Honeymoon… nome que gritava romance até para quem viajava sozinho!
Despertei
em Atenas como quem acorda dentro de um poema antigo, escrito em mármore e
vento quente. A luz entrava pelas janelas do quarto com a mesma ousadia que os filósofos
tinham para discordar uns dos outros na ágora, e eu, ainda meio pendurado no
sono, arrastei-me até ao duche - um duche que parecia ter sido abençoado pelos
próprios deuses, daqueles que limpam corpo e alma ao mesmo tempo.
O
aroma das torradas barradas com manteiga derretida chamou-me como um canto de
sereia moderno, e o café forte prometia acordar até um oráculo cansado. Evitei
olhar para o computador. As notícias eram sempre as mesmas: uns acreditando que
salvariam o mundo com uma opinião num tom “didático”, outros a jurarem que
tinham a solução ideal para todos os problemas… desde que o mundo ouvisse,
claro.
Sinceramente,
pareciam-me primos afastados dos comentadores desportivos - esses sábios
iluminados que passam horas a explicar porque é que o clube do coração falhou
um passe, porque é que o treinador devia ter substituído o defesa esquerdo aos
17 minutos da segunda parte, e porque é que o avançado que nunca joga é,
obviamente, o melhor do plantel. Felizmente ou infelizmente só falam de três clubes,
O fenómeno é o mesmo na política nacional e internacional: previsões que nunca
se realizam, análises “imparciais” cheias de parcialidade, e um elenco fixo de
especialistas que conseguem errar 100% das previsões com 200% de confiança.
Cheguei
à sala do pequeno-almoço e, de repente, todos esses pensamentos nebulosos
evaporaram-se. A decoração, acolhedora como um abraço de mãe grega; as cores
vivas das frutas, prometendo vitaminas suficientes para reviver um espartano
caído; e os sorrisos luminosos do staff - tudo isso varreu a confusão do mundo
exterior. Por instantes, senti-me absolvido da obrigação moderna de compreender
o incompreensível.
Foi
então que uma voz suave, com olhos verdes embutidos no tom das palavras, disse:
“Good morning, Maurício.” Ah… aquilo foi mel. Mel quente. Mel sobre pão
estaladiço com manteiga derretida e um suspiro de sensualidade. Quando alguém
pronuncia o nosso nome com doçura, há sempre um pequeno deus dentro de nós que
desperta, ajeita o cabelo e faz pose.
E,
inexplicavelmente, o meu pensamento saltou para Constança, para a carta de amor
engarrafada que lancei ao mar. Onde andaria ela? Em que corrente viajaria?
Entre que corações teria passado, mesmo sem ser lida?
Sacudi
a nostalgia, fiz o check-out, arrumei as malas no carro e deixei Atenas no
retrovisor, ao som de um violino suave que parecia dedilhar a alma da cidade. O
sol brilhava com uma teimosia encantadora, e a estrada serpenteava tão perto do
mar que parecia que, a qualquer momento, as ondas iam pedir boleia. A viagem era
um filme em câmara lenta: azul profundo à direita, montanhas cheias de mitos à
esquerda, e eu no meio, entregue à beleza.
No
início da tarde, parei em Trípoli - capital da Arcádia, guardiã de montanhas,
histórias e um museu arqueológico que parecia chamar por mim. Mas antes, o
estômago falou mais alto. O restaurante onde entrei era uma antiga prisão,
mantida com uma ironia arquitetónica deliciosa. As paredes guardavam o passado
austero, mas as mesas exibiam pratos tão tentadores que qualquer condenado pediria
prisão perpétua só para continuar a comer ali.
O
almoço foi um desfile gastronómico: carnes variadas, macias como confissões
noturnas; um copo de vinho tinto da melhor vinha grega, denso e misterioso como
uma profecia antiga; e uma sobremesa tão celestial que eu quase pedi para ser
canonizado no momento.
Depois
caminhei até ao Museu Arqueológico de Trípoli, onde o silêncio tinha peso de
séculos. Vasos pintados com cenas mitológicas, esculturas fragmentadas, mas
eternas, peças de bronze que ainda carregavam o eco de batalhas e rituais -
tudo ali respirava memória. O museu era pequeno, mas delicado, quase íntimo,
como se nos desse permissão para tocar a própria espinha dorsal da história
grega.
Segui
viagem até Kalamata com o pensamento de que não abrir o computador fora a
melhor decisão do dia. As notícias empurram-nos sempre para a irrelevância
importante - aquela que vende, que indigna, que distrai - enquanto as coisas
realmente essenciais ficam escondidas no rodapé onde só tropeçamos quando
prestamos atenção.
Enquanto
a estrada se desenrolava perante mim, rendilhada de luz, música romântica ao
fundo, interroguei-me: porque esquecemos os verdadeiros heróis? Porque
veneramos os que apenas brilham sem iluminar? Lembrei-me de Fleming, Edison,
Bell, Watt, Cerf e Kahn, dos irmãos Wright — gente que mudou o mundo, mas que
raramente aparece num feed de tendências. Os verdadeiros génios perderam para
os “influencers”, e o mundo parece aceitar isso com a naturalidade de quem
troca vinho por refrigerante.
Com
estas reflexões e a paisagem a explodir em beleza, cheguei a Kalamata quando o
sol mergulhava no Golfo de Messenia com a mesma suavidade com que uma carta
engarrafada pode entrar no Mediterrâneo vinda de longe. Talvez a minha carta
andasse ali perto, quem sabe?
O
hotel onde fiquei - o Honeymoon Hotel, nome que gritava romance até para quem
viajava sozinho - era pequeno, encantador, e parecia preparado para acolher
corações apaixonados… ou para criar paixões novas assim que se abrissem as
janelas. A receção deu-me as boas-vindas com um licor doce e um sorriso tão
largo que até os deuses teriam inveja.
Paula,
sorriso profissional, mas olhar cúmplice, deu-me todas as dicas: restaurante
certo, bar certo, música certa. A noite terminou saborosa, suave, fresca - um mimo
para o corpo e para a alma.
Quando
entrei no quarto, perdi o ar por um instante. Abri as janelas e vi o golfo
iluminado pela lua, o mar calmo como se tivesse segredos antigos a guardar.
Dentro
do quarto, pétalas em forma de coração sobre a cama, chocolates, champanhe
gelado e… dois copos.
Ri-me
sozinho, claro. Eu, romântico por natureza, a ser recebido como metade de um
casal invisível. Procurei discretamente se havia algum colar de conchas
escondido - nunca se sabe - mas nada.
Sentei-me,
coloquei os fones e deixei a música preencher tudo: a noite, o corpo, o aroma
do champanhe, o eco do mar, o cheiro leve das pétalas. Um ambiente quase
afrodisíaco - quase como se Atenas, Trípoli, Kalamata e todos os deuses
tivessem alinhado para me oferecer uma noite perfeita.
https://www.youtube.com/watch?v=us5JFGeKRQo&list=RDus5JFGeKRQo&start_radio=1&rv=7IRIP-hSfJ0
E
ali fiquei, entre a lua, o mar e a música, a pensar que há viagens que nos
escrevem por dentro. E que algumas cartas de amor nunca se perdem - apenas
encontram o mar certo para navegar.
Diário
de uma viagem – 74 dia – 07/09/2025


Amei
ResponderEliminarAs cores e ritmo, que faz lembrar a alegria descritiva de José Saramago nas suas viagens — esse olhar que transforma cada detalhe numa descoberta. Encantadora
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