Nas relações só ganha quem não quer ganhar!

Quando
despertei em Koshice, abri as janelas e respirei o silêncio. Era um silêncio
vivo, pulsante, quase divino - como se a própria natureza, em sua infinita
paciência, me embalasse num cântico mudo. À minha frente, a segunda maior
cidade da Eslováquia repousava tranquila, serena, bela - um tesouro escondido
no coração da Europa Central, bem perto da guerra na Ucrânia, mas distante de
qualquer ruído humano.
O
rio Hornád corria lento diante dos meus olhos, refletindo o céu pálido e as
copas das árvores, como um espelho de paz. O ar era puro, fresco, quase
líquido. Um banho frio devolveu-me a vitalidade, e, ao descer para o
pequeno-almoço, descobri um cenário de cores e aromas que pareciam ter sido
pintados pela própria manhã.
Na
ampla sala de janelas abertas para um jardim minuciosamente cuidado, a mesa era
um festival de vitaminas e poesia: sumos de laranja e framboesa a cintilar em
copos altos, pão quente que exalava um perfume doce de trigo, frutas cortadas
em tons de sol — manga, kiwi, morango, uvas translúcidas — e uma variedade de
queijos, iogurtes e mel dourado que parecia escorrer do próprio tempo.
Mas
nada, absolutamente nada, me surpreendeu tanto quanto a beleza das mulheres
eslovacas que compunham o staff. Moviam-se como quem desliza sobre o ar —
graciosas, leves, de gestos comedidos e sorrisos discretos. Já tinha lido que
as eslovacas figuravam entre as mulheres mais belas do mundo; ali, diante de
mim, essa frase deixava de ser lenda para se tornar evidência. A elegância
delas não vinha apenas dos traços ou da postura, mas de uma natural harmonia
entre corpo e alma, como flores que desconhecem o próprio esplendor.
A
cidade parecia conspirar para um dia perfeito. Mochila às costas, ténis nos pés
— parti. Pelas ruas largas e limpas, cheguei à Hlavná Ulica, o coração pulsante
de Koshice. A Catedral de Santa Isabel, com suas torres góticas a rasgar o céu,
impôs-se diante de mim — um monumento de fé e arte, onde o tempo parecia
ajoelhar-se em respeito. Caminhei devagar, absorvendo cada detalhe dos vitrais,
o aroma das velas, o som distante de um órgão.
Mais
adiante, o Teatro Estatal, uma joia neobarroca, brilhava ao sol como se cada
fachada contasse uma história de elegância e resistência. Nas laterais,
pequenas praças escondiam cafés, esculturas e fontes que murmuravam segredos de
outras eras.
Quando
o sol atingiu o zénite, sentei-me num restaurante acolhedor na mesma rua
pedonal, o Le Colonial Café, onde o tempo parecia abrandar. As paredes,
cobertas de livros e garrafas de vinho, respiravam cultura e calor humano.
O
almoço foi uma sinfonia de sabores — um peito de pato com molho de groselha,
acompanhado por um vinho espanhol encorpado que parecia ter sido engarrafado
apenas para aquele momento. O staff, com a mesma graciosidade das mulheres do
hotel, movia-se com precisão e elegância — como se o próprio serviço fosse uma
coreografia silenciosa.
A
serenidade das ruas, a limpeza, o cuidado, o sentimento de paz — tudo
contrastava com a ideia de uma guerra tão próxima. Era como se Koshice tivesse
escolhido resistir com beleza, respondendo ao medo com flores.
Entre
mensagens e telefonemas, uma notificação interrompeu o meu devaneio: Palavras,
doces e arrependidas, carregavam um tom de saudade misturado com um controlo
emocional.
A
autoestima é fundamental para que te estrutures e posiciones no mundo, mas em
demasia “intoxica”. A superioridade desfunciona os relacionamentos porque não
há reconhecimento mutuo. Impomos a nossa perspetiva como um dado adquirido, mas
nas relações só ganha quem não quer ganhar.
Provavelmente
todos já estivemos na presença de alguém que colocam o “Eu” em quase todas as
construções das suas frases. Eu já vivi com uma coisa dessas durante alguns
anos e posso garantir que não é nada agradável, mesmo nada. Essa característica é o acelerador que
transforma o sucesso em angústia.
Enfrentar
ocasionalmente pessoas tóxicas pode ser bastante desgastante, mas nem sempre
nos apercebemos atempadamente do mal que nos faz lidar diariamente com o
flagelo de escutar pessoas que buscam permanentemente a provar da sua
superioridade para disfarçar uma aflitiva sensação de inferioridade.
Qualquer
um de nós pode ver-se envolvido num relacionamento tóxico, já que os padrões de
comportamento disfuncionais nem sempre são tão óbvios como os julgamos. Pessoas
controladoras existem em todo lado, em todas as idades, géneros e estratos
sociais, pelo que importa conhecer aquilo que as distingue, as estratégias a
que recorrem e as ferramentas que lhes permitam dominar os outros.
Muitas
vezes o controlo emocional é de tal forma complexo que acabamos por o
interpretar como uma preocupação e cair na falácia de quem não reconhece a pluralidade
de interesses e aptidões.
Quem
se sente superior não percebe que as pessoas têm capacidades diferentes,
dificuldades diversas, brilhos de todas formas, defeitos e virtudes de todos os
tamanhos. Todas com seus prós e contras. Nem melhor nem pior, somos todos
iguais e todos diferentes.
Busca
a mudança permanente no que em ti é menos bom. Esse combo de qualidades e
defeitos é o que te faz viver e auto avaliar permanentemente, mas nunca
contestes a ideia de contestar posicionamentos superiores porque nos conflitos
existe um sentimento de igualdade.
Na
verdade, também não é boa ideia assumir a pressão interna e viver numa gincana
de competição. É cansativo, porque são arrogantes, hostis, controladores,
déspotas, invejosos, mentirosos e também neuróticos. Embora existam diferentes
perfis, todos têm duas características em comum: são manipuladores e
intratáveis.
Se
tiveres que conviver com pessoas desse tipo, sai pela porta ao lado. Por trás
de toda a imponência da cauda, todo pavão guarda o mistério da simplicidade.
Não caias na armadilha de tentar descobrir.
Ao
entardecer, cheguei ao Park of Koshice, um oásis verde e silencioso. As árvores
dançavam com o vento, os casais caminhavam de mãos dadas, e o sol dissolvia-se
em cores impossíveis.
À
noite, procurei um restaurante no centro, na rua principal — Hlavná novamente,
viva, iluminada, com o brilho quente dos candeeiros e a música suave que
escapava dos cafés. Escolhi o Villa Regia, um restaurante com paredes de pedra
e aromas que seduziam o ar. O jantar foi memorável: carne tenra, legumes
assados, um vinho branco gelado e um serviço tão gentil que parecia amizade
antiga.
Seguindo
o conselho de uma funcionária do restaurante - mais uma beldade eslovaca de
sorriso intrigante — cheguei ao Jazz Club Blue Note, um espaço subterrâneo onde
a música vibrava nas paredes e os copos cintilavam sob a luz âmbar. O saxofone
chorava, o contrabaixo pulsava, e o ambiente inteiro respirava alma. Gente
bonita, riso fácil, o murmúrio da língua eslovaca como uma canção indecifrável.
De
coração cheio, saí sob o frio leve da madrugada. A cidade dormia. No hotel,
apenas o rececionista estava acordado. Gostou da nossa Koshice? - perguntou-me
com um sorriso discreto. Maravilhosa - respondi, sem hesitar. Ficámos a
conversar um pouco sobre os nossos países, os nossos sonhos e sobre o poder
silencioso das cidades que nos acolhem.
Depois,
recolhi-me ao quarto. A lua espreitava pela janela. E, por um instante,
compreendi que a beleza, o amor e a paz - tal como Koshice naquela noite -só pertencem
verdadeiramente a quem sabe escutá-los em silêncio.
Diário
de uma viagem – 59 dia – 24/08/2025

O modo como descreves a noite cria quase um pequeno filme: aromas, sons, pessoas, emoções. E o desfecho no hotel, com a conversa tranquila com o recepcionista, fecha o relato com uma ternura rara — aquela sensação de que, por uma noite, pertencemos a um lugar que não é nosso.:-)
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