Como é frágil a esperança humana quando tenta encontrar atalhos para a felicidade!

 


Despertei em Tessalónica, na Grécia, ainda a madrugada se espreguiçava nos lençóis escuros do céu. O sol dormia profundamente, talvez exausto de iluminar ruínas milenares, e o mar ressonava com o seu fôlego antigo, como um gigante adormecido. As estrelas piscavam-me com cumplicidade, quase impertinentes, como se tivessem ficado acordadas só para me dar os bons dias. Senti um arrepio leve na pele - não de frio, mas daquela euforia que se instala no estômago porque hoje, finalmente, irei conhecer a cidade com que sempre sonhei: berço da civilização ocidental, da democracia, da filosofia, e de todas as perguntas que o mundo ainda hoje tenta responder.

Depois de um banho rápido, quase cerimonial, fui assaltado pelo aroma do pão torrado a derreter manteiga e do café forte que seduz os sentidos como um amante experiente. Antes de me render ao pequeno-almoço, abri o computador para ver notícias de Portugal. E ali, em letras gordas, quase gritando como um alarme matinal, surgiu: “Em Portugal, o vício do jogo é considerado um problema de saúde pública com graves consequências sociais.”

Suspirei. Quem é que decide pôr notícias destas logo pela manhã? Devem acreditar que a angústia matinal melhora a digestão. Fechei o computador antes que me tirasse completamente a vontade do pequeno-almoço e fui quase a correr para a sala.

Assim que entrei, perdi a respiração - e depois recuperei-a apenas para perder de novo, agora para a fome. My God… que deslumbramento. Uma explosão de cores, aromas e sabores: frutas brilhantes como joias, croissants dourados a luzir como tentações proibidas, iogurtes cremosos que prometiam redimir todos os pecados culinários da véspera. No canto, uma pianista deixava cair notas suaves como pétalas, e cada vez que o meu olhar seguia para os croissants ela, malandra, lançava um acorde capaz de me desviar a atenção. Quase coreografámos um flerte silencioso: eu, a desejar manteiga; ela, a seduzir-me com Chopin.

Mas Atenas chamava por mim. A cidade dos meus sonhos não ia esperar. Com as malas no carro, música romântica no rádio e o retrovisor ainda embaciado, comecei a despedir-me de Tessalónica. O vidro humedecido parecia emocionado, como se não quisesse revelar a cidade a desaparecer devagar. A estrada serpenteava entre colinas verdejantes e o mar azul aproximava-se ora tímido, ora atrevido, como quem desafia: “Olha para mim, vai lá.” O vento entrava pela janela entreaberta com um perfume de sal e liberdade; sentia-o tocar-me o rosto com a intimidade de uma carícia.

Ao início da tarde, o corpo pediu energia, e decidi parar em Lâmia, na região de Aquia, não muito longe das águas termais que fumegavam entre montanhas. Ali encontrei um restaurante de madeira escura, quase um chalé perdido no tempo. Ao entrar, fui recebido por um aroma de carne grelhada que me abraçou com a ternura de uma avó grega. Pedi a minha refeição: souvlaki de porco, suculento e dourado, acompanhado da minha cerveja grega favorita - Mythos, gelada, orgulhosa, a saber a trigo, verão e felicidade engarrafada. A sobremesa? Galaktoboureko, claro - massa folhada crocante a esconder um creme quente perfumado a limão e canela. Uma tentação dos deuses.

Depois do almoço, caminhei cerca de uma hora para ver o que Lâmia tinha para me oferecer. Visitei o Castelo de Lâmia, erguido no alto como um guardião de séculos; lá de cima, a vista era tão imponente que até o meu telemóvel quis ajoelhar-se em modo paisagem. Pensei em visitar o Museu Arqueológico, onde as peças antigas olham para nós como quem diz: “Sim, sobrevivemos a tudo. Bons tempos esses.” Se tivesse mais tempo, ainda me teria aventurado até às termas de Thermopylae, onde 300 espartanos desafiaram o impossível - mas a minha agenda era menos heroica.



Voltei ao carro e continuei caminho rumo a Atenas. A estrada era uma pintura viva: o mar cintilava sempre que a autoestrada se aproximava dele, como se fôssemos dois amantes a brincar ao jogo do “quase tocamos”. A música suave enchia o interior do carro, e eu mergulhava naquela doce ansiedade de chegar finalmente à cidade que sempre sonhara.

Foi então que a notícia da manhã voltou à minha memória. O vício do jogo - uma sombra que cresce silenciosa. Em Portugal, milhares vivem enredados numa teia que começa com inocência e termina em perda: financeira, familiar, emocional. Não é apenas dinheiro que se perde, mas lares, abraços, sanidade, às vezes até a própria vida. As populações mais vulneráveis são as mais afetadas: pessoas mais velhas, com rendimentos baixos, que procuram no jogo uma esperança rápida e encontram um abismo lento. Ansiedade, depressão, isolamento… e, nos casos mais sombrios, tentativas de suicídio. Um flagelo que corrói silenciosamente, país dentro, mundo fora. Fiquei a pensar nisso enquanto a estrada se alongava à minha frente - como é frágil a esperança humana quando tenta encontrar atalhos para a felicidade.

Quando finalmente cheguei a Atenas, a cidade brilhava. Estava iluminada como quem veste joias para me dar as boas-vindas. O hotel onde me hospedaria parecia um museu disfarçado de hotel, ou talvez um hotel disfarçado de museu - nunca percebi bem. Nas paredes, Sócrates, Platão, Aristóteles, cada um com aquele olhar típico de quem te julga sem te dizer nada. Não estivesse eu ao lado da Acrópole, reino de pedra e mito desde tempos micénicos.

Entrei no quarto, larguei as malas como quem largava o peso de séculos de história que tinha carregado durante o dia, e desci ao bar do hotel para uma simples - mas gloriosa - sandes de presunto. O bar era acolhedor, cheio de sombras quentes e madeira polida. A música ao piano flutuava no ar como incenso sonoro, e o staff, simpático e cúmplice, foi-me dando conselhos sobre a cidade: onde comer, onde não comer, onde me perder voluntariamente.

Havia algo naquele hotel. Alma, talvez. Ou talvez fossem apenas os fantasmas simpáticos de filósofos que achavam graça a turistas cansados. Na receção, uma enorme coruja - símbolo da deusa Atena - parecia observar tudo com a serenidade de quem já viu demasiado para se surpreender.

No quarto, tomei um banho refrescante, deixei a água levar a poeira, o cansaço e até algumas perguntas existenciais que apenas o tempo pode responder, coloquei os fones e escolhi a música perfeita para adormecer.

https://www.youtube.com/watch?v=MV8fID19BMI&list=RDMV8fID19BMI&start_radio=1

Only Time

E assim, embalado entre notas suaves e o murmúrio distante da cidade dos deuses, entreguei-me ao sono - finalmente em Atenas, finalmente no lugar onde o passado conversa com o futuro, e onde até os sonhos parecem ganhar voz.

 

Diário de uma viagem – 72 dia – 05/09/2025

Comentários

  1. Woouu... Maurício, Magnífico! Por momentos senti-me Viajar em cada palavra e emoção! Fiquei com vontade de viajar até Atenas. 😊

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  2. Que escrita cheia de alma. Há textos que descrevem viagens… e há os teus, que as fazem renascer dentro de nós. Cada imagem, cada aroma, cada silêncio que narras parece tocar aquela parte mais escondida do ser a que ainda acredita no encanto das coisas simples.
    A tua sensibilidade lembrou-me José Luís Peixoto, pela forma de encontrar profundidade no instante e poesia no real. Tal como ele, tens essa rara capacidade de transformar o quotidiano em transcendência.
    Ler-te é viajar com a memória e com o coração. Obrigado por mais esta janela aberta para o mundo — e para dentro de nós.”

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  3. Conozco Tesalónica, volvería yo muchas veces. Al leerte me hiciste recordar muchos momentos lindos
    Grácias Mauricio
    Abrazos

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