Nem com “botox” o espelho engana!

 


Saí de Riga com o corpo ainda fresco do banho da manhã, o café forte a pulsar-me nas veias e a sensação de que aquele dia me esperava como uma amante ansiosa. O carro, limpo e cheiroso da véspera, parecia cúmplice do meu espírito aventureiro. As colunas deixavam escorrer música latina — e cada acorde era como um convite atrevido ao romantismo da estrada.

A paisagem era generosa: casas em tons claros, quase pastéis, erguiam-se timidamente entre campos de verde vivo; o céu, limpo e azul, era tão vasto que parecia prometer beijos intermináveis de horizonte. Era como se a estrada fosse um longo corpo estendido à minha frente, pedindo que eu a percorresse devagar, com prazer.

No meio do caminho, parei numa cidade pacata. O silêncio tinha som — era o riso das crianças, eram os olhares maliciosos dos casais, aqueles olhares que denunciam segredos de lençóis. Mazeikiai repousava ao lado do rio Venta, e juntos pareciam dançar um tango lento e cúmplice. Até o vento, atrevido, passou a mão no meu rosto, numa carícia que me fez sorrir. As casas, com suas cores doces, davam a impressão de terem sido moldadas em chocolate.

Encontrei um restaurante junto ao rio, cheio de plantas que se entrelaçavam em volta das mesas, criando pequenas ilhas de privacidade — perfeitas para um namoro clandestino. Duas empregadas lituanas, com curvas acentuadas e cabelos tingidos em tons de azul elétrico, moviam-se como se cada gesto fosse coreografado para seduzir. Os seus sorrisos eram de simpatia, mas havia neles também aquela leve ironia de quem sabe que os homens, naquela terra, eram quase raridades.

Chamou-me a atenção um casal de idosos, sentados perto de mim. Tocavam-se com ternura e sensualidade como se estivessem sozinhos no mundo. Um gesto no ombro, um beijo discreto no canto da boca, e eu pensei: como é bom viver um amor eterno — suave, malicioso e sem idade.

Tu ainda acreditas em almas gémeas? Durante a adolescência, crescemos a pensar que vamos encontrar o nosso par perfeito, a nossa alma gémea e vivermos felizes para sempre. Infelizmente este cenário não é real para todos e, com o tempo, acaba por se transformar numa frustração.

Todas as relações têm os seus problemas e os conflitos abrem espaços para argumentações, mas o que faz a diferença é não abandonar a fórmula de lutar para mesmo lado, para o bem de ambos e não para alimentar o ego de cada um com ideias egocêntricas, transformando a relação numa competição ou num negócio do deve e haver.

O mundo está entupido de casais neuróticos competindo, marcando cada um a diferença em silêncio. E, quando falo em competição não me resumo só aos atributos físicos, eles sentem a necessidade de terem um sucesso profissional e muito mais, prendendo a relação, aqui e ali, com pequenos gestos sentimentais, enquanto a cumplicidade segurar as pontas.

Dizem que um gesto vale por mil palavras. Pode ser, mas isso apenas vale se o gesto corresponder a uma verdade interior e não for mera encenação. Convencionou-se que as palavras não contam, que são superficiais e enganadoras, mas é mentira; as palavras são o mais importante veiculo de comunicação entre humanos e, assim como um gesto, podem marcar profundamente uma relação. Mas gestos ou palavras, que sejam pontes carregadas de autenticidade e simplicidade.

Então qual é o principal argumento do inicio de uma relação? É sem duvida a beleza… não vamos ser hipócritas, porque todos sabemos que a beleza é reconfortante, perturbadora e profana; pode revigorar, encantar, inspirar, atemorizar. Ela pode nos influenciar de inúmeras formas porque somos seres visuais, mas não podemos ignorar que a beleza é uma genética com prazo de validade e, quando isso acontece, um lado vai sentir-se descartável e o outro começa a olhar para o outro lado.

Mas que riso! Nem com “botox” o espelho engana, porque o tempo passa por todos e ninguém fica isento das mazelas visuais. Quando ficamos vazios e incapazes de ancorarmos nos valores indestrutíveis do talento e da beleza interior, acabamos por mergulhar numa vida fútil e sem contexto.

Mas não deixes de acreditar que podes mudar o rumo dos acontecimentos; é tudo tão simples e tão natural! Uma visão de futuro conjunta, com planos e valores em comum, é o condimento perfeito. Esquece a tentação de mudar a personalidade do teu par à tua imagem, mas nunca afastes a ideia de que uma amizade verdadeira é o pilar de uma relação perdurável.

O almoço foi uma festa dos sentidos: carne suculenta, ainda a pingar sabor, acompanhada de uma profusão de vegetais coloridos e frescos. Tudo regado com uma cerveja local, encorpada e dourada, que parecia querer competir com o brilho do sol.

Depois, deixei-me perder pela cidade. Ruas estreitas com fachadas que pareciam páginas ilustradas de um conto antigo, praças pequenas onde o tempo descansava, jardins onde as flores competiam em cor com os vestidos das mulheres que por ali passavam. Mazeikiai era mesmo um livro aberto — daqueles que não se quer fechar nunca.

Retomei a viagem com imagens coladas na memória, como se trouxesse comigo pequenos pedaços de magia. O sol, generoso e preguiçoso, ia-se deitando quando finalmente cheguei a Klaipėda, a porta luminosa para o mar Báltico.

O hotel onde fiquei tirou-me o fôlego à primeira vista: arquitetura elegante, moderna, mas com alma. Ao entrar, fui recebido por um perfume sedutor no ar — uma mistura de flores e especiarias — e por um casal de rececionistas cujo sorriso parecia querer adotar-me como hóspede preferido. Recebi um cocktail de boas-vindas, a especialidade da casa: uma bebida lituana feita com licor de mel, vodka suave e uma pitada de ervas locais que aqueciam o peito como um beijo prolongado.

Depois de algumas dicas preciosas sobre a cidade e os seus encantos noturnos, saí para explorar. As ruas estavam vivas, iluminadas por candeeiros que lançavam uma luz amarela e convidativa. Sentei-me num barzinho, provei mais um copo e deixei o tempo passar, embalado pela brisa do Báltico e pelo riso solto das pessoas.

Ao regressar ao hotel, outra surpresa: um voucher para uma massagem. E quem poderia resistir? Entreguei-me ao toque de mãos firmes e delicadas que percorriam o meu corpo como quem lê em voz baixa um poema proibido. Cada músculo cedia, cada suspiro era um agradecimento. Quando saí da sala, estava renovado, pronto para sonhar e acordar no dia seguinte rejuvenescido, desejoso de descobrir ainda mais os segredos da cidade.

 

Diário de uma viagem – 40 dia – 05/08/2025

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