chão às paredes. Piramida de Tirana -
outrora monumento a Hoxha, hoje reencarnação pós-moderna, grafitada, viva,
símbolo da reinvenção.
Segui
depois em direção ao Blloku, antigo bairro restrito aos dignitários comunistas,
agora repleto de cafés, bares e gente bonita a viver como se o passado fosse
apenas um rumor distante.
Aproximando-se
o meio-dia, entrei no Bunker 1944 Lounge, instalado dentro de um antigo bunker.
A porta parecia a entrada de um segredo proibido - mas lá dentro, a decoração
retro comunista abraçava o ambiente com humor involuntário: vermelho desbotado,
cartazes de propaganda, lâmpadas âmbar a darem ao espaço um ar de clube
clandestino.
Sentado
à mesa, pedi um prato tradicional: Fergese Tirane, cremosa, quente, com notas
sedutoras de pimento e queijo que se derretia como promessas murmuradas ao
ouvido. Acompanhei com um copo de vinho tinto albanês - surpreendentemente
elegante, com uma personalidade que os enólogos chamariam “robusta”, mas que eu
preferi descrever como “um abraço intenso que me agarrou pelos ombros”.
Enquanto
comia, sentia a cidade a entrar-me pela pele. Da tarde até ao cansaço - entre
lendas, memórias e comparações. Continuei a caminhar, deixando que Tirana me
contasse lendas pouco divulgadas: espíritos das montanhas, juramentos de
sangue, pactos de honra, histórias que sobrevivem em sussurros. E, como bom
português, comparei tudo com a minha terra.
Portugal
- mais seguro, mais estruturado, mais suave na forma como acolhe. A Albânia -
mais barata, mais crua, mais desafiante. Duas realidades que se olham como
primos afastados e pensam: “poderíamos ter sido mais parecidos, mas o destino
não quis”.
No
tema da corrupção e tráfico humano - flagelos do mundo atual - Portugal, embora
melhor posicionado, também tropeça; a Albânia, mais vulnerável, luta contra
males profundamente entranhados no tecido social. Dois países distintos, dois
combates desiguais, mas ambos com cicatrizes visíveis.
A
tarde avançava, e a fadiga começou a envelhecer-me os passos. Cheguei ao hotel
quase a arrastar a alma. A receção - enorme, luminosa, com ecos que se perdiam
no mármore - acolheu-me como um porto que sabe demasiado sobre marinheiros
cansados.
Foi
então que o vi. Alushi, dizia a lapela do casaco. Sorriso doce, olhos
brilhantes como se alimentassem da energia secreta das estrelas. Entregou-me o
cartão do quarto e disse, com a pronúncia encantadoramente torta o meu nome:
“Hum, Maurício. O melhor é jantar aqui, no aconchego do hotel.” E eu, rendido
ao cansaço, à voz, ao gesto, à humanidade inesperada… aceitei. Subi, tomei um
banho fresco e deitei-me uns minutos.
Uns
minutos… Que se transformaram numa noite inteira. Apaguei-me como uma vela soprada
por um deus preguiçoso. E não jantei - o que, se pensarmos bem, contribuiu
heroicamente para o meu emagrecimento, especialmente porque me impediu de
cometer o pecado mortal das sobremesas do hotel, que piscavam o olho a qualquer
transeunte mais fraco de espírito.
Acordei
apenas quando o sol entrou no quarto, luminoso e autoritário, lembrando-me que
tinha uma viagem para Escópia, Macedónia.
https://www.youtube.com/watch?v=KtlMLXvb03g&list=RDKtlMLXvb03g&start_radio=1
E
assim, com esta musica, terminou o meu dia: sem drama, sem jantar, sem culpa -
mas com menos calorias e mais histórias.
Diário
de uma viagem – 79 dia – 12/09/2025


Que texto inspirador, Maurício! Lê-se tudo com a sensação de que estamos a caminhar ao teu lado, a ouvir a Albânia a sussurrar-nos histórias antigas...
ResponderEliminarBelo, sensível e cinematográfico!
Continua a dar-nos estas viagens onde o corpo se cansa, mas a alma regressa sempre mais cheia. Adorei!