O choque entre o brilho da fama e o silêncio do anonimato…
Quando abri os olhos em Folkestone, o dia já não era criança. A luz invadia o quarto, desenhando nas paredes sombras suaves, quase líquidas, enquanto o sol se demorava nos lençóis desalinhados como um amante silencioso. Era o primeiro sinal de que o cinzento húmido do dia anterior tinha recuado para algum lugar distante do Canal da Mancha, deixando finalmente espaço para uma manhã morna, dessas que cheiram a sal, madeira molhada e liberdade.
A
cidade despertava lá fora com uma serenidade elegante. As gaivotas cortavam o
céu como cartas rasgadas pelo vento e, ao longe, ouvia-se o rumor do mar contra
as pedras do porto. A cidade já não escondia muitos segredos para nós. Tínhamos
caminhado as ruas antigas, os becos inclinados, os cafés pequenos onde os
velhos observam o mundo como quem já sabe o final da história. Precisávamos,
mais do que de descoberta, de pausa. Havia viagens que serviam para fugir e
outras que serviam apenas para respirar.
Penélope
já estava acordada. Sempre acorda mais cedo. Enrolada num roupão branco com o
símbolo bordado do hotel, parecia uma personagem saída de um filme, desses onde
ninguém tem pressa e o silêncio vale mais do que os diálogos. O cabelo caía-lhe
pelos ombros ainda húmido do banho e ela observava-me junto à janela com um
sorriso lento, perigoso na medida certa.
“Vem,
levanta-te… vamos tomar o pequeno-almoço. Depois tenho uma surpresa sensual
para ti. Hum… As surpresas de uma mulher são sempre um território misterioso.
Nunca sabemos se escondem um incêndio, uma ternura ou uma pequena tragédia
deliciosa.
Não
me vou alongar sobre o pequeno-almoço, aquele ritual inevitável que nos devolve
ao mundo. Em qualquer hotel do planeta existem sempre os mesmos perfumes
familiares: o café forte e escuro, quase terapêutico, o pão estaladiço acabado
de sair do forno, a manteiga fria que derrete devagar, as frutas demasiado perfeitas.
Mudam os países, mudam as línguas, mas a liturgia das manhãs permanece intacta.
Pelo
meio, Penélope retirou da mala um envelope decorado com pequenos relevos
dourados. Tinha um aroma subtil, talvez lavanda misturada com baunilha. “É para
ti…” - disse numa voz doce. Depois corrigiu-se, inclinando ligeiramente a
cabeça. “Ou melhor… é para nós.”
Hum…
um presente para dividir?… - pensei em
voz alta. Ela sorriu. “Não. É para partilhar juntos.” A curiosidade chegou ao
limite e apressei-me a abrir o envelope, tentando não danificar aquele excesso
de delicadeza feminina que os homens fingem não notar, mas secretamente
admiram.
“Uma
experiência Spa para dois.” Sorri imediatamente. “Wow… uma massagem para os
dois antes do almoço.” Penélope observou a minha reação com aquele ar
satisfeito de quem sabe exatamente o efeito que provoca.
O
Spa ocupava uma ala reservada do hotel, escondida atrás de corredores silenciosos.
Assim que entrámos, fomos recebidos por um perfume quente de eucalipto, âmbar e
óleos essenciais. A luz era baixa, dourada, quase hipnótica. Havia fontes pequenas
de água a escorrer lentamente por pedras negras e uma música distante que
parecia vir do fundo do mar.
O
mundo lá fora desapareceu. Deram-nos roupões macios e chinelos absurdamente
confortáveis - daqueles que fazem qualquer pessoa questionar a própria vida e
considerar roubar discretamente um par para casa. Penélope riu-se da minha
expressão. “Estás com ar de quem encontrou finalmente o sentido da existência.”
“Se o sentido da existência incluir massagens e sauna, talvez os filósofos
tenham complicado demasiado as coisas.
A
massagem começou numa sala ampla com velas aromáticas e paredes de pedra clara.
Duas marquesas lado a lado. O som das mãos deslizando sobre os óleos. O calor
lento a dissolver a tensão acumulada das viagens, dos quilómetros, dos
pensamentos. Durante largos minutos deixei de sentir o peso do corpo, como se
estivesse suspenso numa espécie de sonho morno. Havia algo profundamente íntimo
naquele silêncio partilhado. Não era desejo urgente. Era outra coisa. Uma
proximidade tranquila, rara, quase adulta. A capacidade de estar ao lado de
alguém sem precisar de palavras.
Depois
vieram a sauna, onde o calor parecia abrir não apenas os poros, mas memórias
inteiras. O jacuzzi envolveu-nos numa água quente e borbulhante enquanto
conversávamos sobre assuntos absurdos - porque os seres humanos têm tendência
para discutir temas ridículos precisamente nos momentos mais sofisticados da
vida.
A
piscina aquecida era um refúgio azul e silencioso. Penélope flutuava
lentamente, com os cabelos presos e os olhos semicerrados, enquanto a luz
refletida na água desenhava movimentos ondulantes na pele dela. Havia qualquer
coisa de mágico. Como se o tempo tivesse decidido parar discretamente para nos
observar.
Quando
saímos do Spa, a tarde já estava tarde. O céu mantinha um azul limpo e o porto
parecia mais vivo. Preparámo-nos para ir almoçar ao restaurante indicado pelo
hotel: o Folkestone Harbour Arm. O restaurante surgia suspenso entre o mar e a
cidade, com grandes janelas panorâmicas e um ambiente simultaneamente
sofisticado e descontraído. Madeira envelhecida, luz natural, detalhes náuticos
discretos e um aroma irresistível a manteiga e ervas frescas
Sentámo-nos
perto da janela. Lá fora, o mar respirava lentamente. O empregado sugeriu-nos
um vinho branco francês mineral e elegante, servido fresco, com notas cítricas
e um final delicadamente floral. Penélope provou primeiro. Fechou os olhos por
um instante e assentiu com uma expressão quase religiosa. “Aprovo solenemente
esta decisão.”
O
almoço foi uma sucessão de pequenas perfeições. Ostras frescas com limão e
pimenta rosa. Vieiras douradas sobre puré de ervilhas e hortelã. Um robalo
delicado com molho de manteiga branca e legumes primaveris tão frescos que
pareciam ter sido colhidos minutos antes. Tudo tinha equilíbrio. Nada gritava.
A verdadeira alta cozinha nunca precisa de exagerar.
Enquanto
aguardávamos o prato principal, fomos abordados por um homem idoso que vendia
flores. Mas havia nele qualquer coisa invulgar. Os olhos verdes eram intensos,
quase cinematográficos. O cabelo escuro, apesar da idade, mantinha ainda
vestígios de vaidade antiga. A pele parecia marcada pelo sol… ou talvez pela
neve. Havia rostos que carregam geografias inteiras. Vestia-se com
simplicidade, mas movia-se com elegância natural, como alguém que em tempos
pertenceu a salões iluminados.
“Flores
para a senhora…? - perguntou com uma voz aveludada, educada, surpreendentemente
firme. Comprámos duas flores. Ele agradeceu com uma inclinação subtil da
cabeça, quase teatral, antes de seguir lentamente pelo restaurante. Fiquei a observá-lo
por alguns segundos. Há pessoas que trazem consigo a sensação estranha de terem
vivido demasiadas vidas.
Mais
tarde, em conversa com o empregado que nos servia, soubemos a verdade. O homem
das flores tinha sido, décadas antes, um ator famoso de cinema. Participara em
filmes europeus conhecidos, frequentara festivais, capas de revistas,
entrevistas, festas onde a champagne corria como água. Depois… vieram os
excessos, decisões erradas, perdas, álcool, desaparecimentos. A carreira
afundou-se lentamente, como um navio elegante abandonado pelo próprio capitão.
“Às
vezes aparece aqui” - explicou o empregado com uma tristeza discreta. “Vende
flores para sobreviver…, mas nunca perdeu a educação. Nem aquele charme
estranho.” Olhei novamente para o homem ao longe. Nesse instante ele sorria
para um casal jovem enquanto oferecia uma rosa. E havia naquele sorriso uma
nostalgia impossível de explicar. Não parecia revolta. Nem derrota total.
Apenas uma saudade silenciosa de quem já pertenceu à luz e aprendeu, da forma
mais cruel, que o aplauso é uma das coisas mais efémeras do mundo.
Penélope
apertou-me a mão por baixo da mesa. E naquele momento percebi algo estranho:
talvez todos nós sejamos apenas isso… viajantes temporários entre glórias
pequenas, amores imperfeitos e dias luminosos em cidades junto ao mar. Alguns
acabam esquecidos. Outros sobrevivem apenas na memória de alguém.
Há
uma crueldade silenciosa na fama que ninguém explica quando as câmaras estão
ligadas. Enquanto os flashes disparam como relâmpagos artificiais e os
jornalistas se atropelam por uma frase banal dita à saída de um restaurante,
parece impossível imaginar aquele rosto sozinho. Parece impossível imaginar que
alguém capaz de parar aeroportos, avenidas, multidões e desejos humanos possa,
um dia, desaparecer do radar emocional do mundo. Mas desaparece.
Sempre
desaparece. A pergunta nunca foi “quanto tempo dura a fama?” A verdadeira
pergunta é: quanto tempo o cérebro coletivo continua a precisar daquela pessoa
para sustentar a própria fantasia? Porque a fama não é amor. A fama é utilidade
emocional. O público usa as celebridades como espelhos ornamentados: para
sonhar, fugir, desejar, imitar, invejar, idolatrar ou destruir.
Quando
a sociedade muda de ansiedade, muda também de deuses. E os antigos ídolos
tornam-se móveis velhos numa casa onde ninguém mora. Existe algo profundamente
macabro nisso. Um cantor pode vender milhões de discos e, vinte anos depois,
ser reduzido a uma música tocada ironicamente num vídeo de TikTok. Um ator que
fazia o mundo parar nos anos 90 transforma-se numa legenda nostálgica comentada
por adolescentes que nunca viram um filme dele inteiro. O algoritmo pega em
cadáveres culturais e ressuscita-os por quinze segundos, como um necromante
digital embriagado.
E
talvez essa seja a forma mais moderna de assombração. Hoje, ninguém desaparece
totalmente. Mas também ninguém permanece verdadeiramente vivo. As redes sociais
criaram uma espécie de imortalidade podre - uma eternidade feita de arquivos,
clips, memes, fotografias comprimidas e entrevistas recicladas. Uma celebridade
antiga pode voltar a “existir” de repente porque alguém descobriu um vídeo
antigo onde ela tropeça numa passadeira vermelha ou dá uma resposta sarcástica
num talk show de 1998. O mundo chama-lhe “conteúdo”. Mas há algo de mórbido em
transformar memórias humanas em combustível algorítmico.
A
fama tornou-se um zombie digital. Respira sem alma. E, no entanto, existe uma
diferença brutal entre ser lembrado e ser relevante. Entre existir online e
sentir o calor do reconhecimento humano. Porque nada substitui o delírio
químico de entrar num restaurante e sentir todas as cabeças virarem ao mesmo
tempo. Nada substitui a intoxicação narcísica de ouvir o próprio nome gritado
por desconhecidos. Nada substitui a sensação de poder caminhar numa rua e
perceber que a realidade dobra ligeiramente à tua passagem.
A
atenção pública altera o cérebro. Literalmente. A validação em massa funciona
neurologicamente como uma droga: dopamina, adrenalina, reforço emocional,
sensação de importância ampliada. Durante anos, o famoso vive numa realidade
paralela onde cada gesto produz reação. O telefone toca constantemente. Há convites,
contratos, entrevistas, fãs, bajulação, falsas amizades, luxos absurdos, hotéis
onde ninguém diz “não”, assistentes que resolvem qualquer problema, antes mesmo
dele existir.
Depois…
silêncio. Um silêncio que não chega de repente. Chega como ferrugem. Primeiro
deixam de convidar. Depois deixam de perguntar. Depois deixam de esperar.
Depois deixam de reconhecer. E um dia acontece algo aterrador: a pessoa entra
num lugar público… e ninguém olha.
Para
alguém que viveu décadas alimentado pela hiperatenção, isso não é apenas tristeza.
É amputação psicológica. O cérebro habituado à recompensa pública entra numa
espécie de síndrome de abstinência emocional. Tal como uma droga retirada
abruptamente, a ausência de validação cria ansiedade, vazio, irritabilidade,
depressão e, muitas vezes, autodestruição. Muitos antigos famosos não procuram
álcool ou drogas apenas por prazer. Procuram substitutos neuroquímicos para o
desaparecimento da excitação social.
É
por isso que tantos acabam afogados em excessos. Não porque tinham “tudo”. Mas
precisamente porque descobriram que “tudo” era artificial. Existe um momento
particularmente cruel na decadência pública: quando o famoso percebe que a
personagem sobreviveu melhor do que o ser humano. O público não ama a pessoa.
Ama a versão editada dela. Ama a personagem luminosa construída por cinema,
música, televisão, imprensa e projeção coletiva.
E
viver anos dentro de uma máscara cria um conflito psicológico devastador. Quem
sou eu quando ninguém está a ver? Parece uma pergunta filosófica elegante. Não
é. É uma pergunta perigosa. Porque há artistas que, ao perderem relevância,
sentem algo próximo de uma morte identitária. Porque toda a autoestima deles
foi terceirizada para aplausos externos. Sem o eco da multidão, sobra apenas o
ser humano cru - inseguro, envelhecido, vulnerável, assustado.
E
o público odeia vulnerabilidade verdadeira. O público prefere mitos. Talvez seja
por isso que certas figuras se tornam eternas apenas porque morreram cedo
demais. Marilyn Monroe não envelheceu diante do mundo. James Dean nunca teve
tempo de se tornar banal. Morreram no auge, congelados numa juventude eterna,
preservados no âmbar da tragédia.
A
morte prematura é uma máquina de canonização cultural. Quando alguém desaparece
antes da decadência pública, o imaginário coletivo preenche os espaços vazios
com perfeição inventada. O cérebro humano romantiza o interrompido. Um ídolo
que morre cedo não sofre o desgaste humilhante da repetição, do envelhecimento
mediático, das entrevistas cansadas, dos escândalos ridículos ou da lenta
irrelevância.
O
morto torna-se puro símbolo. O vivo deteriora-se diante das câmaras. Há uma
ironia obscena nisso: às vezes, a melhor carreira possível para um mito é não
sobreviver tempo suficiente para ver a própria erosão. Mas mesmo os gigantes
acabam devorados pelo tempo. Porque existe uma diferença monumental entre ser
famoso e ser um ícone civilizacional. A maioria das celebridades são meteoros
emocionais: brilham intensamente durante alguns anos até serem substituídas por
novas distrações. Já os verdadeiros ícones deixam ferramentas emocionais para
gerações futuras. Livros. Filmes. Músicas. Ideias. Estéticas. Linguagens.
Uma
música pode atravessar décadas porque ajuda alguém a sobreviver a um divórcio.
Um filme pode permanecer vivo porque traduz uma angústia humana eterna. Um
escritor pode durar séculos porque colocou em palavras algo que continua
impossível de explicar.
A
obra prolonga a respiração do autor. Sem obra, sobra apenas memória social. E a
memória social apodrece rapidamente. A psicologia explica isto de forma
brutalmente simples: o cérebro descarta aquilo que deixa de ser reforçado. Se
um rosto desaparece dos media, as conexões neuronais associadas a ele
enfraquecem. O famoso literalmente começa a evaporar-se da mente coletiva. E
quando a geração que viveu o auge dessa figura morre, a memória deixa de ser
emocional e torna-se apenas histórica.
Já
não existe saudade. Existe apenas informação. É aí que acontece a segunda
morte. A primeira é quando os holofotes se apagam. A segunda é quando morre a
última pessoa que ainda sentia algo autêntico ao ouvir aquele nome. O resto é
arquivo.
E
talvez o mais cruel seja perceber que muitos destes artistas, atores, músicos,
craques do futebol e figuras públicas nunca foram preparados para a aterragem.
O sistema da fama sabe fabricar ascensão, mas não sabe ensinar desaparecimento.
Ensina-se a conquistar o mundo, nunca a sobreviver ao silêncio.
Então
vemos histórias repetirem-se como maldições antigas. Apartamentos vazios.
Dívidas escondidas. Copos às dez da manhã. Remédios para dormir. Substâncias
para acordar. Telefonemas ignorados. Managers desaparecidos. Amigos evaporados.
Rostos inchados pela solidão química.
Existe
algo particularmente desumano na forma como a sociedade consome a queda de um
famoso. O mesmo público que idolatra também saboreia o colapso. Há prazer
coletivo em assistir à decadência de quem parecia inalcançável. Como se
destruir um ídolo restaurasse momentaneamente a igualdade entre humanos.
E
os media sabem disso. A decadência vende. A fotografia do ex-astro envelhecido,
perdido, alcoólico ou arruinado produz uma satisfação sombria nas massas:
“afinal era humano”. O problema é que, enquanto o público comenta, existe uma
pessoa real afundando-se lentamente numa crise psicológica que poucos
compreendem. Porque o anonimato não é descanso para quem viveu décadas sem
privacidade. O anonimato pode parecer um cemitério. Principalmente quando a
identidade inteira foi construída sobre ser visto.
Há
antigos famosos que entram em depressão severa não por falta de dinheiro, mas
por falta de significado. A fama cria a ilusão de transcendência: “eu importo
porque milhões olham para mim”. Quando isso desaparece, sobra a pergunta mais
insuportável da condição humana: “Quem sou eu sem testemunhas?”
E
talvez seja aqui que reside o lado mais misterioso de toda a fama: ela nunca
pertence verdadeiramente ao famoso. Pertence ao imaginário coletivo. O público
empresta atenção temporária e depois retira-a sem aviso. Como o mar. Avança.
Recua. E deixa os antigos reis da maré abandonados na areia, cobertos de sal,
silêncio e memórias de aplausos que já ninguém consegue ouvir.
No
final do almoço fomos até ao Bouverie Place Shopping Centre. No coração da
cidade, aquele centro comercial parecia um pequeno organismo moderno incrustado
entre ruas antigas e edifícios que ainda guardavam o cheiro húmido da história
inglesa. As vitrinas brilhavam com a arrogância típica das grandes marcas, como
se cada manequim acreditasse realmente que a felicidade podia ser pendurada num
cabide e comprada em saldo.
Penélope
queria levar presentes para o filho e para os pais. Havia qualquer coisa de
profundamente bela na maneira como ela escolhia cada objeto: demorava-se nos
detalhes, tocava nos tecidos, sorria para coisas mínimas. Não comprava apenas
lembranças; comprava fragmentos de presença, pequenas provas materiais de que
tinha existido longe de casa e, ainda assim, pensara neles. Talvez seja isso o
amor maduro: esta capacidade de viajar milhares de quilómetros e continuar a
carregar os outros dentro do peito como quem leva fotografias invisíveis na
carteira.
Amanhã
seria a última viagem na minha companhia. Pelo menos, para já… O voo dela
partiria de Londres para Atenas ao final do dia. E talvez por isso cada passo
daquela tarde tivesse o peso discreto de uma contagem decrescente.
Passeámos
pelas ruas históricas da cidade com os sacos de compras nas mãos, rindo de
coisas pequenas, desviando-nos de turistas distraídos, atravessando vielas onde
o vento vinha do mar carregado de sal e frio. Foi um momento leve, quase
perigosamente leve, porque há instantes felizes que nos assustam mais do que a
tristeza. A tristeza prepara-nos. A felicidade apanha-nos desarmados.
Penélope
repetia várias vezes: “Da próxima vez…” Ou: “Em breve…” E eu limitava-me a
ouvir. Porque percebi que aquelas palavras tinham deixado de ser simples
expressões de cortesia emocional. Quando ela dizia “da próxima vez”, não estava
apenas a planear um reencontro; estava a construir uma continuação. Era a
maneira delicada que encontrou de confessar que o presente já lhe parecia curto
demais.
E
quando insistia no “em breve”, não falava de calendário. Falava de urgência. Da
urgência absurda que sentimos quando encontramos alguém capaz de transformar o
mundo num lugar menos hostil. É estranho como o ser humano consegue sobreviver
anos inteiros sem certas pessoas e, depois de as conhecer, passa a sentir a
ausência delas como uma amputação iminente.
Escondi
a minha avaliação. Os homens fazem muito isso. Fingem racionalidade porque têm
medo da dimensão do próprio afeto. Inventámos até expressões elegantes para
mascarar o pânico: autocontrolo, maturidade, prudência. Mas a verdade é menos
nobre. O coração masculino, quando ama a sério, torna-se um animal silencioso e
assustado.
Regressámos
ao hotel cansados, carregados de sacos e daquela fadiga boa de quem viveu o dia
inteiro sem economizar emoções. No quarto, parámos alguns minutos diante da
janela. O Canal da Mancha estendia-se lá fora como uma superfície escura e
infinita, refletindo pontos dispersos de luz. Havia qualquer coisa de simbólico
naquele mar: separava países, aproximava continentes, transportava partidas e
regressos desde séculos em que os amantes ainda escreviam cartas em papel.
Descemos
depois ao bar do hotel para terminar a noite com uma sandes de presunto e
queijo nas mãos e cerveja dourada gelada sobre a mesa, enquanto uma música jazz
preenchia o ambiente com aquela melancolia sofisticada que faz parecer que
todos ali escondiam segredos interessantes. O jazz tem esse talento raro:
faz-nos sentir personagens secundárias de um filme antigo onde ninguém sabe
exatamente quem vai partir primeiro.
Não
ficámos muito tempo. Penélope abanava o cartão do quarto num movimento aparentemente
distraído, mas que denunciava uma pressa difícil de esconder. Para qualquer
outra pessoa, pareceria apenas uma mulher cansada à procura de descanso. Mas eu
já conhecia o idioma invisível do corpo dela.
Depois
atravessou o tapete aveludado do hotel com a coluna irrepreensível, os ombros
abertos e o queixo paralelo ao chão, mantendo aquela geometria elegante de quem
domina perfeitamente a própria presença. Havia nela uma disciplina estética
quase cruel. Como se tivesse aprendido, ao longo da vida, que o mundo respeita
mais facilmente quem nunca deixa cair a postura.
Por
dentro, porém, o ritmo era outro. Cada segundo de espera pelo elevador
parecia-lhe um desperdício intolerável. Não corria; deslizava. E eu observava-a
com aquela espécie de espanto masculino que mistura admiração, desejo e
incredulidade. Porque algumas mulheres não entram apenas numa divisão - alteram
a temperatura emocional do espaço.
Ela
pensava em Atenas. Na cidade branca, no mármore aquecido pelo sol, nas ruas
antigas, no Mediterrâneo. Mas, naquele instante, a Grécia parecia-lhe distante
e fria. Amanhã seria a despedida formal: a noite das promessas, das frases
cuidadosamente escolhidas, dos abraços demorados e dos silêncios perigosos. Mas
aquela noite - a penúltima - ainda pertencia ao território bruto da emoção,
antes que a consciência da partida estragasse tudo com a sua lucidez
insuportável.
Ao
entrar no elevador, Penélope olhou-se ao espelho. Corrigiu um fio de cabelo que
insistia em cair-lhe sobre o rosto. Um gesto automático, quase mecânico, para
disfarçar a urgência que lhe atravessava o corpo. O reflexo devolvia-lhe
serenidade. Os olhos traíam-na completamente. Havia neles aquele brilho raro de
quem já desistiu de fingir distância emocional, embora continue a tentar salvar
as aparências por educação, orgulho ou simples medo de sofrer mais.
Ela
queria que as portas se abrissem depressa. Queria chegar ao abraço que, por
algumas horas, faria desaparecer a ideia absurda de aeroportos, fusos horários
e despedidas. O amor tem esta dimensão ridícula: transforma adultos funcionais
em criaturas que odeiam relógios e voos internacionais.
Faltavam
poucos metros. Ela respirou fundo, ajeitou a gola do casaco e, com a elegância
de uma rainha que regressa ao seu reino privado, preparou-se para abandonar a
compostura no exato instante em que a tranca do quarto produzisse o último
clique.
No
quarto, a luz era quase inexistente. Apenas o brilho distante das estrelas
atravessava a janela, desenhando sombras suaves sobre os contornos dos corpos e
dos objetos. Era difícil distinguir detalhes. Talvez porque certas noites não
foram feitas para ser observadas com nitidez, mas sentidas como se fossem
música. O jazz ainda parecia ecoar ao longe. A respiração tornava-se mais
ofegante. O calor da pele dissolvia-se lentamente em pequenas gotas de suor.
E
havia qualquer coisa de profundamente humana naquele silêncio interrompido
apenas pela proximidade dos corpos. Não a violência teatral da paixão inventada
pelos filmes, mas aquela intimidade rara que nasce quando duas pessoas deixam
de tentar impressionar-se e começam apenas a existir uma diante da outra.
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Precisávamos
de dormir algumas horas. No dia seguinte esperava-nos uma nova viagem até
Londres. E talvez seja essa a maior crueldade do amor adulto: mesmo nas noites
mais bonitas, o despertador continua programado para tocar.







