Depois, despedimo-nos num abraço prolongado demais. Talvez um beijo envergonhado - ou não…

 


Acordei em Escópia com o corpo ainda preso ao pouco sono da noite anterior: a cama parecia ter íman, um abraço magnético, e as minhas pestanas insistiam em permanecer coladas, como se quisessem prolongar um sonho que já não lembrava. Com um esforço quase heroico, ergui-me. Foi então que reparei num envelope deslizado por baixo da porta, pousado no chão como um segredo à espera de ser descoberto. O elegante papel timbrado do hotel brilhava na penumbra do quarto. Abri-o.

“Good morning, Mauricio!” Em inglês impecável, a carta saudava-me como se já me conhecesse. Desejava que o meu descanso tivesse sido tão generoso quanto as vistas que me aguardavam. Dava-me as boas-vindas a Escópia, essa capital que pulsa entre colunas clássicas e betão contemporâneo, entre memórias de impérios e a pressa de uma Europa moderna. Lá fora, dizia a carta, o rio Vardar brilhava como um convite e a cidade despertava comigo. A assinatura era simples: “Jana”. Aquela caligrafia - elegante, ligeiramente inclinada, quase íntima - aguçou o meu apetite pelo dia. Corri para um banho fresco, na esperança de despertar finalmente.

A sala de pequenos-almoços era um cenário digno de cinema: luz dourada a atravessar vitrais, mesas impecavelmente vestidas, um aroma quente a pão torrado que parecia abraçar o ar, e, por entre tudo, o perfume irresistível do café acabado de moer, como um chamamento ancestral. A música, suave, misturava jazz com um toque balcânico, acompanhando o burburinho contido de hóspedes ainda meio adormecidos.

O buffet era um altar ao prazer matinal: frutas reluzentes como joias tropicais, doces artesanais que pareciam ter sido sussurrados por avós carinhosas, mel espesso, compotas de cores intensas e uma variedade de pães, queimada na perfeição. O staff movia-se com uma simpatia que parecia coreografada - sorrisos genuínos, beleza discreta, gestos leves. Um daqueles serviços que transforma uma simples refeição num momento singular.

Alimentado e desperto, senti-me pronto para devorar a cidade. Escópia é um mosaico improvável - uma tapeçaria que mistura ares bizantinos com toques otomanos, sombras do passado jugoslavo e estátuas contemporâneas que parecem ter brotado de um sonho megalómano. Visitei a famosa Ponte de Pedra, sólida como uma artéria que liga séculos. Explorei o Velho Bazar, onde o cheiro a especiarias dança com o tilintar das lojas de prata. Passei pelo local de nascimento de Madre Teresa, humilde e luminoso como o legado que deixou. E, claro, atravessei as avenidas transformadas pelo projeto “Skopje 2014”, tão controverso quanto fotogénico.

Foi então, no meio desta peregrinação urbana, que o meu telemóvel tocou. Era Jana. “Maurício, já almoçaste? Onde estás? Espera por mim. Vou levar-te a um restaurante que vais adorar.” A voz dela tinha uma naturalidade que me desarmou. Ali, naquele instante, nasceu um sentimento raro: uma afinidade espontânea, como se falássemos a mesma língua mesmo quando não dizíamos as mesmas palavras. Era uma compreensão mútua, instintiva, sem segundas intenções - apenas o reconhecimento de um espírito semelhante.

Quando chegámos, percebi que não exagerara: o restaurante era uma surpresa encantadora, escondido no coração de uma biblioteca. Prateleiras e mais prateleiras de livros do mundo inteiro rodeavam-nos, como se cada refeição fosse uma página a ser saboreada. Podíamos folhear um romance russo enquanto escolhíamos uma entrada, ou perder-nos num ensaio francês enquanto o vinho respirava.

No fundo da sala, um quadro chamou a minha atenção: “As drogas tiram a tua liberdade. Escolhe a vida.” Olhei para a Jana. O nosso olhar cruzou-se como um fio condutor, silencioso, potente. Ela suspirou, baixinho. “Sim… como em todo o mundo, aqui na Macedónia também é um flagelo. Devasta famílias inteiras, principalmente os jovens.”

Sentámo-nos. Vieram então entradas típicas: ajvar vermelho e sedoso, sirene fresco, pão morno e aveludado, saladas vibrantes como pinturas. Depois, uma carne grelhada tão tenra que parecia desfazer-se ao toque. O vinho tinto - macedónio, encorpado, quente - completava o ritual.

A conversa ganhou profundidade. Falámos de Portugal, da Macedónia, dos males que atravessam fronteiras invisíveis. Concordámos que combater a droga exige mais do que fronteiras seguras. “É preciso inteligência, compaixão, políticas sociais, tratamento digno, investigação forte e leis que não tremem.” Jana dizia estas palavras com uma tristeza firme, talvez vinda de memórias que não detalhou.



No final do almoço, a Jana estava animada e curiosa sobre Portugal. E prometeu ser minha guia naquele dia de folga. “Agora serei a tua guia. Vou mostrar-te lugares que nenhum turista conhece.” Levou-me a becos escondidos, cafés esquecidos pela pressa dos mapas, pátios onde músicos ensaiavam melodias antigas, miradouros que revelavam a cidade como um segredo partilhado só ao entardecer. Lugares que só uma mulher macedónia, orgulhosa da sua cidade, poderia mostrar com aquela delicadeza.

Fizemos uma pausa no The Dude Specialty Coffee - um café moderno, paredes industriais, plantas suspensas, expressos perfeitos servidos em chávenas artesanais. O aroma era quase táctil. O ambiente, descontraído. A música, indie suave. À noite, fomos até um cocktail lounge na Praça da Macedónia. Aperitivos, uma Skopsko gelada, e conversas que viajavam entre os nossos países, como se cada frase fosse um bilhete de avião.

Até que surgiu um silêncio subtil entre nós - um daqueles que não constrange, mas suspende o tempo. Nem os nossos olhares enigmáticos lhe encontraram tradução.  “Estás cansado?” perguntou ela. “Não. A noite ainda é uma criança.”  “Então vamos dançar. Num lugar onde se conversa em forma de segredo abraçado, ao som de uma música que nos liberta.” Há lugares mágicos em Escópia, há lugares mágicos no mundo e há momentos que transformam o tempo em magia. Depois, despedimo-nos num abraço prolongado demais. Talvez um beijo envergonhado - ou não…

No hotel, o silêncio recebeu-me como um véu. Ao abrir a porta do quarto, vi ao lado da cama um quadro de Madre Teresa com a frase: “No one should cross your path without leaving a little happier.”

https://www.youtube.com/watch?v=T2bcUxUOUQg&list=RDEMHauVeDKFRbloemfLdbtmhQ&index=2

Tomei um banho fresco, coloquei os fones e adormeci embalado pela música que escolhi para guardar aquele dia - um dia que sabia que iria recordar para sempre. Na manha seguinte esperava-me uma viagem até à cidade de Pristina no Kosovo.

 

Diário de uma viagem – 81 dia – 14/09/2025

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