E depois, como um bom filme, o momento dissolveu-se antes de se desgastar!
Despertei
em Janina como quem regressa de uma viagem que nunca fez - ou talvez tenha
feito, algures entre o corpo adormecido e o espírito teimoso que insiste em
vagar quando lhe dá na gana. Acordei preso a mim mesmo, como se o meu esqueleto
tivesse decidido dormir cinco minutos extra e o meu espírito, impaciente,
batesse à porta do corpo exigindo reentrada. Um transe de segundos que pareceu
uma eternidade.
Salvou-me,
como sempre, a promessa sensorial do pão torrado: aquele momento pagão em que a
manteiga se dissolve sobre a superfície quente e estala, rende-se, derrete-se como
um amante tímido, e o café - forte, severo, aromático - assume o papel de
maestro a convocar o mundo de volta à minha consciência.
O
pequeno-almoço grego, dizem, celebra a saúde, o fresco, o natural. A mim,
conservador assumido nas manhãs, bastou-me o ritual habitual para sentir que
estava pronto para enfrentar Janina, essa cidade que sorri na subtileza e
promete o inesperado com a confiança de quem conhece o poder do seu próprio
mistério.
O
lago Pamvótida aguardava-me: espelho líquido onde a cidade se contempla, maior
lago do norte da Grécia, tão quieto e profundo que parece esconder segredos em
cada reflexo. À sua superfície, a pequena ilha Nissi flutua como uma memória
antiga, habitada por mosteiros bizantinos que resistem ao tempo e guardam
histórias que ninguém ousa confiar inteiramente aos livros.
No
museu de Ali Paxá, senti o peso de uma presença que nunca partiu totalmente.
Ali, as paredes parecem carregar conversas interrompidas, e os objetos
expostos, de tão silenciosos, gritam. A arquitetura otomana dentro do castelo
traduz-se em mesquitas de cúpulas elegantes, pátios emoldurados por arcos e
corredores que ecoam passos de séculos.
Ali
Paxá está em todo o lado - na pedra, na sombra, na memória coletiva da cidade. Entre
artesãos que moldam prata como quem molda histórias, e cozinheiras que
transformam ingredientes em poesia mediterrânica, Janina dá-se sem pressa, mas
com intensidade.
Sabendo
que a gastronomia aqui é tesouro e orgulho, procurei conselho especializado.
Encontrei-o num polícia local, grande de corpo e de bigode, expressão séria de
quem leva a comida tão a sério quanto a lei. Indicou-me, com um aceno lento e
seguro, um restaurante junto ao lago.
O
restaurante era um refúgio de serenidade. As mesas dispostas como se
coreografadas; cortinas leves esvoaçavam com brisas que cheiravam a jasmim e
água doce. Pedi carne grelhada: suculenta, marcada pelas brasas com precisão
quase ritual. Veio acompanhada de legumes brilhantes - pimentos, curgetes,
beringelas - que pareciam ter sido pintados pelo próprio sol. O vinho tinto, da
região de Naoussa, tinha corpo, alma e um temperamento quase tão intenso quanto
o meu espanto perante aquela refeição.
Foi
então que a vi, do outro lado da sala: uma turista francesa, solitária como eu.
O nosso olhar cruzou-se com uma cadência quase cinematográfica, silenciosa,
envolta naquela luz suave que tornava o momento tão real quanto fictício. O
mapa da cidade - igual ao meu - jazia sobre a mesa dela, como um espelho
simbólico da nossa viagem paralela. Houve um sorriso. Pequeno, preciso,
educado. Houve um aceno de cabeça, discreto como um segredo bem guardado. E
depois, como um bom filme, o momento dissolveu-se antes de se desgastar.
Quando
saí do restaurante, virei a esquina e deparei-me com dois sem-abrigo. Um lembrete
cru de que a beleza das cidades também convive com as suas feridas. Portugal,
Grécia… irmãs na poesia e na dificuldade - ambas com taxas de pobreza que
gritam silenciosamente nas ruas. Atravessar esse contraste custa; a digestão
emocional pesa mais que a comida.
Continuei
pela cidade, absorvendo recantos menos percorridos. Falaram-me de uma lenda
antiga: a de Kyra Frosini, a mulher cuja beleza e audácia ecoam no lago, onde
dizem que as suas lágrimas ainda se misturam à água nas noites mais
silenciosas. Há também a história menos divulgada dos “poços escondidos” -
antigos pontos de água que serviam os habitantes durante os cercos otomanos, alguns
ainda visíveis se souberes onde olhar. E os velhos artesãos do castelo contam,
em voz baixa, que certas pedras mudam subtilmente de cor ao entardecer, como se
absorvessem o dourado do sol para libertá-lo à noite em reflexos quase
impercetíveis.
À
noite, escolhi jantar dentro das muralhas. Um restaurante romântico,
misterioso, com velas tremeluzentes e staff jovem vestido como se tivesse saído
de um retrato otomano. A música - instrumentos de cordas, ritmos antigos -
completava o feitiço. A refeição era divina: carnes envolvidas em ervas
aromáticas que pareciam colhidas no jardim secreto de uma sacerdotisa.
Para
meu espanto ela também estava lá. A francesa. Sorriso tímido, beleza natural,
maturidade elegante. O que mais me chamou atenção, porém, foi a joia em forma
de concha presa ao casaco azul-marinho, com um brilho estranho, quase
inquietante, como se emitisse luz própria.
Mais
tarde, já atordoado pelo vinho garrafeira - 15 graus de perdição - regressei ao
hotel. Ao abrir a porta, o coração parou: A minha concha estava em cima da
mesa. Mas eu guardara-a na mala. Ao lado dela, um pergaminho antigo, marcado
pelo tempo, com uma frase que nenhum mortal escreveria. Senti-me arrancado à
realidade.
Desci
ao bar em busca de coragem. Serviram-me,
com simpatia grega, um copo de tsipouro forte, num copo decorado com padrões
helénicos que pareciam dançar à luz do candeeiro.
Subi
ao quarto com música nos fones, fechei os olhos e pense “E se tu não
existisses”. Deixei-me cair na cama e implorei ao sono que me poupasse.
https://www.youtube.com/watch?v=Rx9vZeTGckY&list=RDMM&index=10
No
dia seguinte, Tirana, na Albânia, esperava por mim - e talvez, respostas
também- ou novas perguntas. Afinal, viagens assim nunca terminam quando
queremos. Elas terminam quando têm algo para dizer.
Diário
de uma viagem – 77 dia – 10/09/2025


Maurício, o texto brilha com a alma de quem sente cada instante uma intensidade que recorda Edgar Allan Poe e o seu fascínio pelos sentimentos que perduram. Janina ganha vida, o lago sussurra segredos, e a concha parece guardar lembranças do coração.
ResponderEliminarComo a melodia de Joe Dassin, agora na voz doce de uma cantora, as palavras permanecem a ecoar, ternas e intensas.
É sempre um prazer sentir esse mundo em cada linha. E ler-te sempre.
E já espero pela próxima página.
A tua escrita, Maurício , tem essa capacidade única de fazer o leitor caminhar contigo, sentir os aromas, ouvir as vozes da cidade e quase tocar o mistério que descreves. Os textos são um convite à viagem e ao sonho!... És extraordinário, parabéns!!!
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